O Design das Palavras
10/07/2011 Deixe o seu comentário
Penso constantemente nas palavras, não no que elas querem dizer ou dizem, mas no que, de fato, são. Nelas enquanto projetos, estruturas, histórias. Algumas vezes, eu penso em escrever um texto bonito, que diga as coisas de um jeito minucioso, longínquo, sereno. Então lembro que para o texto não tender à náusea, devo atribuir-lhe alguma rispidez, algo propriamente pontiagudo, agressivo. Eis que me deparo com as palavras que formariam essa maciez e essa rigidez, às vezes se alternando, outras vezes se completando. Aí as palavras me conquistam e esqueço o tal assunto bonito-ríspido. Penso na primeira palavra e já vem de súbito a segunda e a terceira. Como se a maciez que eu quisesse colocar no texto estivesse na palavra “maçã” e a rispidez na palavra “criar”. E uma loucura na palavra “explica” ou “ceroula”. E raiva na palavra “rápido” ou “ventilador”. Algo como: “Vou criar nesta maçã e te explico rápido como vestir uma ceroula na frente do ventilador”. Pouco me importa o que esse texto queira dizer, mas sim que ele é, ao mesmo tempo, macio, ríspido, louco e agressivo. Como alguém ou alguma coisa qualquer.
O Design possui uma questão que me deixa confortável quanto ao que as coisas são, é que elas são feitas para as palavras. A gente pode até pressupor o que as palavras irão dizer, mas ser, só as palavras existindo mesmo. Não que isso seja característica exclusiva do Design, mas sendo o Design uma área de criação, de projeção, de construção, ela expande as possibilidades de uso dessa pressuposição que podemos injetar nos produtos, sejam eles de qualquer natureza.
Sempre tive dificuldade, por exemplo, de separar poesia de prosa. Paulo Leminski que disse “a poesia, se vocês olharem bem, ela é o amor entre os sons e os sentimentos”. Mas e a prosa não é? Concordo que a poesia pode ter toda a estrutura de versos, etc. Mas tanto a prosa quanto a poesia são escritas por meio de escolhas, a seleção das palavras. Algumas palavras são muito mais convincentes que outras, mas dizem a mesma coisa, outras são muito mais divertidas, mesmo dizendo algo sério. “Ilustres Palestras” é uma das chamadas mais divertidas que já li, mas nem apontavam algum programa de humor ou filme de comédia. Eram apenas as palavras, sendo elas mesmas, dizendo algo sério, com cunho acadêmico e intelectual.
Eu sou preguiçoso e, vejam, este texto mesmo, estou convencido de que não preciso recheá-lo de idéias originais ou novas, fazer chover idéias, avançar de modo basto, variado, coerente etc. (teoria das nuvens).
Estou convencido de que, para ele ficar bom, eu não devo quebrar muito a cabeça. Preciso principalmente (antes de tudo) não escrever muito, muito pouco a cada dia, o melhor é ir escrevendo, vai-que-vai. Depois, me arranjar para compor com isso um objeto literário um pouco original, um pouco à parte, muito bem aclarado, amputado à minha maneira, que tenha vida própria (não existem trinta e seis processos para isso: é preciso tirar as explicações).
Que se sustente, meu deus… Uma coisinha de nada, mas com estilo.
Não só compartilho com essa opinião de Francis Ponge, como declaro que ele é uma das leituras que me faz pensar ainda mais nas palavras vivas, mas sem tanto drama (exceto que isso seja particular da palavra envolvida). Ponge coloca outro ponto nesse contexto: “levar em consideração as palavras… Mas a poesia não me interessa enquanto tal, porque o que se chama atualmente poesia é o magma analógico bruto. A analogia é interessante, mas menos do que as diferenças”. Em consequência disso, o poeta exemplifica: “Quando eu digo que o interior de uma noz se parece com o bombom pralinê, isto é interessante. Mas o que é ainda mais interessante é a diferença. [...] Nomear a qualidade diferencial da noz, eis o alvo, o progresso”.
Não é minha intenção colocar em questão a literatura, mas a palavra por si mesma, como um produto de Design. Já pensou se precisássemos comprar palavras assim como compramos fontes tipográficas, revistas ou até liquidificadores? Ilustres e Palestras seriam as minhas primeiras aquisições.
(só os nomes são… nomes)
Referências utilizadas:
LEMINSKI, Paulo. Poesia: a paixão da linguagem. In NOVAES, Adauto. (org.)Sentidos da Paixão.São Paulo: Companhia das Letras, 1987. p. 283-306.
PONGE, Francis. Métodos. Tradução de Leda Leonóro da Motta. Rio de Janeiro: Mago Editora, 1997.







