Filosofia do Design, parte XLV – Subversivo Design

* texto originalmente publicado no Design Simples.

Muitos consideram que a Filosofia do Design, conforme retratada em meus ensaios, é “desnecessariamente subversiva”. Na perspectiva psicológico-existencialista, subversão significa distanciar-se de você mesmo, olhar para si como se você fosse um estranho e depois descobrir quem é que observa este estranho. Tal estranheza pode ser ilustrada com o seguinte trecho do posfácio de “A vida está em outro lugar”, romance de Milan Kundera:

“Jaromil me parece de imediato ridículo (…) posso dizer a mim mesmo que Jaromil não sou eu, eu não sou ele (…) e portanto que a minha confiança está salva. Mas eis que rapidamente (…) meu riso começa a ficar amarelo, e Jaromil a parecer-se perigosamente comigo (…) O bufão, que antes estava no palco, diante de mim, desce para a plateia, ao meu lado, em mim, de tal maneira que em breve já não posso manter Jaromil à distância e o meu riso é contra mim mesmo (…) A caricatura virou espelho.” (François Ricard in KUNDERA, 1991, p. 381).

Embora eu nunca tenha me declarado como “subversivo” (no sentido epistemológico), é provável que a desnecessária subversão esteja nas entrelinhas de um discurso que, aos poucos, se mostra contraditório e dissimulado. Pois a Filosofia do Design me parece uma espécie de cenário onde nós, designers, atuamos como figurantes vestidos a caráter, mas sem sabermos muito bem em qual peça estamos atuando. Trata-se de uma perplexidade inevitável que nos instiga a assumir, com permanente desconfiança, a profunda incerteza que a Filosofia do Design, a meu ver, pressupõe.

Em última instância, o Design se torna um fingimento projetual quando desconfiamos de nossa própria identidade, transformando-a numa máscara. Subversão seria destruir esta máscara, mas a Filosofia do Design não nos deixa fazer isso: nada desmorona, nenhuma ruína desaba, nenhum grito se faz ouvir e, no fim das contas, o Design continua o mesmo. É nesta sutileza, entretanto, que reside uma subversão tão secreta quanto imperceptível. Ou seja, a Filosofia do Design não pretende subverter nada e, justamente por isso, se revela radicalmente subversiva – subvertendo, de maneira insustentável, a sua própria subversão.

Somente assim o Design consegue garantir sua própria existência – não sobre escombros, mas a partir do instante em que, através da Filosofia do Design, ele deixa de confiar em si mesmo. Pode parecer uma fuga, mas, ao contrário, estamos tentando penetrar o Design, desarmando-o e desnudando-o impiedosamente por meio de um simples espelho. Em outras palavras, se a Filosofia do Design é subversiva, é porque ela não considera o Design como nada além do que ele realmente é: uma atitude filosófica e, sobretudo, humana.

Visto por este viés, a Filosofia do Design não passa de uma ficção inconsciente que atribui, sutil e violentamente, um sentido ao Design. Este sentido se torna inacessível e pretensioso na medida em que é fictício, enganando e confundido aqueles o levam muito a sério. Seria possível, porém, enganar o próprio engano? A ficção não se torna real quando confirma sua irrealidade? Se Kundera (1991) considera que todo pensamento poético é uma fraude, acredito que todo pensamento filosófico é uma armadilha e que existem inúmeros refúgios que nos previnem dela. Uma vez consentida, contudo, a armadilha da Filosofia do Design nos protege, ainda que provisoriamente, do território caótico da afirmação, da verdade e da certeza.

Do lado de cá, reconhecemos que o território da incerteza e da dúvida não tem nada de diferente do lado de lá – ao contrário, é um reflexo indistinguível. Diante deste absurdo, desta brincadeira de mau gosto, ficamos incomodados e desconfiados. É exatamente neste ponto que a Filosofia do Design reflete e subverte a armadilha que, na verdade (na verdade?), está no Design. Nada é afirmado por completo, nada é estabelecido permanentemente, senão o movimento constante do acaso e do erro.

Portanto, a Filosofia do Design nada mais é do que um espelho invertido do Design, que também a reflete, sendo a reflexão que há entre ambos aquilo que nos torna conscientes de que a realidade depende da ficção, a ordem depende da desordem e as regras dependem da subversão.

Em resumo, a Filosofia do Design encontra-se naquilo que o Design não é, mas por cujo intermédio o Design consegue ver o mundo com os olhos daquilo que talvez deveria ter sido (e por algum motivo não foi). Em toda sua simplicidade, tal conclusão encontra resistência em sua própria subversão, pois é esta resistência que faz da Filosofia do Design um carrasco disfarçado de vítima, objeto travestido em sujeito, dúvida que acredita ser real. Um designer, enfim, que é subversivo somente quando desnecessário.

Referência Utilizada: KUNDERA, M. A vida está em outro lugar. Trad. Denise Range Barreto. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1991.

HyperReality, by Chris Coogan (2006)

Acerca Marcos Beccari
Nascido em São Paulo/SP, Marcos Beccari é graduado em Design Gráfico e Mestre em Design, ambos pela Universidade Federal do Paraná (UFPR). Interessa-se por Filosofia, Psicologia, Ficção Científica, Tarot e outras conspirações, o que o levou a pesquisar sobre Filosofia do Design e a encarar o designer como um “articulador simbólico”. Atualmente coordena o blog Filosofia do Design, além de participar do projeto AntiCast e colaborar com os blogs Design Simples, Formas do Consumo e Universo Humanus.

2 Respostas a Filosofia do Design, parte XLV – Subversivo Design

  1. Amilcare diz:

    subversão é o que você faz ao manipular pessoas com as palavras, pense nisso. Punkzinho de boutique.

    • Faço questão de não apagar este comentário claramente babaca.

      Primeiro, porque você não tem o mínimo de vergonha na cara para revelar tua identidade – então eu suspeito que nem você saiba quem você é.

      Segundo, “pense nisso” é uma retórica de manipulação tão covarde que invalida o seu próprio argumento.

      Terceiro, lembre-se do que é óbvio: quanto mais hostil e agressivo você quer parecer, mais inseguro e “mal-comido” você se revela.

      Em quarto lugar, liberdade de expressão não faz sentido quando não há o que se expressar.

      Portanto, este seu comentário ficará registrado como exemplo de trolagem inútil, mas os próximos serão apagados e bloqueados. Quer ser levado a sério? Então antes leve você mesmo a sério: desenvolva algum argumento minimamente coerente e fale diretamente comigo (contato@marcosbeccari.com). Caso contrário, você será atacado com a mesma ignorância anti-filosófica com a qual me atacou.

      Antes que eu me esqueça: pergunte pra tua mãe o que é subversão, filho da puta. _|_

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