Livro-Objeto-que-Deseja [2]
30/01/2011 2 Comentários
Enquanto o “livro-objeto-que-deseja” estava em processo de construção física, eu tentei finalmente responder a questão: “O que se pretende com um livro cujos textos são escritos para serem combinados com quaisquer continuações, ou até mesmo permanecerem sem fim (ou sem meio, ou sem começo) para que possam ser despreocupados e independentes, podendo ter sua formação se relacionando com infinitas proposições (ou até mesmo permanecerem incógnitos dentro de si mesmos)?”
Ou: “Por que desejar o nonsense é o problema desse projeto?”

mandíbula sonâmbula perambula sobre a escrivaninha sob a luminária
Ao explicar o resultado do projeto, o “mandíbula sonâmbula perambula”, ressaltei que o processo de tentativa dessa resposta deveria ser considerado a própria resposta, pois se sabe que sua existência como produto de design está atrelada a inquietos assuntos de uma teia de proposições, dos quais se nota, além dos conceitos de formação do produto (nonsense, livro-objeto e desejo), o conceito de rizoma:
Num livro, como em qualquer coisa, há linhas de articulação ou segmentaridade, estratos, territorialidades, mas também linhas de fuga, movimentos de desterritorialização e desestratificação. As velocidades comparadas de escoamento, conforme estas linhas, acarretam fenômenos de retardamento relativo, de viscosidade ou ao contrário, de precipitação e de ruptura. (DELEUZE, GUATTARI, 2000, p. 11-12)
A partir dessa colocação, Deleuze e Guattari afirmam que um livro é um agenciamento, mas que não se sabe ainda o que o múltiplo implica quando é elevado ao estado de substantivo, de “objeto”. Explicam que o “fazer rizoma” é não se perguntar o que um livro quer dizer, significado ou significante, mas sim perguntar com o que ele funciona, quais suas conexões e em quais multiplicidades ele se introduz. “Um livro existe apenas pelo fora e no fora” (DELEUZE, GUATTARI, 2000, p. 12). *Foi daqui em diante que o processo começou a fazer sentido enquanto resposta.
Não sei se cheguei a explicar, mas o “mandíbula sonâmbula perambula” são três livros que formam um único exemplar ou são apenas três livros, pois são tão independentes quanto dependentes. Ele foi construído com textos que possuem linguagem poética e jogos de palavras e de sentidos, os quais foram repartidos em duas partes, uma parte para o livro dos começos (mandíbula) e uma parte para o livro dos meios (sonâmbula), sendo os pontos finais de todos os textos armazenados no livro dos fins (perambula).
Mas voltando ao rizoma, Deleuze e Guattari (2000, p. 15) perceberam a necessidade de enumerar algumas características para esclarecer o que ele implica:
Princípios de conexão e de heterogeneidade: qualquer ponto de um rizoma deve ser conectado a qualquer outro.

perambula
Explicam: “um método de tipo rizoma é obrigado a analisar a linguagem efetuando um descentramento sobre outras dimensões e outros registros. Uma língua não se fecha sobre si mesma, senão em uma função de impotência” (DELEUZE, GUATTARI, 2000, p. 16).
Princípio de multiplicidade: os teóricos declaram que as multiplicidades são rizomáticas e denunciam as pseudomultiplicidades arborescentes. Vale sublinhar que “não existem pontos ou posições num rizoma como se encontra numa estrutura, numa árvore, numa raiz. Existem somente linhas” (DELEUZE, GUATTARI, 2000, p. 17). O que define as multiplicidades indica ao mesmo tempo: o preenchimento da realidade finita, a impossibilidade de haver outra dimensão sem que a multiplicidade se transforme, e a possibilidade/necessidade de juntar todas as multiplicidades em um mesmo plano (grade, plano de consistência ou de exterioridade).
Princípio de ruptura a-significante: aponta a segmentaridade das linhas do rizoma, pois “ele é estratificado, territorializado, organizado, significado, atribuído etc., mas compreende também as linhas de desterritorialização pelas quais ele foge sem parar” (DELEUZE, GUATTARI, 2000, p. 18). Segundo os teóricos, sempre que as linhas de segmentaridade explodem em uma linha de fuga, acontece a ruptura no rizoma, mas as linhas de fuga fazem parte do rizoma, pois as linhas não param de se remeter umas às outras, por exemplo:
A orquídea se desterritorializa, formando uma imagem, um decalque de vespa; mas a vespa se reterritorializa sobre esta imagem. A vespa se desterritorializa, no entanto, tornando-se ela mesma uma peça no aparelho de reprodução da orquídea; mas ela reterritorializa a orquídea, transportando o pólen. A vespa e orquídea fazem rizoma em sua heterogeneidade. (DELEUZE, GUATTARI, 2000, p.18)
Não se trata de uma imitação, mas de uma captura de código, de um verdadeiro devir: “devir-vespa da orquídea, devir-orquídea da vespa”. Deleuze e Guattari acrescentam que cada um destes devires afirma a desterritorialização de um dos termos e a reterritorialização do outro, os dois devires se encadeiam e se revezam empurrando a desterritorialização cada vez mais longe.
Arrisquei tomar ainda como exemplo a situação em que é redigido um relatório de TCC por um estudante, pois isto pressupõe um devir-acadêmico, a imagem da desterritorialização da academia sobre o estudante e em paralelo a reterritorialização do estudante sobre sua própria imagem de devir-acadêmico (a desterritorialização da academia). O estudante contribui na produção da academia, pois ele a reterritorializa, ele a movimenta em outras direções enquanto está nesse devir. Portanto, o estudante e a academia fazem rizoma.
É a mesma situação que um livro e o mundo, pois o livro não é uma imagem segundo as crenças do mundo, ele faz rizoma com o mundo, ele afirma a desterritorialização do mundo; e este, contudo, age em uma reterritorialização do livro que, por sua vez, desterritorializa-se em si mesmo no mundo.
Os teóricos explicam ainda que “todos os devires são moleculares”, pois o devir se distingue de uma imitação e muito menos se identifica com algo ou alguém. Também não proporciona relações formais, acrescentam:
Devir é, a partir das formas que se tem, do sujeito que se é, dos órgãos que se possui ou das funções que se preenche, extrair partículas, entre as quais instauramos relações de movimento e repouso, de velocidade e lentidão, as mais próximas daquilo que estamos em vias de nos tornarmos, e através das quais nos tornamos. É nesse sentido que o devir é o processo do desejo. (DELEUZE, GUATTARI, 2002, p. 64)
Eles exemplificam: “Ninguém se torna cachorro molar latindo, mas, ao latir, se isso é feito com bastante coração, necessidade e composição, emite-se um cachorro molecular” (DELEUZE, GUATTARI, 2002, p. 67). E ainda declaram em outro exemplo: “Albertine pode imitar uma flor o quanto quiser, mas é quando ela dorme, e compõe-se com as partículas do sono, que sua pinta e o grão de sua pele entram numa relação de repouso e movimento que a coloca na zona de um vegetal molecular: devir-planta de Albertine” (DELEUZE, GUATTARI, 2002, p. 67).
Princípio de cartografia e de decalcomania: “um rizoma não pode ser justificado por nenhum modelo estrutural ou gerativo. Ele é estranho a qualquer idéia de eixo genético ou de estrutura profunda” (DELEUZE, GUATTARI, 2000, p. 21). Os autores explicam que tanto o eixo genético quanto a estrutura profunda são princípios de decalque, em uma lógica de reprodução ao infinito. Ressaltam, então, que o rizoma é mapa, não decalque, isto é, não reproduz um inconsciente fechado sobre si mesmo, mas o constrói, colabora com a conexão dos campos, para o desbloqueio dos corpos sem órgãos, para a abertura máxima sobre um campo de consistência.
Segundo eles, o mapa faz parte do rizoma porque é aberto, conectável em todas as dimensões, desmontável, reversível, adaptável a montagens de qualquer natureza etc. Apontam em seguida: “Uma das características mais importante do rizoma talvez seja a de ter sempre múltiplas entradas [...] contrariamente ao decalque [...]” (DELEUZE, GUATTARI, 2000, p. 22)
No entanto, os teóricos (2000, p. 22-23) questionam se isso não restaura uma visão maniqueísta que opõe o mapa ao decalque, tendo em vista as seguintes dúvidas-constatações: “Não é próprio do mapa poder ser decalcado? Não é próprio de um rizoma cruzar as raízes, confundir-se às vezes com elas?” Concluem, com isso, que é uma questão de método: “é preciso sempre projetar o decalque sobre o mapa”. Apesar da constatação, Deleuze e Guattari afirmam que o decalque reproduz somente “os impasses, os bloqueios, os germes de pivô ou os pontos de estruturação” do mapa ou do rizoma.
Quando um rizoma é fechado, arborificado, acabou, do desejo nada mais passa; porque é sempre por desejo que o rizoma se move e produz. Toda vez que o desejo segue uma árvore, acontecem as quedas internas que o fazem declinar e o conduzem à morte; mas o rizoma opera sobre o desejo por impulsões exteriores e produtivas. (DELEUZE, GUATTARI, 2000, p. 23)
Por isso tudo que foi dito sobre o decalque, sobre a impossibilidade de evitar o decalque, é que os autores conduzem a discussão para uma solução desse impasse, a de sempre ressituar o decalque sobre o mapa e, com isso, voltar a trabalhar com as multiplicidades que percorrem as linhas de fuga.
Deleuze e Guattari inclusive fazem rizoma em seu próprio discurso sobre o rizoma, eles colocam que “ser rizomorfo” é produzir hastes e filamentos que parecem raízes, mas que, por outro lado, melhor seria produzir hastes e filamentos que se conectem com as raízes ao penetrar no tronco, isto é, fazê-las servir a “estranhos e novos” usos.
A árvore ou raiz inspiram uma triste imagem do pensamento que imita incessantemente o múltiplo partindo de uma unidade superior, de um centro ou de um segmento. A estes sistemas centrados são propostos sistemas a-centrados, nos quais os elementos envolvidos são todos intercambiáveis, isto é, “o resultado final global se sincroniza independente de uma instância central” (DELEUZE, GUATTARI, 2000, p. 27). Os teóricos salientam:
Para os enunciados como para os desejos, não é nunca reduzir o inconsciente, interpretá-lo ou fazê-lo significar segundo uma árvore. A questão é produzir inconsciente e, com ele, novos enunciados, outros desejos: o rizoma é esta produção de inconsciente mesmo. (DELEUZE, GUATTARI, 2000, p. 28)
O discurso chega novamente em um impasse, de que o rizoma possui sua própria hierarquia, pois não existe, segundo os autores, esse dualismo do bom e do mau, nem mistura ou síntese. O que existem são “nós de arborescência nos rizomas, empuxos rizomáticos nas raízes” (DELEUZE, GUATTARI, 2000, p. 31).
O que conta é que a árvore-raiz e o rizoma canal não se opõem como dois modelos: um age como modelo e como decalque transcendentes, mesmo que engendre suas próprias fugas; o outro age como processo imanente que reverte um modelo e esboça um mapa, mesmo que constitua suas próprias hierarquias, e inclusive ele suscite um canal despótico. [...] Trata-se do modelo que não para de se erigir e se entranhar, e do processo que não para de se alongar, de romper-se e de retomar.
“Problema de escrita: são absolutamente necessárias expressões anexatas para designar algo exatamente” (DELEUZE, GUATTARI, 2000, p. 32). Partindo dessa premissa, tentou-se fazer um paralelo com o projeto do livro que, de (in)certa forma, alcançou o conceito de rizoma por alguma ruptura precedente, assim como foram acontecendo as demais linhas de fuga durante o processo.

punhado de fins
Uma característica está presente no livro-objeto-que-deseja são os platôs, e Deleuze e Guattari (2000, p. 33) sublinham que “um rizoma é feito de platôs”. Os platôs se diferenciam dos capítulos, pois não possuem hierarquização dos apontamentos, nem mesmo possui pontos culminantes ou de conclusão. Segundo os teóricos, os platôs se comunicam por microfendas, é “toda multiplicidade conectável com outras hastes subterrâneas superficiais de maneira a formar e estender um rizoma” (DELEUZE, GUATTARI, 2000, p. 33).
Apesar de o produto ter, novamente, uma “(in)certa” continuação, ela é diluída, muitas vezes não contínua, pois pode ser vista como um meio, assim como o começo que pode ser visto como outro meio e, no lugar de livro dos começos e livro dos meios, tem-se dois meios, sendo que ao ler os textos e encaixar os livros, qualquer meio com qualquer outro meio possui uma singularidade, cujas conexões podem ou não serem efetuadas (variando de acordo com a porosidade do pensamento de cada leitor). O livro é formado de pequenas e grandes interrupções, fendas nas quais acredito acontecer a ruptura para a formação das linhas de fuga.
Referência:
DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix. Mil Platôs: capitalismo e esquizofrenia. Vol. 1. Tradução de Aurelio Guerra Neto e Celia Pinto Costa. Rio de Janeiro: Ed. 34, 2000.
**Agradeço novamente às professoras Isabela Sielski e Lurdete Biava, pela orientação desse projeto; ao Marcos Beccari, pela agradável parceria com a Parêntesis; ao Rodrigo Gonçalves, pelas orientações na trajetória do curso; e principalmente à minha irmã Raquel Stolf, por um monte de coisas.







Parabéns mais uma vez, o blog está sempre atualizado
Muito bacana Anna. É interessante notar a predominância, na lógica de Deleuze e Guatari, da “ambiguidade”, ou melhor dizendo na biunivocidade. Vejo como uma condição para que as ramificações do sentido sejam possíveis. Este raciocínio é bem comum em Jung e os neo-platônicos, além de Spinoza e os idealistas em geral. Platão is alive! =}
bjo bjo