Livro-Objeto-que-Deseja [1]
28/01/2011 3 Comentários
No último post sobre Design e Nonsense, comentei rapidamente sobre o meu TCC, no entanto, acho válido explorar também um pouco do processo do trabalho, considerando que ele pode servir como exemplo concreto desenvolvido numa metodologia sem muita hierarquia (como é de praxe na maioria dos projetos da faculdade: “uma etapa de cada vez”).
Na medida em que o TCC foi sendo desdobrado, percorrendo aproximadamente cinco meses, fui somando assuntos como estudos pertinentes e, a cada vez, o trabalho se encontrava em um estado diferente, isto é, ele foi escrito em uma trajetória de múltiplos devires, pois “a escrita é inseparável do devir: ao escrever estamos num devir-mulher, num devir animal ou vegetal, num devir-molécula, até num devir-imperceptível” (DELEUZE, GUATTARI, 2000, p. 11).
Devir, por Deleuze e Guattari, foi um dos conceitos, junto com rizoma, que finalizou o projeto. Digo isso não apenas porque me deparei com o conceito ao final da trajetória, mas porque foi depois de falar que eu consegui medir as palavras. Antes de “falar” eu sentia uma dificuldade tamanha em saber o que era o projeto, por onde ele transitava, com o que ele se conectava, etc., pois o projeto nem existia ainda e as palavras insistiam em subsisti-lo. Como subsistir algo que não existe ainda?
É, mas nem tudo na vida são devires-flor, eu fui obrigada a subsistir com as palavras um “livro-objeto-que-deseja” que nem sequer existia. Ou seja, subsisti por algum tempo um buraco vazio. As flutuações acima do buraco começaram, logicamente, com o nonsense e seus múltiplos sentidos. Daí pro desejo, pros objetos-paixão e pra configuração poética.
O nonsense era mais a sombra do “livro-objeto-que-deseja” (que ainda não existia) do que uma flutuação propriamente dita. Contudo, devo esclarecer que o sentido não é algo que existe, mas sim que subsiste uma proposição (como podemos conferir no post anterior sobre design e nonsense). Portanto, o nonsense, nesse projeto, deve ser uma “sombra flutuante”, enquanto paradoxo mesmo.
Do nonsense pro desejo: comecei com algumas investigações sobre a palavra desejo, passei pelo latim com cupio, cupeo, desiderare, sidus, sideris… cheguei em “desejar é ter certeza da ausência”, com a fala de Giorgi (1990, p. 133): “não tenho o que quero e por isso eu desejo”. Daí pro grego orégo e orgué, chegando à sensação de achar agradável, com sintomas impulsivos por ter algo espalhado pelo corpo, ainda segundo Giorgi.
Na sequência das investigações que envolvem desejo, encontrei no Abecedário de Deleuze (1988), no qual o filósofo expõe seu parecer sobre uma palavra para cada letra do alfabeto, a letra D, que é correspondente à palavra “desejo”, no sentido de “construção de um agenciamento”.
Deleuze prossegue apresentando que o agenciamento remete a um estado de coisas, em uma primeira abordagem, pois cada dimensão de agenciamento comporta um estado de coisas diferente, afins ou não ao ideal de cada indivíduo “desejante”.
Deleuze afirma ainda que “desejar é delirar”. Propõe que “Delira-se sobre o mundo inteiro” (DELEUZE, 1988, s/p). Segundo o autor, ao contrário da visão psicanalítica, o inconsciente não é um teatro, mas sim uma fábrica, é produção. O inconsciente produz, não representa.
Mas qual a conexão entre desejo e nonsense? Novaes (1990, p. 11) assinala que o que acontece com o desejo é o mesmo que acontece com a liberdade: “prodigiosa desatenção, perda de intensidade, um estado de perturbação provocado pela imaginação delirante”. Como se fosse uma explosão e um estado de choque, o delírio e o estado de perturbação, no qual diante de qualquer opção, pode ser qualquer coisa.
A partir do momento em que se definiu de desejo como um agenciamento de coisas e de acontecimentos e que supostamente um agenciamento seja algo que possa também acontecer em superfície, assim como o sentido, acreditou-se na possibilidade de seu desdobramento em várias vias, entre a coisa e a proposição, subsistindo-a, da mesma maneira que insiste o nonsense.

livro-objeto-que-deseja: mandíbula sonâmbula perambula
Outra conexão, ou ainda a mesma, percebida de outro modo, é que o livro-objeto-que-deseja foi projetado com espaços vazios, com recortes passantes nas estruturas dos livros, ideia que se manteve desde o início do projeto por remeter a uma falta que permite qualquer coisa, como excesso de sentido, de não-senso e de nada, ao mesmo tempo, que também pode ser qualquer coisa. E o desejo? Pois se o desejo é a certeza da ausência, e a ausência permite qualquer coisa, seria o desejo a certeza de qualquer coisa, e qualquer coisa é nada, e, deste modo, pode ser excesso com relação ao sentido/tudo.
Arrisco-me expor um exemplo cotidiano:
Precisa-se de um vestido para uma festa, pois o guarda-roupa está vazio de vestidos para a específica festa. Portanto, caminha-se até uma loja de sapatos e compra-se o mais bonito deles. Resolvido o problema: o guarda-roupa não está mais ausente de vestidos, uma vez que eles subsistem o sapato que foi comprado.
Nesse contexto, os vestidos não são coisas, mas proposições que subsistem um determinado sapato, os vestidos não fazem sentido sem o sapato, assim como o expresso, o sapato, não sobrevive sem a sua expressão. Sem a ausência de vestidos o sapato não seria comprado. Enfim, o que se espera de um vazio é um preenchimento, seja o preenchimento com coisas exteriores ou com o próprio vazio (enquanto preenchimento), como a decisão de não ir à festa por possuir vestidos ausentes, por exemplo.
Como problema desse TCC, foi apresentada a questão: “como fazer desejar o nonsense?” Pois desejar o nonsense seria talvez redundante, já que o próprio desejo deve coexistir com a sua possibilidade. Cabe colocar que é o livro que deseja que, desse modo, reflete a linguagem e o nonsense para ele próprio, permanecendo entre a coisa/objeto-livro e o sujeito que propõe voluntária ou involuntariamente seu desdobramento.
O fato de o livro refletir a linguagem e o nonsense para si próprio é que desdobrou a questão da função poética, da metalinguagem.
Chalhub (1990, p. 42) expõe sobre a literatura na arte: “O poema que se pergunta sobre si mesmo [...] constrói-se contemplando ativamente sua construção. Podemos dizer que é uma tentativa de conhecimento do seu ser”. A metalinguagem indica o mito da criação dissolvido, ou seja, o processo de produção da obra é visível e compreensível. (Mesmo que, de incerta forma, bagunçado.)
Segundo a autora, o mito da criação era pensado como “possuído por uma luz transcendente”, em que o artista era “tocado pelo divino, instrumento para que o dom da criação se manifestasse”. É nesse sentido que o público contemplava a obra de arte como algo inatingível. No entanto, o conceito da arte tornou-se construção, não mais percebido como expressão.
Encontrei nesse contexto a “reprodução”, o que se pode ter como nota da relação arte-design/design-arte tão discutida e transbordante de opiniões avessas. Entretanto, onde estaria o design senão hifenizado com outras áreas? É de esquecimento que voltei a examinar essa relação, pois não pretendo chegar a nenhuma conclusão surpreendente sobre ela, nem mesmo provocar explosões acerca do assunto, apenas utilizei essa relação da melhor maneira possível, entre as outras relações, para a construção do tal produto-livro inserido no design.

mandíbula sonâmbula perambula formando um único exemplar
Vale acrescentar ainda sobre a metalinguagem, tratada por Chalhub, que o poema metalinguístico expõe uma consciência da linguagem, sendo que o poeta pode dialogar com outros textos de sua própria produção. Como o produto desse projeto é formado por mais de um produto, ainda que todos formem um único exemplar, mas com a possibilidade de serem adquiridos separadamente, torna-se visível esta colocação em que a produção dialoga entre si.
Foi proposto, então, ao livro-objeto, uma relação mais humana, assim como acontece nos “objetos-paixão”, como denomina e exemplifica Baudrillard (2006, p. 94), em “Sistema dos Objetos”: “se utilizo o refrigerador com o fim de refrigeração, trata-se de uma mediação prática: não se trata de um objeto, mas de um refrigerador”. Baudrillard descreve a diferença entre ter e possuir, o que significa que o indivíduo não procura sua “devolução ao mundo”, mas sim sua participação pessoal inserida no objeto.
Se à medida que um objeto é adorado o indivíduo passa a fazer parte de sua configuração e, ao depositar a sua personalidade e seus sentimentos nele, o objeto passa de algo a alguém, talvez essa mistura de ser vivo com objeto seja o que configure o “objeto-que-deseja”, não um “objeto-de-desejo”.
Com isso, foi proposto o objeto desejar o objeto e o objeto desejar o indivíduo, em uma metalinguagem do próprio processo de desejar, no qual o objeto emprega o desejo que lhe é depositado pelo indivíduo no desejo do outro objeto que, por sua vez, pode desejar novamente o indivíduo. Talvez seja isso que possibilita o jogo de nonsense entre o que está sendo desejado, tornando o desejo livre de algum sentido particular para ser desvinculado e atirado ao delírio do mundo (que pode ou não envolver o objeto).
*Citei o conceito de devir e de rizoma bem no início do post, mas não cheguei a falar sobre eles. Divido, então, este post em duas partes, para falar sobre eles na segunda metade.
Referências:
BAUDRILLARD, Jean. O Sistema dos Objetos. São Paulo: Perspectiva, 2006.
DELEUZE, Gilles. O Abecedário de Gilles Deleuze. Paris: Montparnasse, 1988-1989. Transcrição disponível em: <http://www.oestrangeiro.net/esquizoanalise/67-o-abecedario-de-gilles-deleuze> Acesso em: 04 fev. 2010.
DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix. Mil Platôs: capitalismo e esquizofrenia. Vol. 1. Tradução de Aurelio Guerra Neto e Celia Pinto Costa. Rio de Janeiro: Ed. 34, 2000.
GIORGI, Flavio Di. Os Caminhos do Desejo. In NOVAES, Adauto. (org.) O Desejo. São Paulo: Companhia das Letras, 1990. p. 125-142.







Muito bom, anna! Isso mostra como é possível, em suas palavas, subsistir algo que não existe ainda, ou até como que a consequência pode vir antes da sua causa. Um livro objeto que desejava existir para poder desejar. A sombra dele flutuava sem ainda haver uma luz que a projete.
Se o desejo é a certeza da ausência, a falta e o nada é aquilo que mantém o desejo em movimento: o que é desejado acaba desejando mais do que quem deseja. O nada é apenas o contrário do tudo (assim como a falta-excesso, redundância-entropia, vazio-cheio) e seu oposto acaba existindo por compensação. Acho que é esta a lógica do Sistema dos Objetos de Baudrillard: nosso inconsciente é uma fábrica de “faltas” e os objetos manifestam esta falta que ainda não se tornou consciente para nós. Ou seja, mudando a perspectiva, nós é que permitimos os objetos serem conscientes, pois somos nós o inconsciente dos objetos.
sorrisos e beijo.
Obrigada pelo comentário, Marcos ((:
Acho que é bem isso que disseste, o livro já era um objeto que desejava antes disso ser explicitado no projeto. (Fomos só um suporte inconsciente pra ele existir.) Lembra quando eu dizia que ia descobrir o projeto aos poucos? A verdade é que eu não tinha ideia do que ele era, mas mesmo assim, era obrigada (por causa do tempo curto) ficar insistindo numa flutuação ou outra (junto com a sombra do nonsense que, por mais excesso de sentido que tivesse, era a flutuação mais certeira e pontual!). Mas no fim acho que as flutuações até assentaram dentro dos buracos dos livros (tirando aquelas que se dissiparam no caminho, as que “falavam muito de design”. Acontece, né).
Uma coisa que esqueci de escrever no post, mas que gosto muito de ler/pensar no projeto (está no finzinho da introdução) é que “o desejo foi e voltou desejando”. Foi de coisa e voltou de objeto, acho que quer dizer mais ou menos isso.
sorrisos e outro beijo
Pingback: Livro-Objeto-que-Deseja Pt 2 « Filosofia do Design