Mentira, sinceridade e consumo

* texto originalmente publicado no Formas do Consumo.

Como todas as palavras que se referem ao ser humano, o consumo nunca possuirá definições precisas e inquestionáveis. A opinião é necessária, sendo que a própria opinião também pode ser considerada uma forma de consumo. Por exemplo, parte da minha opinião sobre o consumo foi literalmente consumida da opinião de Jean Baudrillard, que por sua vez digeriu e defecou outras opiniões, chegando à seguinte conclusão: o consumo não é literalmente real.

Para explicar isso, recorro a uma frase de Kafka que dizia mais ou menos assim: confissão e mentira são a mesma coisa; não podemos dizer o que somos, justamente porque somos isso; podemos dizer apenas aquilo que não somos, ou seja, somente a mentira. Seria então o consumo uma forma de mentira? Apenas se a mentira for entendida como contrário da verdade e não da sinceridade – você pode falar a verdade sem ser sincero, mas o consumo parece ser algo maior que a verdade e a mentira, talvez algo como uma “mentira sincera”.

E o que seria uma mentira sincera? Suicídio, traição, masoquismo e masturbação, por exemplo, ilustram o que eu quero dizer. Trata-se de situações onde estamos mentindo para nós mesmos e, ao mesmo tempo, sendo sinceros. Partimos de uma situação irreal, imaginada e fantasiosa que produz sentimentos reais e sinceros, como dor e prazer. A grande ironia é que quanto mais evitamos e rechaçamos essas mentiras sinceras, mais temos necessidade de expressá-las – esta é a metáfora do “monocromático” (como uma ausência de cores que colore as situações cotidianas) retratada nesta bela canção de Yann Tiersen:

Monochrome (Yann Tiersen)

Permita-me um exemplo aparentemente distante do assunto: assim como em qualquer site da internet, você leitor está de certa forma interagindo comigo agora, sem ver meu rosto ou meus olhos, apenas “escutando” o que eu tenho pra falar. Mesmo se estivéssemos em uma conversa pessoal, frente a frente, evitaríamos ficar em silêncio, teríamos medo de ser chatos ou sem assunto. Temos a necessidade de interagir o tempo todo, nem que seja para perguntar que horas são, se vai chover daqui a pouco, etc. Criamos assim uma atmosfera parcialmente pessoal: através de uma empatia necessária, evitamos tocar em assuntos muito íntimos, como nossas angústias, desejos sexuais, complicações afetivas, etc.

Em última instância, estamos mentindo o tempo todo para esconder o que verdadeiramente sentimos e pensamos. Se não fosse assim, contudo, não daríamos valor às relações mais íntimas, ao amor, ao sexo, à arte e, enfim, tudo aquilo que consumimos na vida. É neste valor ocasionado pela ausência de sinceridade que reside o consumo, isto é, aquela necessidade de mentiras sinceras que tornam nossa vida mais intensa, sensível e, em resumo, mais humana.

Afinal, você simplesmente não é ninguém quando você é real e sinceramente você. Uma mulher atraente, por exemplo, geralmente é mais sensual quando ela não está nua, explícita, sentada numa privada. Em minha opinião, portanto, o consumo é como se fosse esse véu de nós mesmos, algo diretamente ligado à sedução, àquela mentira sincera, ao entretenimentoentre-ter significa aquilo que está entre você e aquilo que você quer ter/ser, ou seja, aquilo que imaginamos e fantasiamos sobre nossa própria vida. Enfim, todas as coisas que não podemos fazer, mas que fazemos às escondidas.

Acerca Marcos Beccari
Nascido em São Paulo/SP, Marcos Beccari é graduado em Design Gráfico e Mestre em Design, ambos pela Universidade Federal do Paraná (UFPR). Interessa-se por Filosofia, Psicologia, Ficção Científica, Tarot e outras conspirações, o que o levou a pesquisar sobre Filosofia do Design e a encarar o designer como um “articulador simbólico”. Atualmente coordena o blog Filosofia do Design, além de participar do projeto AntiCast e colaborar com os blogs Design Simples, Formas do Consumo e Universo Humanus.

2 Respostas a Mentira, sinceridade e consumo

  1. Muito bonito esse texto! (pois é, esse tipo de palavra já me colocou em situações chatas… mas quando eu falo bonito entenda que é algo que me despertou). Me lembrou um texto do Nelson Brissac sobre o olhar e como é cada vez mais impossível falar sobre a “realidade”. Enfim, não lembro que texto é. /=
    Uma coisa que sempre me chamou muito atenção nos teus textos e falas é a facilidade que tens de mencionar outras coisas, de ir e voltar. Gosto muito deles por isso.

    e um post bonito assim merecia muito esse clipe/música linda mesmo. (;

    • Poxa, fico muito feliz que tenha gostado Carol! =]

      Não tenho tanta facilidade assim, mas tenho me esforçado… e os estudos do imaginário me ajudam bastante nisso. No fim, geralmente a mentira, quando é sincera, acaba sendo mais “bonita” que a própria verdade ou realidade (que é sempre mentirosa).

      bjos

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