Filosofia do Design, parte XLI – Design e Inovação
20/05/2011 3 Comentários
* texto originalmente publicado no Design Simples.
Muita gente tem pesquisado e publicado teorias/métodos/técnicas sobre Inovação. No entanto, como a grande maioria das coisas que eu li foram entediantes e nada inovadoras, escrevi este ensaio falando sobre Heurística, os paradigmas de Kuhn e a intuição dialógica de Edgar Morin. Contudo, decidi ser inovador comigo mesmo e apaguei tudo o que escrevi. Porque eu também sou designer, já passei noites em claro esperando por uma inspiração divina, e não importa quanta teoria filosófica eu tenha estudado, esta busca pela inovação sempre foi uma dificuldade para mim.
O engraçado é que as ideias em potencial me aparecem nas situações mais supérfluas – na novela das nove, na fila do banco, no bate papo com os amigos, etc. O difícil é conseguir anotar ou lembrar depois. Certa vez me disseram que a inovação surge com prática, experiência e disciplina. Pois bem, ainda não sei o que é isso (se é que um dia vou saber). O que eu desconfio é que não há nada de universal e sistematizado que possa produzir algo inovador. A noção de regras e costumes antigos pode bloquear a atualidade essencial da novidade, atualidade esta que nos motiva a continuar inovando. Não significa que hábitos antigos devem ser ignorados, mas apenas que não devemos nos restringir a eles.
O processo criativo me parece ser uma conspiração em movimento que, embora sejamos nós quem a direciona, não acontece de maneira intencional. Deste modo, não acredito em fatores verificáveis que demonstrem a origem de uma ideia. Ao que tudo indica, o aspecto inovador de uma ideia não provém do indivíduo que tem a ideia, mas da possibilidade de essa ideia pertencer aos outros. Em outras palavras, inovação não é algo que será ou sempre foi inédito para alguém, mas aquilo que pode se tornar (e ainda não é) inédito para outrem.
O trabalho solo de John Frusciante, por exemplo, é algo que considero potencialmente inovador. Há uma beleza intrínseca, não apenas em sua (des)harmonia musical, mas especialmente na sutileza estética e em seu modo de se expressar. Note que, embora esta seja uma opinião pessoal, o estranhamento ocasionado pelas músicas de Frusciante é quase unânime. Isso, porém, não seria suficiente. Atrevo-me a dizer, então, que esta música representa, por exemplo, a chuva que cai após um dia intenso de trabalho. Claro que tal sensação é questionável, sobretudo por ser pessoal, mas ela pode se tornar inovadora na medida em que é compartilhada e repercutida entre as pessoas.
A inovação, deste modo, não está nesta ou naquela música em si. Mas se eu te mostrar uma música e, com ela, conseguir te passar uma ideia minha, a ponto de despertar um sentimento que só a você pertence, eu e você nos sentiremos mais vivos, como se estivéssemos compartilhando um segredo em comum. Esta experiência é precisamente o que eu considero inovação: algo parcialmente desconhecido, misterioso e fascinante, que pressupõe um envolvimento espontâneo, isto é, não passível de ser fabricado, apenas de ser descoberto de modo intersubjetivo (entre pessoas).
Por mais hermético que isso possa parecer, não consigo ver de outra forma. Aquilo que é inovador nos dá a liberdade de pensarmos e agirmos por conta própria, ainda que isso só aconteça através dos outros. Pois como eu já disse, penso que inovação é sinônimo de conspiração, no sentido de uma desconfiança constante sobre o “como poderia ser”. Assim, para proporcionar uma experiência com a qual as pessoas se identifiquem, é antes necessário que nós, designers, nos identifiquemos com as pessoas, desconfiando de que qualquer coisa pode se tornar uma nova experiência desde que vivenciada de forma conspiratória.
Evidentemente, esta conspiração não é tão simples. Um equívoco básico é cair na arrogância do acesso restrito e não reconhecer que a novidade só acontece com a contribuição alheia e o compartilhamento coletivo. Isso tem sido reforçado a cada dia com os debates que defendem a pirataria, o crowdsourcing, a cópia-oculta, etc. Outro erro é tentar identificar fatores elementares na inovação, reduzindo-a a receitas de bolo ou a métodos de autoajuda. Caímos neste erro sempre que tratamos o processo criativo de modo objetivo e controlável, como sendo um fenômeno restritamente físico-fisiológico ou lógico-dedutivo.
Portanto, creio que a inovação não é individual e nem universal, mas acima de tudo intersubjetiva. Além disso, é no mínimo perigoso limitá-la a um método aplicado (demonstrável e reproduzível), afinal, quando uma inovação é inteiramente desvendada e dissecada, ela deixa de ser propriamente inovadora. Em resumo, a inovação é talvez um vírus de Burroughs que não foi reconhecida como tal porque alcançou um estado de simbiose estável com o designer (seu hospedeiro). Deixando a conspiração de lado e parafraseando Salvador Dalí, o designer não é alguém inspirado, mas sim alguém capaz de inspirar os outros.
The Chemical Brothers – Let Forever Be (Michel Gondry, 1999)







Beccari, pessoalmente achei o texto muito inspirador e tocante.
Compartilho com você essa visão. Recentemente, na escolha dos premiados no último Oscar, experimentei esse sentimento. “Cisne Negro” e “127 Horas” eram, para mim, os únicos merecedores de prêmio, graças a sua inovação estética. Esse meu posicionamento vem da forma como as duas obras me tocaram e me fizeram compartilhar e desenvolver uma nova visão sobre o cinema.
Parabéns pelo texto!
Obrigado Daniel! =}
Beccari, queria que você me desse sua opinião sobre o meu caso…
eis que um belo dia eu estou apresentando um projeto de produto para mobiliario urbano ( do 4 período )
e fiz um banco de praça com uma floreira no meio, formas simples e tudo mais..
após 4 meses de pesquisa e sob a orientação do professor ele nunca falou nada sobre o projeto..
na final da apresentação ele destrói minha defesa falando que meu banco não parece banco
por isso o projeto não estava bom e eu deveria refazer a forma do produto..
mas é só olhar para ver que obviamente é uma superficie de assento..
todo mundo da sala aprovou, apenas ele que não…
fiquei tão indignada tipo “porque o banco precisa parecer um banco?”
e como ele não conseguiu ver que aquilo era um banco se tinha até um modelo volumétrico em escala real para ele sentar!
ai ele me disse, que se eu continuasse com esse projeto
na hora de escrever o memorial descritivo
na função simbólica e estético-formal eu deveria escrever de modo que minha defesa
fizesse ele acreditar que aquilo é um banco, que o usuário não o confundiria com outra coisa..
com base nisso, estou a procura de artigos que falem algo da relação
forma x função (quando o design confunde o observador, mas ele entende mesmo assim)
e tipo nem sempre algo é o que parece ser..
estamos utilizando a metodologia Lobach… só para tu saber…
Obrigada…
espero resposta