Manifesto AntiDesign 2.0 / AntiCast

Formei-me em Design Gráfico na PUC-PR em 2007. Por causa  de professores inspiradores, fui contaminado com o desejo do estudo. Nunca fui aluno dedicado em nada até encontrá-los. Eles me ensinaram que a Universidade tem uma arma que é deixada de lado: a provocação.

Me interessei mais pela área acadêmica do design, da pesquisa, da teoria, e sempre encontrei resistência a essa atitude, tanto por parte de colegas quanto de professores. Muitos não entendem ou não querem entender a importância do estudo teórico, da discussão, da multidisciplinaridade – esse chavão que, apesar de muita gente falar para se achar “legal”, é pouquíssimo posto em prática.

Ao ingressar no mestrado, logo após a graduação, eu senti o impacto de estar rodeado de pesquisadores apaixonados. Me sentia uma criança. Mesmo os melhores professores, aqueles inspiradores que falei há pouco, não conseguiam criar uma atmosfera de discussão tão inflamada quanto aquelas que tinha em São Paulo. Fiquei com pena do Design. Senti na pele o atraso da nossa área em relação a produção científica em outras áreas de conhecimento. Decidi que iria fazer algo, nem que fosse pouco.

Foi quando escrevi o Manifesto AntiDesign. Um texto que não assinei de propósito (e fui criticado por isso). Não o assinei porque não era apenas eu falando. Outras pessoas sentiam as mesmas frustrações acadêmicas que eu. Se antes a Universidade era um campo de produção de conhecimento, ela tornou-se fábrica de mão de obra “especializada”. A mediocridade, que deveria ser combatida, tornou-se dona da casa.

E foi com este espírito inflamado que o AntiDesign tornou-se provocação para muitos. Era um texto de 5 páginas, criticando tudo o que via na frente. A Juliana Franklin, minha colega da graduação, me ajudou a divulgar.

Ele me rendeu amigos, palestras, emails de ódio e discussões intermináveis em comunidades do orkut. A provocação foi bem sucedida. Incomodei.

Com o tempo, parei de me dedicar a ele pelas razões mais diversas. Mas o desejo de voltar ao ringue nunca foi embora.

Hoje, quase 4 anos depois da primeira versão do Manifesto, escrevi a versão 2.0.

AntiCast, o podcast de Design, Comunicação e Cultura

O fiz porque após meses de planejamento, finalmente está nascendo meu novo filho, o AntiCast, um podcast sobre Design, Comunicação e Cultura. Ele será lançado em breve, e o manifesto pode ser lido na entrada do site temporário.

(Para quem não sabe, um podcast é como um programa de rádio via internet. Mas é uma mídia diferente: é um arquivo de áudio, em formato mp3, que você puxa ou ouve por streaming. No Brasil, há vários podcasts excelentes dos mais variados temas)

Segue abaixo o Manifesto 2.0.

Como toda ciência, o Design nunca possuirá definições precisas. O diálogo é necessário. Lidar com isso. Brigar.

Se o Design é isso que aprendemos na universidade, uma grande simulação baseada em valores de mercado que nunca serão exatamente concretos, já que são também simulações, declaramos que não mais acreditamos no Design.

Diante do fato das brigas atuais da universidade serem as mesmas há décadas, velhos relógios empoeirados cujas cordas foram arrebentadas pela força da pomposidade do hábito, torna-se necessária a criação de um novo campo de batalha. Criar contrapontos, pontos de vista opostos. Todo modelo requer um anti modelo. Um AntiDesign.

Um campo onde será permitido discutirmos filosofia, psicologia, artes, cultura – a busca pelo conhecimento fora dos enlatados desta ciência caduca que a academia tornou.

Compreendemos que essa postura é besteira para uma grande maioria de designers que optam pelo conforto de seus lugares comuns. Para estes, dizemos: podem ficar com seu Design.

Nós, AntiDesigners, os marginalizados dos marginalizados, temos agora nova morada. Somos suas antíteses, seus espelhos feios, seus críticos, os que apontarão o dedo e serão apontados.

Acreditamos no diálogo.

Não negamos o mercado. Negamos, sim, a atitude autoritária que o toma como única instância moral.

Deve haver algo mais além desse baile de mesmices. Embarcamos nesta procura.

Se você se identifica com nossas inquietações, você está no lugar certo.

Você é um AntiDesigner. Seja bem vindo.

Quem quiser conhecer o manifesto original de 2007, cheio de expressões revoltadas, você pode puxá-lo no site do AntiCast.

E se você, leitor, se incomoda com a falta de conhecimento científico e cultural que o designer parece sofrer, especialmente no âmbito universitário, eu recomendo que acompanhe o site. Muito em breve os episódios estarão no ar.

O podcast será um canal de comunicação aberto para todos os designers que querem conversar sobre os mais variados temas: filosofia, psicologia, literatura, história em quadrinhos, cinema, além, é claro, de discussões sobre situações específicas do nosso mercado de trabalho. A troca de idéias e experiências é o objetivo principal.

Agradeço a todos que me acompanharam e discutiram comigo desde o primeiro Manifesto e os que estão comigo nesta nova jornada. A lista é enorme, mas vocês sabem quem são.

Agora, aguardo ansioso pelo envolvimento dos novos AntiDesigners soltos por aí. O convite está lançado. Para os que aceitarem, sejam bem-vindos à sua nova casa. Vamos destruí-la com todo o carinho que ela merece.

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Acerca Ivan Mizanzuk
Antes de tudo, um velho rabugento preso dentro de um corpo já não tão jovem assim. Fora isso, é designer gráfico formado pela PUC-PR, com mestrado em Ciências da Religião pela PUC-SP e atualmente doutorando em Tecnologia na UTFPR. Quando tem paciência, tenta ser escritor e podcaster. Ele também espera um dia conseguir ser alguma coisa que preste. http://www.anticast.com.br | http://twitter.com/mizanzuk | http://www.facebook.com/ivan.mizanzuk | http://mizanzuk.blogspot.com

3 Respostas a Manifesto AntiDesign 2.0 / AntiCast

  1. Francis Fernandes diz:

    Sou administrador de empresas, analista de sistemas e um cara que está aprendendo um pouco a cada dia que passa sobre os prazeres que a internet (programação, design, funcionalidades que aprimoram nosso dia-a-dia) pode trazer.

    Hoje mesmo estava pensando sobre o trabalho do design, na realidade em alguns momentos deixa-se de analisar a funcionalidade de determinados produtos, layouts que estão desenvolvendo em prol da estética do trabalho a ser feito.

    Abraço, bom post.

  2. Déborah Thieme diz:

    Não sou designer, mas amo o design. E por amá-lo tanto, não quero ver ele se acomodando, achando que já chegou no auge das discussões sobre si mesmo. O próximo passo depois do auge é o declínio.
    Viva o anti-design que faz o design ser mais vivo.

  3. JLeão diz:

    Cara, Adorei o post. Assim que adentrei no mundo acadêmico do design, sempre senti uma pompa rançosa de discussão do design, dos seus valores e de criticar o que é feito sem o precioso conhecimento acadêmico. Eu pensei em algo semelhante, no caso, num design reverso, que ao invés de criticar um logotipo, uma fachada ou letreiro, interpretar o contexto social de onde eles surgiram (isso também não seria design?) Não sei, acho o ambiente acadêmico muito hostil ainda para estas “viagens”. A cada dia que passa me vejo mais Anti-Designer…

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