Mentira, sinceridade e consumo
17/05/2011 2 Comentários
* texto originalmente publicado no Formas do Consumo.
Como todas as palavras que se referem ao ser humano, o consumo nunca possuirá definições precisas e inquestionáveis. A opinião é necessária, sendo que a própria opinião também pode ser considerada uma forma de consumo. Por exemplo, parte da minha opinião sobre o consumo foi literalmente consumida da opinião de Jean Baudrillard, que por sua vez digeriu e defecou outras opiniões, chegando à seguinte conclusão: o consumo não é literalmente real.
Para explicar isso, recorro a uma frase de Kafka que dizia mais ou menos assim: confissão e mentira são a mesma coisa; não podemos dizer o que somos, justamente porque somos isso; podemos dizer apenas aquilo que não somos, ou seja, somente a mentira. Seria então o consumo uma forma de mentira? Apenas se a mentira for entendida como contrário da verdade e não da sinceridade – você pode falar a verdade sem ser sincero, mas o consumo parece ser algo maior que a verdade e a mentira, talvez algo como uma “mentira sincera”.
E o que seria uma mentira sincera? Suicídio, traição, masoquismo e masturbação, por exemplo, ilustram o que eu quero dizer. Trata-se de situações onde estamos mentindo para nós mesmos e, ao mesmo tempo, sendo sinceros. Partimos de uma situação irreal, imaginada e fantasiosa que produz sentimentos reais e sinceros, como dor e prazer. A grande ironia é que quanto mais evitamos e rechaçamos essas mentiras sinceras, mais temos necessidade de expressá-las – esta é a metáfora do “monocromático” (como uma ausência de cores que colore as situações cotidianas) retratada nesta bela canção de Yann Tiersen:
Monochrome (Yann Tiersen)
Permita-me um exemplo aparentemente distante do assunto: assim como em qualquer site da internet, você leitor está de certa forma interagindo comigo agora, sem ver meu rosto ou meus olhos, apenas “escutando” o que eu tenho pra falar. Mesmo se estivéssemos em uma conversa pessoal, frente a frente, evitaríamos ficar em silêncio, teríamos medo de ser chatos ou sem assunto. Temos a necessidade de interagir o tempo todo, nem que seja para perguntar que horas são, se vai chover daqui a pouco, etc. Criamos assim uma atmosfera parcialmente pessoal: através de uma empatia necessária, evitamos tocar em assuntos muito íntimos, como nossas angústias, desejos sexuais, complicações afetivas, etc.
Em última instância, estamos mentindo o tempo todo para esconder o que verdadeiramente sentimos e pensamos. Se não fosse assim, contudo, não daríamos valor às relações mais íntimas, ao amor, ao sexo, à arte e, enfim, tudo aquilo que consumimos na vida. É neste valor ocasionado pela ausência de sinceridade que reside o consumo, isto é, aquela necessidade de mentiras sinceras que tornam nossa vida mais intensa, sensível e, em resumo, mais humana.
Afinal, você simplesmente não é ninguém quando você é real e sinceramente você. Uma mulher atraente, por exemplo, geralmente é mais sensual quando ela não está nua, explícita, sentada numa privada. Em minha opinião, portanto, o consumo é como se fosse esse véu de nós mesmos, algo diretamente ligado à sedução, àquela mentira sincera, ao entretenimento – entre-ter significa aquilo que está entre você e aquilo que você quer ter/ser, ou seja, aquilo que imaginamos e fantasiamos sobre nossa própria vida. Enfim, todas as coisas que não podemos fazer, mas que fazemos às escondidas.
Muito bonito esse texto! (pois é, esse tipo de palavra já me colocou em situações chatas… mas quando eu falo bonito entenda que é algo que me despertou). Me lembrou um texto do Nelson Brissac sobre o olhar e como é cada vez mais impossível falar sobre a “realidade”. Enfim, não lembro que texto é. /=
Uma coisa que sempre me chamou muito atenção nos teus textos e falas é a facilidade que tens de mencionar outras coisas, de ir e voltar. Gosto muito deles por isso.
e um post bonito assim merecia muito esse clipe/música linda mesmo. (;
Poxa, fico muito feliz que tenha gostado Carol! =]
Não tenho tanta facilidade assim, mas tenho me esforçado… e os estudos do imaginário me ajudam bastante nisso. No fim, geralmente a mentira, quando é sincera, acaba sendo mais “bonita” que a própria verdade ou realidade (que é sempre mentirosa).
bjos