Filosofia do Design, parte XLIV – o Design Ortodoxo

* texto originalmente publicado no Design Simples.

Tanto no meio acadêmico quanto no meio profissional é bonito falar em abertura, liberdade de expressão, convivência de ideias, trabalho colaborativo, diálogo, etc. Como se não houvesse trincheiras ideológicas, panelinhas e preconceitos no Design. Eu, por exemplo, tenho preconceito contra quem acha que não tem preconceitos. E também contra aqueles que se acham “revolucionários” por serem homossexuais, vegetarianos, nerds e blasés. Tipo, it’s so last century… sorry.

Mas se não parecermos éticos (seja lá o que for ética), não pega bem. Temos que apoiar a sustentabilidade, fingir que somos contra a indústria cultural (mas sempre bem vestidos), falar inglês para poder falar de inovação e design thinking, esconder qualquer carência afetiva-financeira-intelectual e disfarçar a nossa falta de assunto. Contudo, você é especial porque tem a cabeça aberta, ou seja, a mesma alienação de quem tem a cabeça fechada. A diferença é que você diz “tanto isto quanto aquilo” e o bitolado diz “ou isto ou aquilo” – ambos sem nada questionarem, ambos caindo na armadilha da qual pensam ter escapado.

Talvez seja por isso que ninguém questiona se a nossa profissão precisa ser de fato regulamentada. Afinal, o mercado malvado não valoriza os designers que, coitadinhos, são explorados e mal pagos. “Com a regulamentação, porém, seremos pessoas melhores, mais respeitadas e mais felizes!” (Ursinhos Carinhosos, séc. XV a.C.). Vou contar um segredo, mas não conte pra ninguém: a vida também é cruel para os profissionais regulamentados. Sempre haverá a possibilidade de você perder o emprego e sujeitar-se à informalidade, pouco importa seu diploma, sua cabeça aberta, sua ética ou sua liberdade de expressão.

Um artista não é necessariamente alguém que cursou uma faculdade de artes. Um filósofo não é necessariamente alguém que cursou uma faculdade de filosofia. Mas um médico, um engenheiro e um advogado são diplomados. E parece que isso machuca a autoestima dos designers. Logo os designers, que superam qualquer preconceito, que são tão seguros de si mesmos, que não disputam atenção entre si e que conhecem muito bem sua própria história… Perdoem-me o sarcasmo, mas não vejo outra forma de introduzir este assunto.

Acho que deveríamos sim ter um espaço em concursos públicos. Mas também temos o direito de fazer design sem ter que passar pela universidade. Se o design é (ainda) uma atividade humana, o estudo acadêmico em design deveria ser uma escolha, não um requisito. Caso contrário, cria-se uma nova ortodoxia: o ensino se torna um mero treinamento profissional, a universidade, um passaporte obrigatório, o diploma, uma indulgência, e o design, um conjunto de regras e diretrizes. Note que essa ortodoxia já existe – não precisamos de uma nova.

O curioso é que nunca houve uma verdadeira disputa interna entre os designers, com uma revisão crítica de suas próprias ideias, doutrinas e teorias. Pode ser que, por um lado, os designers não se levam tão a sério quanto parecem levar a regulamentação. Por outro lado, ainda há um respeito ideológico que, em outras áreas, não mais existe. Esse respeito permite que os diferentes modos de pensar e fazer design se desenvolvam sem serem encarados como contradições. O que me parece contraditório, todavia, é lutarmos por uma formalização federal que estabeleça o que é e o que não é design.

Para o filósofo Clement Rosset (2002, p. 32), “uma verdade incerta é também e necessariamente uma verdade irrefutável: a dúvida não podendo nada contra a dúvida”. Ou seja, somente aquilo que ainda não foi definido e formalizado é singular, não se deixa representar por nenhum substituto, não permite nenhum duplo e, portanto, é incontestável em si mesmo. Claro que, ao assumirmos esta incerteza no Design, corremos um permanente risco de angústia intolerável, impossibilitando qualquer tentativa de definição precisa e de sistematização lógica. Ao mesmo tempo, contudo, a existência do Design permanece viva.

Generation OS13: The New Resistance Culture, Michael Oswald (2011)

Noutras palavras, acredito que a nossa relação com aquilo que fazemos é muito mais importante do que aquilo que fazemos em si. Essa relação só é possível quando questionamos e duvidamos de nós mesmos. A regulamentação do design não vai facilitar a relação que você tem com o design – e a grama do vizinho continuará sendo mais verde. A diferença é que, sem a regulamentação, ainda podemos escolher nossos vizinhos.

Referência Utilizada: ROSSET, C. O Princípio de Crueldade. Rio de Jaeiro: Rocco, 2002.

Leitura Complementar: Diga não a reserva de mercado, de Alexandre Van de Sande | Hipster Hitler, um retrato da redundância designer-hipster | 9000, o Banksy do Design | Look at this fucking hipster, fucking designers.

Acerca Marcos Beccari
Nascido em São Paulo/SP, Marcos Beccari é graduado em Design Gráfico e Mestre em Design, ambos pela Universidade Federal do Paraná (UFPR). Interessa-se por Filosofia, Psicologia, Ficção Científica, Tarot e outras conspirações, o que o levou a pesquisar sobre Filosofia do Design e a encarar o designer como um “articulador simbólico”. Atualmente coordena o blog Filosofia do Design, além de participar do projeto AntiCast e colaborar com os blogs Design Simples, Formas do Consumo e Universo Humanus.

12 Respostas a Filosofia do Design, parte XLIV – o Design Ortodoxo

  1. se você pensa que design é bacon… la la blah

  2. finalmente alguém resolveu escrever alguma coisa razoável sobre a regulamentação (isto é, depois dos ursinhos carinhosos, op. cit.)

  3. Pelo fato de eu morar num condomínio onde nem eu, nem o vizinho temos grama, ou seja, de trabalhar com pessoas que não sabem o que é design (e também não fazem de conta que sabem), muito menos que sabem o que a área e o profissional de fato fazem, é que eu concordo com esse sistema de relações.

    Não existem questões que sobrevivam (ou que são percebidas vivas) pontualmente, o que existem são pontos se movimentando, as famosas linhas, em diferentes velocidades, esbarrando num monte de coisas ao mesmo tempo, também em movimento, etc. Em vez de “ação-reação”, temos aí a “reação-reação”. E é por isso que eu acho que os “homens-héteros-cristãos”, ou os quietinhos do design, não tem muita voz, porque eles ficam parados, fazendo o trabalho deles e sendo “corretos”.

    Se os vegetarianos, os homossexuais e os blasés ficassem também parados, sem falar/expressar nada ou sem serem o que querem ser, talvez não fossem taxados de “revolucionários” (até por eles mesmos, vai saber, é tudo uma grande conspiração, vinda de dentro e de fora). Por isso concordo e discordo ao mesmo tempo desse teu texto, Marcos. Não sei até que ponto (se é que existe um “ponto” pra isso) é bom ser quietinho e bem-relacionado. Também não sei se é bom ser taxado de “revolucionário” enquanto os mais quietinhos estudam, sem que ninguém saiba, um jeito de explodir o mundo. O negócio é tentar conviver com ambos, tarefa não tão fácil assim (até porque fazemos parte desse bolo), e simplesmente ser alguém, nem que seja ninguém, tanto faz.

    Tá bom, caí na relatividade! Mas é que, de verdade, acho que a indiferença cabe. Porque por mais quietinha que seja a pessoa, ela sempre vai ter um lado insuportável, e por mais revolucionária, idem. E tem aquela coisa, a gente costuma achar insuportável o que vem de fora, porque existe a grande possibilidade de já termos aquilo por dentro, na nossa própria vida. Não é atoa que eu tô aqui comentando esse teu post. Acho insuportável muitos dos designers (entre outros profissionais) que se acham o máximo, mas tô aqui, sendo vegetariana, fazendo trabalho social, enquanto visto roupas da moda, estudo nos fins de semana e ouço música popular brasileira. Fazer o que né, às vezes somos tão insuportáveis quanto aqueles que odiamos.

    Mas é isso, vou continuar cultivando cactos porque, mesmo sem cuidar, eles continuam bem verdinhos.

    Beijo pro srto :)

    • odeio esses emoticons automáticos

    • Mariana diz:

      Não consigo ver nada de revolucionário no fato de ser homossexual, blasé e vegetariano. Talvez muitas dessas pessoas possam ser “revolucionárias”, mas estão mais para radicais se forem pra ser algo. A não ser se considerarmos o fato delas estarem quebrando algum paradigma. Mas no tempo das incertezas não consigo definir revolução. Não há nada em ser quieto ou agitado, designer engajado ou desengajado. O grande problema está na perda de si mesmo. Em algum lugar nos perdemos da nossa essência. Fakes, “montados”, originais, “vazios” ou cheios de conteúdo o fato é que o ser social, em geral, teorias da conspiração à parte, não tem autonomia de pensar, muito menos para valorizar ou não valorizar o design, regulamentar ou não regulamentar. E se isso (autonomia do pensar), que na minha ignorância me parece elementar para qualquer “revolução” e para que qualquer barulho seja inteligível, não existe, então fica íngreme dizer o que é ou não é qualquer coisa, certo ou errado.

      Também acho que algo deva ser feito, por isso, no momento me fecho, para rever a mim mesma, quem sabe assim eu consiga contribuir com algo.

      Bom texto Marcos.

  4. Olá Anna,

    Eis um ótimo contraponto. Mas sim, você caiu na relatividade, ainda que com bons argumentos. Veja, sobre o lance do revolucionário que se torna insuportável (ou vice-versa), acho que todos somos simultaneamente verdadeiros e falsos em nosso cinismo quotidiano, como eu coloco neste post: http://filosofiadodesign.wordpress.com/2011/04/17/filosofia-do-design-parte-xxxvi-%E2%80%93-do-cinismo-ao-design/

    Ou seja, eu concordo que é inerente ao “ser-designer” querer ser revolucionário (ou cínico, como eu prefiro dizer), e evidentemente eu me incluo nisso. Mas a crítica que está por detrás deste texto (por detrás da regulamentação, dos blasés, vegetarianos, etc.) recai justamente no relativismo. Posso estar errado, mas me parece que o extremo do relativismo é idêntico ao extremo do dogmatismo, ambos me parecem incoerentes em si mesmos. Sei que isso pode parecer uma discussão super abstrata e distante da realidade, mas o que eu vejo é o contrário: o relativismo acaba dificultando a vida dos designers (assim como o dogmatismo). Eu digo isso porque a própria “Escola do Imaginário” (que eu tanto gosto) é super relativista, mas quando eu tento aplicá-la no Design, ou quando vejo alunos fazendo isso, ela se torna uma armadilha: o argumento do “tanto faz” ou “tanto isto quanto aquilo” se torna dogmático, uma saída fácil para qualquer coisa.

    Então ao invés de haver reflexão, articulação de conhecimento e criação de conceito (no sentido deleuziano), o relativismo entra em estagnação, podendo se tornar até “ortodoxo”, uma receita de bolo que, na prática, nunca sai do forno. Qual a saída então? Não haver saída. Por isso eu menciono Clement Rosset: para ele, o único caminho “seguro” é a dúvida, o estado de incerteza, aquilo não existe (mas que tem a possibilidade de existir). Daí a minha crítica à regulamentação que, na verdade, é a minha crítica aos designers (e seres humanos) que têm certeza daquilo que são (vegetarianos, homossexuais, hipsters, etc). Ou seja, a certeza invalida a si mesma (e portanto eu também não tenho certeza disso). Logo, eu só consigo levar a sério aqueles que não têm certeza daquilo que são, daquilo que fazem e daquilo em que acreditam. A graça do relativismo estava em sua incerteza inicial, mas a partir do momento em que aquela incerteza permanece, ela deixa de ser “incerta”. E no fim, como um bom “cínico” que sou, acabo duvidando (ou tentando duvidar) especialmente daquilo que eu sempre defendi.

    Uma beijão Anna, saudades.

  5. Em resumo, não tenho muita certeza, mas ao que tudo indica o melhor conselho seria “doubt yourself”. Para complementar, menciono um trecho de Heidegger (vi agora no Tumblr e acho que veio a calhar):

    “Se se me permite expressar-me com brevidade e até, de certo modo, brutalmente, embora com base numa longa reflexão, a filosofia não pode provocar nenhuma alteração imediata do atual estado do mundo. Isto não é válido apenas em relação à filosofia, mas também a todas as meditações e anseios meramente humanos. Já só um deus nos pode ainda salvar. Como única possibilidade, resta-nos preparar pelo pensamento e pela poesia uma disposição para o aparecer do deus ou para a ausência do deus em declínio; preparar a possibilidade de que pereçamos perante o deus ausente” — Heidegger in der Spiegel.

    =*

  6. Oi Marcos (:

    Super concordo quando você diz que o relativismo extremo se torna um termo absoluto, por ser uma resposta fácil e que cabe à maioria dos assuntos. Afinal de contas, ele perde o movimento e a capacidade de reflexão, por estar preso apenas em aceitar outras e quaisquer propostas, na defesa do tanto faz. No entanto, penso que o extremismo seja manipulável a partir do momento que conseguimos “esbarrar” nele, por meio da dúvida.

    Uma vez escrevi no quase-fala “desliberdade: pela liberdade de conseguir se prender em algo/alguém”, que é isso, conseguir ter liberdade de escolher não ter liberdade absoluta, sendo que pra sair do estado de liberdade, seria necessário estar liberta desse termo enquanto convicção. Por isso, acho que tanto os “revolucionário/cínicos” quanto os “cidadãos corretos” (entre outros) são válidos pra existência de uma maleabilidade entre convicções, mas também pros nossos momentos de fuga da própria maleabilidade. Talvez os dois precisem existir pra haver a possibilidade de vivenciarem situações duvidosas que saiam do bom-senso (termo que, de fato, não existe, mas está aí, “vivo” por não se saber a que se refere exatamente) e, com isso, “acontecer” algo que é independente das ações deles. Enfim, não sei.

    E, realmente, “ser você mesmo” é algo tão impossível quanto “ser todo mundo” (quase a publicidade da Renner).

    Sorriso, querido, saudades idem.

  7. annapola diz:

    Oi Mariana,

    Posso estar também errada (e quem não pode, né?), mas quanto ao termo “revolução”, acho que depende de cada caso. Partindo do pressuposto que a revolução é uma mudança/transformação motivada por uma ideologia, muitos homossexuais e vegetarianos, na minha opinião, podem ser revolucionários sim (blasés já não sei, até porque não sei quais as crenças desse pessoal).

    Isso porque, hoje, as mudanças acontecem no “micro-universo” e não mais no “super-heroísmo”. Inclusive esse teu comentário sobre serem mais pra radicais do que pra revolucionários, já aponta que esses fatos não estão dentro do teu padrão considerado normal. (Num mundo de vegetarianos, radical seria comer um bicho. Assim como no nosso, radical é ser canibal – na ideologia de que existe uma superpopulação no mundo, por exemplo.)

    É que essas pessoas, a partir do momento em que são obrigadas a pensar maneiras de convívio social, profissional e até pensar estratégias de reações pra determinadas situações cotidianas (como jantar fora prum vegetariano ou ir ao cinema com o namorado prum homossexual), geram um atrito na rotina também das pessoas em volta, transformando (mesmo que superficialmente) os “micro-universos”. Por mais que estejamos em 2011, não é difícil imaginar esses atritos, convenhamos (como se daqui uns anos a gente não fosse se assustar com os “novos revolucionários”). Mas enfim, nunca estudei sobre esse termo em específico, é só a opinião dos meus cotovelos mesmo.

    Quanto a tal “essência”, acredito que ela não exista realmente, e o problema pode estar justamente nessa procura. Deleuze defende isso, inclusive, que o inconsciente é “construção”, é “produção, é “fábrica”, não um “teatro”, esse “algo essencial”, que acredito ser uma “prisão consciente” que nós mesmos inventamos na tentativa possessiva de “nos achar”. É o que implicam os comentários sobre “ser você mesmo”, o que é muito incoerente, porque não existe uma membrana (ou até a própria pele) envolvendo o que somos. Afinal, não somos apenas “carne, ossos e órgãos”, certo? Não podemos ignorar o mundo, as pessoas e as coisas. E as relações que elas percorrem. (Sem falar dos sonhos e de tudo que construímos além do mundo, mas disso o Marcos pode falar muito melhor que eu.)

    Sorriso,
    Anna

  8. Mariana diz:

    Olá Anna! Legal seu comentário.

    Eu não sei se sou blasé, homossexual de verdade, mas já fui vegetariana. E jamais poderei falar pelos outros, quando eu nunca serei os outros, até por enquanto não fui outra pessoa, a não ser em possíveis crises esquizofrênicas, mas aí foram apenas projeções.
    Eu acredito na essência, sou espiritualista, e acredito na concepção defendida por Jung, por exemplo. Alguns acreditam na partícula elementar, aquela que gera tudo, a “divina proporção” , que é o elemento básico de tudo. Ora, se temos um elemento básico, logo ele é a nossa essência, muito simplista não? Pois é. Completamente. haha. Mas temos tantas referências, vivemos em meio ao caos que não conseguimos mais saber o que é uma referência, você “ouve aquela canção”? Eu não sei qual é a minha. De tantas ouço, não sei qual é a verdadeira.
    De fato existe uma? Pode ser que não. Mas eu prefiro acredita que sim, que um dia irei ouvir e seguirei a minha jornada até ao meu encontro e realização pessoal. Afinal, somos todos heróis, certo?

    Bom, como sempre, insegura, posso ter falado merda, sou disléxica e apenas um grão de areia no universo.

    Obrigada por compartilhar suas idéias.

    Abraços

  9. annapola diz:

    Oi Mariana,

    Bacana sua crença. Tenho, muito próximas de mim, pessoas que acreditam justamente nisso que defendes, mas eu, particularmente, tenho opiniões e crenças um pouco distantes dessa. Mas acho bacana conhecer e pensar a respeito. E como estou sempre mudando de opinião, gosto de ter referências de tudo quanto é tipo, sabe-se lá por onde andarão os pensamentos daqui pra frente, né…..

    Abraço!

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