Filosofia do Design, parte XXXVII – Sofrimento e Design
22/04/2011 Deixe o seu comentário
* texto originalmente publicado no Design Simples.
No filme O Cheiro do Ralo, o protagonista diz: “Deus criou o mundo, mas foi o homem que tornou o mundo confortável. O homem é o deus do conforto”. Por outro lado, o filósofo John Hick afirma em seu livro Encountering Evil (2001): “Um mundo em que não haja dor nem sofrimento seria um mundo onde não haveria escolhas morais e, portanto, nenhuma possibilidade de crescimento e desenvolvimento moral”. Frente ao dilema conforto x sofrimento, nós designers procuramos proporcionar mais conforto para as pessoas. Contudo, geralmente esquecemos que a ideia de conforto só faz sentido frente à sua ideia oposta: desconforto, dor, sofrimento.
Mas de onde vem a dor e o sofrimento? Teodiceia, que literalmente significa justiça de Deus, é uma teoria que tenta explicar isso. Santo Agostinho argumentava que Deus é intrinsecamente bom, mas o homem tem livre-arbítrio e pode escolher causar sofrimento – ou seja, a dor é entendida como um mal criado pelo próprio homem (pecado). No entanto, isso não explica o sofrimento natural causado por um câncer ou um terremoto. Alguém poderá dizer que este mal natural é punição ou consequência de pecados anteriores, mas isso contraria a ideia de um Deus benevolente já que muitos inocentes acabam sofrendo pelos pecados alheios.
Outro ponto de vista, defendido por Descartes, é dizer que a dor é um mecanismo natural do organismo em prol de sua saúde e sobrevivência, sendo o sofrimento, portanto, uma prova da benevolência de Deus. Seguindo este raciocínio, Richard Swinburne entende o sofrimento como um meio de alcançar um bem maior, como algo que promove o crescimento e o amadurecimento das pessoas. Entretanto, o sofrimento das crianças famintas da África parece não promover a menor oportunidade de crescimento. Para justificar isso, o filósofo Leibniz argumentava que Deus só é perfeito porque teria criado um universo imperfeito. Trata-se do sentido existente através de seu contrário, como a ideia de conforto pela ideia de sofrimento.
Em seu livro Think (2001), o filósofo Simon Blackburn contraria essa ideia propondo a seguinte analogia: imagine que vivemos em um internato sombrio, com dormitórios imundos, mas nunca vimos o diretor e nem sabemos se ele existe. Para o filósofo, supor que o diretor é uma boa pessoa não passa de uma inferência absurda – “o mais certo é inferir que o diretor não sabe o que acontece, não se importa ou nada pode fazer”. Mas o que justificaria a existência de um Deus que não se preocupa conosco? Alguns alegam que Ele já fez isso ao ter encarnado em Cristo, vivenciando nosso sofrimento e redimindo o mundo.

cena de Garota Interrompida (1999)
Acreditando nisso ou não, você não escapa deste fardo humano que te torna frágil, efêmero, sujeito a mudanças e à decadência. Então como o designer pode proporcionar conforto? A opção mais fácil é atuar como um livro de autoajuda ambulante que se propõe a solucionar os problemas de um mundo obcecado por felicidade. Evidentemente, um mal-estar permanece: “Nos últimos séculos, acreditar num mundo melhor se transformou na pior prisão para o pensamento e para a alma. No limite, uma falha de caráter” (PONDÉ, 2010, p. 23).
Outra opção é deixar de lado esse marketing barato para descobrir novas formas de pensar e de fazer as coisas. Para isso, é necessário mudar sempre a perspectiva pela qual se veem as coisas – por exemplo, “melhor sofrer sendo gente do que sorrir sendo uma pedra burra” (op. cit., p. 21). Por mais inflexível que isso possa parecer, além de contrariar a maré sorridente, não se trata de um ponto de vista inválido. Aquele mal-estar nunca deixará de existir, mas podemos encará-lo como um pressuposto ou um caminho inevitável – não para uma felicidade intencional, mas para a beleza que existe na ausência do que é belo.
Proust dizia que a possibilidade de ser feliz é mais bela do que a felicidade em si. E essa possibilidade só existe quando há sofrimento, enquanto ausência. Exemplos desta dinâmica (ilustrada em filmes como O Escafandro e a Borboleta e Réquiem para um Sonho) são produtos ou serviços propositalmente incompletos, projetados e consumidos para manter viva uma (im)possibilidade. Obviamente, não estou querendo que os designers promovam dor ou desconforto. O que eu quero dizer é apenas que a inovação que tanto buscamos provém de um reexame crítico de princípios e metas pré-formatados, sendo a ambiguidade inerente ao dilema sofrimento-conforto uma fonte eterna a ser explorada de maneira criativa.
Prendimi l’anima – Roberto Faenza (2002)
“No mais profundo de si mesmo, o nosso ser rebela-se em absoluto contra todos os limites. Os limites físicos são-nos tão insuportáveis quanto os limites do que nos é psiquicamente possível: não fazem verdadeiramente parte de nós. Circunscrevem-nos mais estreitamente do que desejaríamos” (SALOMÉ in MICHAUD, 2001).
Referências Utilizadas:
- BLACKBURN, S. Think: A Compelling Introduction to Philosophy. New York: Oxford University Press, 2001.
- HICK, J. Encountering Evil: Live Options in Theodicy. Kentucky: Westminster John Knox Press, 2001, p. 38-72.
- MICHAUD, S. Lou Andréas-Salomé. Lisboa: Editora Asa, 2001.
- PONDÉ, L. F. Contra um mundo melhor: ensaios do afeto. São Paulo: Leya, 2010.