Design e Nonsense
04/01/2011 2 Comentários
O nonsense foi um dos conceitos que estudei em meu TCC, mas meu interesse por ele começou na quarta fase do curso, assim que fui direcionada a desenvolver uma pesquisa sobre brinquedos infantis. Pesquisei algumas referências na história dos brinquedos, na linguagem das crianças, etc. No entanto, quando me deparei com Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll, não vi outra questão mais densa para a pesquisa que não fossem as múltiplas questões do nonsense.
O nonsense tem a ver com “quase isso”, com “pode ser”, com “mais ou menos”. Tem a ver com criatividade, com invenção, com brincadeira. Tem a ver com superfície, com acontecimento. Mas e o brinquedo? O brinquedo tem a ver com design. Ou com papel dobrado, pedaço de madeira pintado, balão cheio d’água. Brinquedo tem a ver com qualquer coisa que faça parte da brincadeira. Tem a ver com nonsense.
Em meu TCC construi um livro. O projeto é intitulado “Livro-Objeto-que-Deseja” e envolve, resumidamente, o conceito de nonsense e de desejo, além dos conceitos de livro-objeto e de objeto-de-desejo. Assim, a proposta foi a construção de um livro para as pessoas e não das pessoas, para as palavras e não das palavras. E nessa tentativa de vivenciar uma nova teoria de formação de um livro, estudei também o rizoma e o devir, de Deleuze e de Guattari, ambos conceitos salientes enquanto materialização do projeto.
Por mais clara que seja a relação de um livro com um projeto de produto, não é rara a negação do livro como produto projetável em outros sentidos que não seja estritamente o de suporte para uma mensagem, mas que participa efetivamente da mensagem (ou da “não-mensagem”).
Se o livro é percebido por outros sentidos, por que não poderia ser assim projetado? E “outros sentidos” não se restringem somente aos sentidos concretos/palpáveis, mas que o livro possa, por exemplo, tornar-se um serviço ou, então, que seja voltado não para o objeto, mas para a “ação de se usar um livro” (que não implica necessariamente leitura). Afinal, um livro pode abranger aspectos similares aos de qualquer produto, ainda mais quando se trabalha com nonsense.
Mas no que implica o nonsense? Para entender uma negação de sentido é indispensável o entendimento da definição do próprio sentido. Deleuze (2007, p. 23) afirma que “o sentido é o exprimível ou o expresso da proposição e o atributo do estado das coisas”, ele está entre a proposição e as coisas, ou seja, é um “acontecimento”. Por isso, continua o autor, não se pergunta qual o sentido de um acontecimento, pois o acontecimento é o próprio sentido.
O nonsense é um acontecimento de “cair a ficha”. Ele depende de uma proposição para subsistir, uma vez que é o expresso dessa proposição. Deleuze (2007, p. 18) questiona sobre as relações presentes nas proposições: “o círculo da proposição é formado pela designação, manifestação e significação. Mas, onde pode ser encontrado o sentido de uma proposição?” O filósofo sublinha que o sentido se diferencia tanto do objeto físico (designação), como do vivido psicológico e das representações mentais (manifestação) e dos conceitos lógicos (significação): o sentido é a quarta dimensão da proposição.
“Ele [o sentido] volta uma face para as coisas, uma para as proposições. Mas não se confunde nem com a proposição que o exprime nem com o estado de coisas ou a qualidade que a proposição designa. É, exatamente, a fronteira entre as proposições e as coisas.” (DELEUZE, 2007, p. 20-22-23)
Deleuze explica que se o sentido é a fronteira entre as coisas e as proposições, os substantivos e os verbos, as designações e as expressões, ele é o corte ou a articulação da diferença entre as duas coisas, já que, segundo o teórico, dispõe de uma impenetrabilidade que lhe é própria e na qual se reflete; por isso ele deve se desenvolver por meio de paradoxos.
Quanto à Alice, Bastos (2001, p. 20-21) afirma ser “um ser ameaçado e atacado pela linguagem”. Uma vez que o que se percebe nos textos de Lewis Carroll não é a morte do sentido, mas sim uma reativação do processo do sentido em um nível intuitivo, imaginário e aleatório. No entanto, o nonsense não é um “caos textual”, ele abandona formalmente a regra, o gramatical, mas ainda está na língua, conforme o discurso a seguir:
“O não-senso instala-se nas fronteiras da língua, onde o gramatical e o agramatical se encontram, onde a ordem (sempre parcial) da língua encontra a desordem (nunca total) do que está além dela. Objeto curioso e paradoxal, uma fronteira ou um limite. [...] Há sempre alguma coisa além do ponto último, barreira ou espaço.” (LECERCLE, apud BASTOS, 2001, p. 21)
Bastos coloca que essas considerações de Lecercle, a respeito de ultrapassar limites e de transgredir, são fundamentais à definição do texto nonsense e esclarecedoras para uma possível diferenciação entre o que é nonsense e o que é apenas errado, desordenado, caótico. Segundo a autora, o nonsense não apenas ultrapassa um limite, mas também o atravessa, incorpora-o.
O que esclarece o fato de o nonsense estar dentro da linguagem é o motivo de o sentido estar. Bastos explica que o nonsense não se resume a uma falta ou ausência de sentido, mas trata-se de uma negação. Como uma negação remete a uma afirmação, o nonsenseprova a existência do sentido paradoxalmente. A ausência de sentido colabora por ser o oposto do que é o nonsense, revigorando-o por ser multiplicador de sentidos.
O que se deve entender por nonsense, portanto, é o oposto da ausência de sentido ao mesmo tempo em que não agrega nenhum sentido particular. O nonsense é declaradamente “uma espécie de dialeto da inocência, uma linguagem associada à infância, mas, de algum modo, livre de carga do sentido” (HAUGHTON, apud BASTOS, 2001, p. 20).
Deleuze resume o conceito afirmando que “ele tem por função percorrer as séries heterogêneas e, de um lado, coordená-las, fazê-las ressoar e convergir e, de outro, ramificá-las, introduzir em cada uma delas disjunções múltiplas. Ele é ao mesmo tempo palavra e coisa” (DELEUZE, 2007, p. 69). Ele pertence simultaneamente a duas séries que estão sempre em desequilíbrio, nunca se emparelham, pois são opostas.
Quando precisamos projetar uma cadeira, por exemplo, qual é geralmente o primeiro pensamento? “Não vamos projetar uma cadeira, mas sim um objeto para sentar”. O objeto é negado para a possibilidade de ser multiplicado, mas ele não deixa de existir na ação de sentar, pois continua insistindo nas entrelinhas do projeto, mesmo que o resultado seja um tapete ou uma escada.
Partimos, então, da premissa de que um objeto para sentar é um tapete. Mas o que é um tapete? Segundo o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, um tapete é um “estofo com que se cobrem ou protegem pavimentos”. Mas se fôssemos projetar um tapete, pensaríamos em um objeto para sentar ou em algo para proteger pavimentos? Um tapete poderia ser, entre outras coisas, uma tinta siliconada que aderisse ao pavimento. Mas isso não seria um objeto para sentar, apesar de ser possível enquanto função secundária. Seria um projeto de tinta. E se fôssemos desenvolver um tipo de tinta, pensaríamos em projetar um tapete?
Não é questão de aplicar o nonsense no design, mas sim de enxergar com o que o design faz relações, onde estão suas intersecções. E através da óptica do design, trabalhar com essas relações, caminhando por elas, fazendo-as convergir no projeto e expandi-lo; assumir que, de fato, os resultados dos projetos são o que são, mesmo que isso dependa de entidades verbais infinitas e indefinidas.
Referências:
BASTOS, Lúcia Kopschitz Xavier. Anotações sobre Leitura e Nonsense. São Paulo: Martins Fontes, 2001.
DELEUZE, Gilles. Lógica do Sentido. São Paulo: Perspectiva, 2007.
PRIBERAM. Dicionário Priberam da Língua Portuguesa: Tapete. Disponível em: <http://www.priberam.pt/dlpo/default.aspx> Acesso em: 4 jan. 2011.







Muito boa sua estréia Anna, ávida de sutilezas textuais e questionamentos de complexidade que condiz com o tema. Embora seja arriscado classificar Deleuze et. al. na escola do estruturalismo, eu vejo muito disso nele, assim como em Barthes ou Baudrillard: a tentativa de criar um sistema lógico que faça todo o sentido em determinado contexto, quase como uma “emboscada” científica para falar daquilo que geralmente a ciência é contra. Isso não é uma crítica, aliás é uma forma exemplar de subversão filosófica que quebra os paradigmas da racionalidade através da própria racionalidade.
Particularmente, o que eu vejo no nonsense é aquilo que Jung chama de “antinomia”, isto é, o contrário da síntese: a soma da tese e da antítese não é algo novo, apenas um acontecimento que manifesta simultaneamente os dois lados. Deste modo, consciência e inconsciente se encontram naquilo que Jung intitula de “arquétipo psicóide”. Humanóide significa algo que tem a forma humana (mas não é humano), logo psicóide é a característica de “imitar” algo psíquico, embora seja na verdade concreto e visível cosncientemente. Mas isso é história para outro post…
Por fim, deixo abaixo meu antigo comentário publicado no extinto blog da Parêntesis, apenas a título de registro – esclarecendo, eu tive a feliz oportunidade de participar da banca de TCC de Anna Paula, realizada em julho de 2010 no IFSC.
“Particularmente, vejo um impulso vital imanente neste trabalho, sob a maquiagem de um método acadêmico, o que é comum em trabalhos de cunho teórico. O que certamente não é comum, porém, é justamente esse caráter teórico, no sentido de mais abstrato ou conceitual do que concreto, nos projetos de Design de produto.
Nesse eufemismo metodológico, também vejo muito de intuição. Não como um sentimento ou como uma inspiração, mas uma repercussão, um método intencionalmente elaborado, esboçando quase um intuicionismo projetual. Através de Deleuze, Guattari e Baudrillard, Anna Paula elabora suas regras estritas, que constituem aquilo que Bergson chama de precisão em filosofia. Isso porque a intuição já supõe uma precisão na medida em que concentra, mas não esgota, a fecunda presença do imaginário num objeto transparente, como se quisesse ser preenchido com a imagem de quem o lê. Mas a maior incidência dessa intuição está intimamente ligada à razão de um objeto que deseja segundo o vocabulário de Baudrillard. Não é o desejo do sujeito que vigora, nem mesmo do objeto. Estamos diante de uma ontologia complexa, da ideia de coexistência, do impulso vital como movimento entre a alma humana e o objeto inanimado. Mas o que exatamente Anna Paula procura fazer com isso dentro de um projeto de produto?
Ela procura experimentar o que há de mais difícil e mais belo na área do Design, ainda que isso esteja escondido na academia contemporânea, uma instituição que ainda não enxerga a autotemporalidade da imagem, um movimento interno dos conceitos filosóficos. Quando a potência de pensar experimenta a si própria, são as próprias coisas que recebem novas verdades, articulando-se e ramificando-se de outro modo, fora dos enquadramentos que lhes são ordinariamente impostos por uma taxonomia científica totalizadora. Como isso acontece? Por meio da trindade bergsoniana do conceito, da percepção e do afeto, algo que se adensa nos estranhos contatos da palavra com os problemas que lhe dão sentido. O almejado movimento é produzido nessa relação, que envolve um novo modo de ver, ler e sentir.
Em meio a tantos não-sentidos, tive o privilégio de acompanhar o trabalho de Anna Paula através da Editora Parêntesis, orientando-a sempre que necessário. Neste interim, repetirei aqui algumas considerações que fiz diretamente aos professores de Anna Paula. Sob a perspectiva do Design de Produto, arrisco-me a dizer que este projeto industrial já existe no próprio momento que foi projetado, isto é, antes de ser produzido. O possível objeto-que-deseja não se encerra na forma plástica, pois a duração que ele contém serve para o leitor se sentir vivo dentro da forma, na medida em que reconstrói o sentido daquilo a todo instante. Acredito que iniciativas como essa são necessárias, justamente por serem normalmente ignoradas. Seu caráter teórico não resolve por si só todos os problemas, mas é uma reflexão necessária e que, quanto mais consistente, mais atribui uma unidade de sentido ao projeto de Design.
Sendo assim, confesso que a abordagem de Anna Paula me surpreendeu. Entender Deleuze e, sobretudo, conseguir explicar de maneira lógica sua filosofia (que critica declaradamente a lógica) não é nada fácil. Principalmente em um contexto estigmatizado pelo dilema maniqueísta estética vs. função, que costuma levar o estudante de Design a um estreitamento da visão, e não o contrário. Hoje noto que se ater à produção em série afasta a discussão de aspectos mais importantes, como questões culturais, questões sobre o papel social do Design e outras questões que eu considero urgentes. Como pesquisador, creio que no contexto acadêmico de Design a proposta de Anna Paula auxilia de modo estimulante ao crescimento de nossa produção acadêmica que, por sua vez, pode contribuir em uma maior autonomia do Design enquanto área do Conhecimento. Deve-se levar em conta que o conteúdo do livro ainda não me foi revelado, porém a própria fundamentação teórica deste trabalho já superou minhas expectativas e seria merecedora de uma publicação. Aliás, como isso seria lançado no mercado? Não sei e não me importo, pois acredito que a academia não deve funcionar em função do mercado, podendo muitas vezes estar adiante deste. Minha confiança na criatividade de Anna Paula foi estabelecida com este trabalho e, sem mais, sinto-me satisfeito enquanto colaborador do mesmo.”
Espero colaborar sempre contigo Anna, um sorriso grande.
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