Post-pra-paradoxo

O paradoxo é, em primeiro lugar, o que destrói o bom senso como sentido único; mas, em seguida, o que destrói o senso comum como designação de identidades fixas.

(DELEUZE, 2007, p. 3)

Os paradoxos do sentido, expostos por Deleuze (2007), têm por característica percorrer dois sentidos ao mesmo tempo e podem ser definidos como: paradoxo da regressão ou da proliferação indefinida, paradoxo do desdobramento estéril ou da reiteração seca, paradoxo da neutralidade ou do terceiro estado da essência e paradoxo do absurdo ou dos objetos impossíveis.

Paradoxo da regressão ou da proliferação indefinida: O sentido, na medida em que se combina com o nonsense, relaciona-se com uma proliferação infinita das entidades verbais – para cada sentido, existe outro, o que desencadeia uma regressão indefinida: o excesso que remete à própria falta. Segundo Deleuze, ao mesmo tempo em que não se diz o sentido do que é dito (lembrando que significado, designação e sentido se diferem), paradoxalmente podemos assumir o sentido do que foi dito como objeto de uma segunda proposição, da qual também não se diz o sentido. Então se entra nessa regressão infinita do pressuposto, o que é testemunha de uma impotência em dizer ao mesmo tempo alguma coisa e seu sentido, embora fosse ótimo ($$) para os designers se isso fosse efetivamente praticável.

Paradoxo do desdobramento estéril ou da reiteração seca: Deleuze sublinha que o sentido opera a suspensão da afirmação assim como da negação. Como o sentido não existe, é um “extra-ser”, ele insiste ou subsiste na proposição, como algo subliminar. No entanto, “a camada da expressão – e aí está sua originalidade – a não ser, precisamente, que confira uma expressão a todas as outras intencionalidades, não é produtiva” (HUSSERL, apud DELEUZE, 2007, p. 34), isto é, o sentido é independente da expressão, suspende dela a afirmação e a negação, ele se dissipa duplamente. Deleuze explica que enquanto o paradoxo da regressão indefinida é a conjugação no mais alto poder e na maior potência, o paradoxo do desdobramento estéril combina a esterilidade do sentido com relação à proposição de onde ele foi extraído, da expressão, com sua potência de origem quanto às dimensões da proposição, como uma luz sem lâmpada, um sorriso sem rosto ou um limão espremido sem espremedor…

Paradoxo da neutralidade ou do terceiro estado da essência: Este paradoxo lida com a mesma indiferença do paradoxo do desdobramento estéril, porque, segundo o filósofo, “se o sentido como duplo da proposição é indiferente tanto à afirmação como à negação, se não é nem passivo e nem ativo, nenhum modo da proposição é capaz de afetá-lo” (DELEUZE, 2007, p. 35). A essência, contudo, se distingue em três estados: a essência como significada pela proposição, na ordem do conceito e das implicações do conceito; a essência enquanto designada pela proposição, nas coisas particulares em que se empenha; e a essência como sentido, indiferente a todos os opostos. Deleuze esclarece que este paradoxo explica o motivo de o sentido não ser afetado pelos modos da proposição, seja do ponto de vista da qualidade, da quantidade, da relação ou da modalidade. É algo neutro, que se desenvolve na inércia e trabalha com apenas um sentido em mais de uma proposição, como: caminhar enquanto respira e respirar enquanto caminha, dormir enquanto sonha e sonhar enquanto dorme, desenhar enquanto pensa e pensar enquanto desenha, etc.

Paradoxo do absurdo ou dos objetos impossíveis: O absurdo assinala que a designação, ao contrário dos paradoxos descritos anteriormente, não pode em caso algum ser efetuada, não tendo também significação, a qual definiria uma possibilidade de efetuação, mas nem por isso deixa de ter sentido. Entretanto, as noções de absurdo e de nonsense não devem ser confundidas. Explica Deleuze (2007, p. 38): “É que os objetos impossíveis – quadrado redondo, matéria inextensa, perpetuum mobile, montanha sem vale etc. – são objetos “sem pátria”, no exterior do ser, mas que têm uma posição precisa e distinta no exterior: puros acontecimentos ideais inefetuáveis em um estado de coisas”.

Projetar é (ou pode/deve ser) estar em estado-paradoxo: pensar numa proposição e noutra ao mesmo tempo, desenhar ainda uma terceira, algo impossível para a indústria, algo que se reitera sem sua fonte, etc, etc. Descobrir as coisas pra delas extrair, ou nelas alcançar, os argumentos, como diz Ponge (2000, p. 43): “As qualidades que se descobrem nas coisas tornam-se rapidamente argumentos a favor dos sentimentos do homem. Ora, numerosos são os sentimentos que não existem (socialmente) por falta de argumentos.”

Referências:

DELEUZE, Gilles. Lógica do Sentido. São Paulo: Perspectiva, 2007.

PONGE, Francis. O Partido das Coisas. São Paulo: Editora Iluminuras Ltda, 2000.

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Acerca Anna Stolf
Sou mestranda em Design na UFRGS, onde trabalho no Laboratório de Design e Seleção de Materiais (LdSM) e desenvolvo meu projeto de dissertação previamente intitulado "Livros Dúcteis: aspectos intangíveis da matéria através da não-matéria". Sou graduada em Design de Produto pelo IF-SC, fui pesquisadora no PET Design, e integrante do Design Possível-SC e CORDe Floripa 2011. Meus interesses envolvem poesia e nonsense, com eventuais desvios.

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