Consumo de Crenças e a Alienação

* texto originalmente publicado no Formas do Consumo.

Sabe aqueles assuntos que evitamos discutir, mas que todos nós temos uma opinião a respeito? Religião, política, gosto musical, futebol… No fundo, discutir sobre estas coisas é discutir sobre crenças e, portanto, sobre aquilo que nos faz ser quem somos. Mas será que a própria crença pode ser considerada um objeto de consumo? Se pensarmos em nossos gostos musicais e em nosso time de futebol, tal suposição não parece ser tão absurda. Quando elegemos determinada marca a ser sempre consumida (você só compra leite Parmalat, por exemplo), não estamos apenas acreditando que aquela empresa é melhor que seus concorrentes, mas também estamos assumindo um determinado modo de vida, um conjunto de hábitos e, por que não, uma personalidade que nos caracteriza enquanto indivíduos.

Para fins reflexivos, podemos classificar o “consumo de crenças” em três grandes categorias: easy, medium e hard. No primeiro caso, basta identificar-se com determinada crença para consumi-la. Qualquer um pode tornar-se isso ou aquilo, é só querer – torcer pelo Palmeiras ou Flamengo, ser hetero/homo/bissexual, ser ateu ou agnóstico, etc. Assim como na doutrina do Espiritismo, o consumo easy funciona na base do autobatismo, como também ocorre no Islamismo, ao declararmos o nosso testemunho de fé (Shahada), ou na Umbanda, onde só precisamos frequentar os terreiros.

No consumo medium, porém, é necessário que um representante aprove a sua crença para que você possa consumi-la. Trata-se de tudo aquilo que pressupõe um ritual de batismo, isto é, um reconhecimento formal – entrevistas de emprego, vinculações a partidos políticos, torcidas organizadas, etc. Para você se tornar budista, por exemplo, há uma cerimônia onde você deve recitar votos e fazer juramentos. De modo semelhante, as igrejas pentecostais promovem batismos de iniciação àqueles que queiram pertencer a essa religião.

Finalmente, o consumo hard é mais rigoroso: etapas sistemáticas de provação, anos de estudos, disciplina severa, sacrifícios, etc. Exemplo disso é qualquer carreira de vida baseada em uma instituição formal: carreira acadêmica, carreira militar, carreira política, etc. Retomando a analogia religiosa, no Judaísmo você precisa estudar e ser avaliado pelos rabinos, além da cirurgia de circuncisão nos homens. No catolicismo, por sua vez, depois do batismo você precisa fazer a comunhão, a confissão e a crisma. Por fim, no hinduísmo você precisa trabalhar no templo hindu, estudar a doutrina, receber um nome espiritual e raspar a cabeça.

Evidentemente, qualquer crença pode ser consumida de maneira easy ou hard. Isso significa que o consumo de crenças é feito de forma diferenciada entre as pessoas, fato este que se confunde com o conceito de alienação (do latim alienare ou alienus, que significa afastar, distanciar, estar alheio). Enquanto um consumidor easy geralmente acusa o consumidor hard como sendo alienado, o mesmo pode ocorrer no caminho inverso: o consumo easy é alienação para consumidores hard. Até mesmo aquele que tenta fugir de ambos os extremos, como um ateu ou um ativista anti-consumo, também pode ser considerado alienado na medida em que consome uma crença específica (aquela que nega o próprio ato de acreditar/consumir).

Frente a isso, há duas possíveis conclusões: o ser humano é uma criatura alienada ou o ser humano é uma criatura consumista. Particularmente, creio que o consumo é a mesma coisa que alienação (e vice-versa), mas que, acima de tudo, se trata de algo necessário para que nossa vida tenha sentido. Somos todos alienados simplesmente porque temos consciência de nós mesmos, porque consumimos um determinado modelo de vida, porque estamos sempre buscando um sonho, enfrentando dificuldades em prol daquilo que amamos. Não ser alienado, entretanto, significa a mais pura alienação: viver à beira do abismo de uma vida sem sentido, sob a agonia de enxergar todo o vazio que a cegueira alheia voluntariamente não vê.

Acredito, portanto, que a cegueira é sempre inevitável, mas que, por outro lado, temos a capacidade de enxergar aquilo que queremos ver. Pois todo e qualquer tipo de consumo é um tipo de acesso a uma única coisa: a nós mesmos. Embora este raciocínio possa parecer demasiado relativista, pelo contrário, não é. Se eu estiver certo, nenhuma realidade consumida (nenhuma crença em si) pode ser contestada, demonstrada ou reconhecida como legítima ou falsa. Na verdade, o próprio consumo configura uma única realidade dissolvida entre todas as outras.

Agora (2009) – um exemplo da real fragilidade entre o easy e o hard no consumo de crenças

Acerca Marcos Beccari
Nascido em São Paulo/SP, Marcos Beccari é graduado em Design Gráfico e Mestre em Design, ambos pela Universidade Federal do Paraná (UFPR). Interessa-se por Filosofia, Psicologia, Ficção Científica, Tarot e outras conspirações, o que o levou a pesquisar sobre Filosofia do Design e a encarar o designer como um “articulador simbólico”. Atualmente coordena o blog Filosofia do Design, além de participar do projeto AntiCast e colaborar com os blogs Design Simples, Formas do Consumo e Universo Humanus.

3 Respostas a Consumo de Crenças e a Alienação

  1. “…sob a agonia de enxergar todo o vazio que a cegueira alheia voluntariamente não vê.”Bonito isso…

  2. bac diz:

    interessante.
    mas um tanto diminuto e ignorante incluir a sexualidade nesse conceito de “consumo easy”

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