A estética: considerações filosóficas na direção de um design inútil

Poucos termos são, ao mesmo tempo, tão usados e tão cercados de nebulosidade quanto “estética”. Atualmente, “estética” aparece com os mais diversos significados. Alguns dos mais comuns são aqueles que dizem respeito exclusivamente à arte ou, quando usado de maneira mais específica, o de “filosofia da arte”. Um “fenômeno estético” seria o mesmo que um “fenômeno artístico”.

A mescla entre “arte” e “estética”, aparente nas acepções do termo expostas acima, possui, sem dúvida, influências hegelianas. Em seus Cursos de Estética, assim como na Estética, Hegel defende que o “belo artístico” – por ser produção do espírito para o espírito – é infinitamente superior ao “belo natural” e que a estética, enquanto disciplina filosófica, deveria estudar somente questões referentes ao primeiro.

Com tal proposta, Hegel afasta-se de Kant e transforma o significado do termo que estamos estudando. Em sua acepção inicial, “estética” se aproxima mais de sua raiz grega aisthesis, que significa algo como “sensação”. O termo foi utilizado primeiramente pelo filósofo alemão Baumgartem, mas ganhou destaque decisivo com Kant.

A partir da filosofia kantiana, a experiência estética deixa de se subordinar às operações da razão e da moral – pois devemos lembrar que, por exemplo, em Platão, o belo é uma faceta do bem e o “bem em si” pode ser apreendido pela razão.

A estética kantiana enfocará, então, a experiência sensível, que está ligada a um contato “intuitivo” – isto é, não mediado por conceitos – com o mundo. Pouco importa, aqui, se ele se dá com uma obra de arte ou com a natureza. Quando abrimos os olhos frente a uma paisagem, por exemplo, vemos qualquer coisa que classificamos como árvores, lago etc. Entretanto, independentemente de tais classificações – classificar já envolve a aplicação de conceitos –, temos uma experiência com a própria imagem intuída. A partir desta experiência podemos obter prazer estético e realizar um julgamento de gosto – isto é, considerar aquilo que vemos “belo” ou “feio”, por exemplo.

Importante ressaltar que o julgamento estético não tem base nos desejos imediatos de quem observa e, muito menos, em sua fisiologia. Embora a experiência estética esteja fortemente vinculada aos sentidos, o esteticamente agradável não se sobrepõe ao sensorialmente agradável. Como explica Luc Ferry (2009) em seu livro sobre Kant, o primeiro dependeria de livres associações de imagens levadas a cabo pela imaginação – a mais poderosa das faculdades sensíveis.

O parágrafo anterior explica, portanto, a diferença entre tal ponto de vista e o do senso comum atual que utiliza “estética” em expressões tais como “clínica de estética”, ou ainda quando se diz que alguém se preocupa “apenas com a estética”. Nesses casos, tende-se não apenas a considerar a experiência estética quase que exclusivamente em sua dimensão estésica (i.e. sensorial), o que seria apenas sua fronteira inicial, como também a enxergá-la com uma visão pejorativa, de mero “acessório” a outra coisa qualquer. Em última instância, tal discurso do senso comum tende a negar a possibilidade de uma experiência estética ou então a deslegitimá-la.

Obcecado com o “útil”, tal senso comum tem dificuldade em lidar com uma experiência que é um fim em si mesma e que requer uma abertura à própria experiência, procurando mergulhar nela, mesmo que através da referência a outras experiências, ao invés de, ao contrário, utilizá-la para passar a outra experiência, que também se utilizará para passar a outra e assim por diante, infinitamente, para chegar a lugar nenhum.

Por outro lado, há outro discurso, também presente no senso comum, que valoriza a “experiência”, o “me arrependo só do que não fiz”. Valorização da experiência estética através de Dionísio? Em alguns casos. Na maioria das vezes, entretanto, tal exaltação da experiência acaba se transformando em uma mera coleção de experiências: tudo vale, para completar o álbum. Lembro-me da pergunta que a protagonista “vivida” (ou “da vida”, dependendo da perspectiva) do filme The girl next door faz ao garoto que tenta conquistá-la: “what is the craziest thing you’ve done lately [qual foi a coisa mais doida que você fez ultimamente?] ”? O pretendente, que não tem uma boa resposta, envergonha-se (ou, ao menos, deveria envergonhar-se). A vizinha atua, então, como polícia do prazer, o inverso da polícia moralista (normalmente representada pela figura da beata) dos tempos passados. Uma polícia, entretanto, da mesma maneira, e interiorizada como a outra, superegoicamente. Em uma entrevista intitulada “O desejo, ou a traição da felicidade”, Zizek observa o seguinte: “meus amigos psicanalistas me contam que hoje em dia o sentido de culpabilidade de seus pacientes não é mais fundado sobre o interdito, mas sobre esta injunção de gozar, ‘de aproveitar’. Agora, as pessoas não se sentem mais culpadas quando têm prazeres ilícitos, como antes, mas quando não são capazes de aproveitá-los, quando não chegam a gozar”. São as pessoas cronicamente felizes de que fala João Freire Filho (2010), moldadas por anti-depressivos e livros de auto-ajuda.

Esse é outro tipo de mentalidade anti-estética, digamos assim, porque visa apenas utilizar os objetos como fonte de prazer ou degrau para a felicidade, embora, nesse tipo de pensamento, nem mesmo a felicidade, na maioria das vezes, consegue sair da roda das utilidades. Se, para Aristóteles (Ética a Nicômaco, Livro I), a felicidade é o bem que se procura apenas por si mesmo e não por outra coisa, isso parece não se dar no discurso do senso comum contemporâneo. Outro dia, li em uma revista que as pessoas felizes produzem mais no trabalho, têm mais facilidade para arrumar parceiros “amorosos”, dentre uma gigantesca gama de outros benefícios. Ou seja, a felicidade agora também é útil!

E se isso acontece até com a felicidade, o que dizer da experiencia estética, uma experiência que não tem objetivos fora de si mesma? Ela entra em curto-circuito na lógica dos meios, da utilidade, da eficácia.  Assim como o amor, ela possui uma lógica própria, um tanto paradoxal. Vejamos: ao se amar, obtém-se prazer, mas aquele que busca o prazer não pode chegar ao amor, dado que o amor não serve a outra coisa — para quem busca prazer, não se trata de amor, e sim de interesse.  O mesmo com a experiência estética: ela pode proporcionar prazer, mas aquele que interage com um objeto procurando utilizá-lo para conseguir prazer não pode experimentá-lo esteticamente e, portanto, não terá prazer estético, embora possa ter outro tipo de prazer.

Então como produzir, hoje, um design com potencialidade estética? Uma das alternativas que me parecem promissoras é procurar, através do design, destacar nas coisas suas potencialidades de valorizar as pequenas experiências da vida nelas mesmas, tal como parece nos indicar Amélie Poulain no filme que tem o seu nome (vídeo abaixo)… um design, portanto, que procure enfatizar a capacidade das coisas de proporcionar experiências que tenham um valor intrínseco: um design, enfim, que cultive sua inutilidade.

REFERÊNCIAS

FERRY, Luc. Kant: uma leitura das três “críticas”. Rio de Janeiro: Difel, 2009.

FREIRE FILHO, J. A felicidade na era de sua reprodutibilidade científica: construindo “pessoas cronicamente felizes”. In: ____ (org.). Ser feliz hoje: reflexões sobre o imperativo da felicidade. Rio de Janeiro: FGV, 2010a.

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Acerca Daniel B. Portugal
Doutorando em Comunicação e Cultura pela UFRJ, Mestre em Comunicação e Práticas de Consumo pela ESPM-SP e Designer Gráfico pela UFRJ. Atualmente atua como professor substituto no curso Comunicação Visual Design da UFRJ. Reflete e pesquisa sobre temas relacionados a: consumo, comunicação, estética, ética, teoria da imagem, cultura visual e design.

7 Respostas a A estética: considerações filosóficas na direção de um design inútil

  1. Daniel, meus sinceros parabéns pelo texto. Em poucos parágrafos você conseguiu introduzir o que é estética melhor do que muitos professores que eu conheço.

    Eu reconheço em seu discurso a ideia de um mundo que mente sobre si mesmo, com questões sobre uma construção aparentemente progressiva da felicidade que paradoxalmente torna a experiência estética miserável, despedaçada. Particularmente, eu vejo que o comportamento contemporâneo transita entre dois opostos em alta velocidade, como em uma montanha russa. As subidas são dramáticas, apolíneas, progressivas e direcionadas a um mergulho cada vez mais alto. As descidas são tão profundas quanto rápidas, superficiais e violentas, de forma a fornecer impulso para uma nova subida.

    Então dá sempre vontade de fazer de novo, cada vez mais rápido. As descidas dionisíacas impulsionam as subidas apolíneas e vice-versa. E eu vejo isso como uma coisa boa, estamos cada vez com mais “fôlego”. As pessoas estão sempre com pressa e sempre sem tempo, como um enxame de abelhas frenético que, se visto mais de perto, são crianças assustadas correndo atrás e fugindo de uma mesma coisa (que não se sabe exatamente o que é). Talvez seja mesmo uma busca pelo repouso e pela tranquilidade mas através de uma lógica inversa, que nunca chega a fazer sentido.

    A experiência estética então nunca é atingida de fato (será que já foi um dia?), e a efemeridade disfarçada de expectativa se torna sempre esquecimento. No entanto, desconfio em uma experiência estética existente nisso também, no sonho silencioso em meio a um cotidiano barulhento e escandaloso, traduzido em utilidade, eficácia e interesse. Talvez uma nova experiência estética do medo e da desgraça que, em seu limite, significa o mesmo de uma “felicidade crônica” nos termos de Freire Filho. Enfim, apenas reflexões contemplativas sobre as ideias que você nos trouxe. No fundo, creio que estamos falando de um pensar e fazer design baseado, acima de tudo, no afeto.

    Abraços!

    • Daniel B. Portugal diz:

      haha, enxame de abelhas frenético. Gostei do comentário. Quanto a ser uma coisa boa: eu consigo ver algumas coisas boas e outras nem tanto, mas procuro evitar entrar nessa questão: de todo modo, não acho de modo algum que seja algo inteiramente demoníaco, como parecem sugerir alguns intelectuais apocalípticos (Debord & cia.). Entretanto, a lógica dos meios, das utilidades, eu sem dúvida colocaria do lado negativo — mas há como evitá-la, ou, ao menos, opor-se a ela.

      Assino embaixo da sua frase final. Que bom que vc gostou do texto. Abs

      • Daniel Koganas diz:

        Design baseado no afeto. Isso me motiva uma discussão entre design e arte. Mesmo batido, dá pra bater mais um pouco nessa questão.

        Sobre a pressa e esse novo fôlego contemporâneo, só tenho uma frase que resume minha opinião, mas que irei ampliar a discussão em meu próximo texto: paciência é uma virtude.

    • O difícil é explicar para a família-da-gente que estética não é salão de beleza.
      cidio

  2. Vinicius diz:

    Acabei de conhecer o blog e minha primeira leitura já foi uma grande surpresa. Parabéns, ótimo texto! O comentário do Marcos é um bom complemento, também. Bom trabalho!

  3. Olá Portugal,
    Com estas questões que você nos tráz, queria saber sua opinião sobre este projeto:

    quando você falou de um design com potencialidade estética foi nele que eu pensei.

    • Daniel B. Portugal diz:

      Oi, Vanessa, interessante o vídeo. Sim, ele mostra uma intervenção que propõe uma nova forma de experiência com essa coisa, para nós ordinária, que é a escada. Nesse sentido, acredito sim que ele vá na direção de uma experiência estética.
      De todo modo, o que achei mais curioso no vídeo foi exatamente a necessidade de remeter esse design da escada-piano a uma utilidade: “diversão pode evidentemente influenciar o comportamento para melhor”. Esdrúxula pretensão moralista (que raios é um bom comportamento?) que exemplifica bem parte da problemática do post: nada se liberta mais da lógica dos meios, nem mesmo uma escada-piano.
      Enfim….A lógica do vídeo, e da mentalidade contemporânea dominante é: a escada-piano deve servir para que as pessoas usem mais a escada, que serve como exercício físico, que serve para manter a saúde, que serve para trabalhar melhor, que serve para ganhar dinheiro, que serve para comprar ticket do metro, que faz você subir escadas, que que serve como exercício físico, que serve para manter a saúde, que serve para trabalhar melhor, que serve para ganhar mais dinheiro, que serve para comprar ticket do metro, que faz você subir escadas…

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