Imaginário, demasiado imaginário
07/08/2011 3 Comentários
[Este ensaio não tem nada a ver com Design. Ao menos, não diretamente. É também um texto mais extenso que o habitual por aqui. Se isso te incomoda, não prossiga a leitura.]
Aqueles que acompanham meu trabalho sabem que tenho muito apreço à denominada Escola do Imaginário. Recentemente participei de um congresso sobre esta linha de pensamento e voltei um tanto desiludido. Não com o congresso em si, nem com os autores ou qualquer pessoa, mas com uma certa ortodoxia do Imaginário.
No decorrer do evento, fui anotando algumas manias discursivas. A primeira delas é um modo de ser eclético, plural, abrangente e transversal, sempre se pautando em argumentos relativistas (mas nem um pouco céticos). Ou seja, o imaginário abarca tudo e todos, sendo qualquer corrente ou doutrina passível de ser adequada enquanto “forma simbólica”, nos termos de Cassirer.
Consequentemente, é elegante citar milhares de autores que não têm ligação nenhuma com a escola do imaginário – quanto mais distante, melhor –, como uma tentativa de provar (para quem?) a erudição e solenidade do imaginário. Isso porque outro hábito é enfatizar a todo instante que o imaginário é marginal, subversivo, mal interpretado e, acima de tudo, injustamente não compreendido pelo mundo intelectual.
Por que? Com um sorriso milenar, eles respondem: não há finalidade para o imaginário, pois o imaginário é um fim em si mesmo. Tanto isto quanto aquilo, de - para - entre saberes, dois lados de uma mesma moeda, indícios de um mesmo fato. As dualidades e a síntese dialética são apenas ilusões de uma única e última realidade: o uno de Plotino, a substância de Spinoza, a alma do mundo de Schelling, a tradição neoplatônica enfim.
Claro que há muitas divergências e assuntos nebulosos entre os autores do imaginário. O sociólogo Michel Maffesoli, por exemplo, apresenta um discurso demasiado relativista se comparado com o do psicólogo James Hillman (que também entra no âmbito social), sendo que este último declaradamente não simpatiza com Marie-Louise Von Franz. Aliás, eu ainda não entendi por que Jung não é tão bem-vindo quanto Bachelard para os estudiosos em Durand (o suposto fundador disso tudo). É preciso ser transdisciplinar, dizia Edgar Morin, mas “ecletismo é o diabo”, dizia Hillman, “evitamos a metafísica”, enganava-nos Jung.
Evidentemente, não pega bem falar disso em um congresso sobre o Imaginário. Aprendi que, se não se pode falar, devo-me calar. Pois eu, um mero designer gráfico (what?), estou pisando em um território que já tem dono, invadindo uma casa de boa estirpe, de família tradicional, um pessoal do bem. O engraçado é que esta família, atuante na área de Educação e na instauração de um pensamento crítico, não admite críticas. Antes devemos prestar continência à Durand, mesmo que ele nunca tenha falado diretamente sobre educação.
“Sinto-me na casa do vizinho”, comentou comigo Gustavo Barcellos, renomado analista junguiano. Pra mim parecia mais um campo de treinamento. Sei que eles não pretendem agir desta forma, mas, como em qualquer ambiente acadêmico, há um imperativo institucional que é mais forte. Nas palavras de Hillman (1989, p. 44):
“É isto o que eu chamo corrupção nos institutos de treinamento: ser pego numa terrível inconsciência, enquanto pretende-se estar desenvolvendo a consciência, guiando a alma. (…) Eu não sei como manter o eros vivo numa instituição”.
Mais do que isso, parece-me que a tradição do imaginário tornou-se um fardo. A grande dificuldade talvez esteja no estranhamento entre participantes internos e observadores externos dessa tradição. Mas seria possível alguém estar alheio a tradições? Acho que as “contradições” não permitem. Para o filósofo Paul Feyerabend (2007), há dois tipos de relação entre tradições: a troca guiada e a troca aberta. Minha experiência com o pessoal do imaginário foi certamente uma troca guiada:

“…uma tradição bem especificada [que] aceita somente aquelas respostas que correspondem a seus padrões. Se um dos lados ainda não se tornou um participante (…) será atormentado, persuadido, educado até que o faça – e então a troca começa” (FEYERABEND, 2007, p. 360).
Em contrapartida, uma troca aberta não dispõe de um órganon, isto é, não há nada especificado ou especificável. Embora este tipo de troca aconteça o tempo todo em nosso cotidiano, ela não permite a constituição de uma tradição razoavelmente estável, apenas de uma história (bastante incompleta) de como a troca aconteceu até então.
“Ora, considerando-se que os cientistas usam métodos de pesquisa diferentes e até contraditórios (…), temos que concluir que o Ser responde diferente, e positivamente, a muitas abordagens distintas. O Ser é como uma pessoa que mostra um rosto amigável a um visitante amigável, fica zangado diante de um gesto zangado e permanece indiferente diante de um chato” (FEYERABEND, op. cit., p. 362).
Isso é o verdadeiro relativismo, uma abordagem que nunca teve êxito enquanto tradição. “…o relativismo é uma quimera, tanto quanto o é o absolutismo (a ideia de que existe uma verdade objetiva), seu gêmeo impertinente” (op. cit., p. 359). A distinção entre relativismo de absolutismo depende de cada participante ou observador, de acordo com suas concepções e pressupostos intencionais – o que também é contraditoriamente relativista.
Fato é que, enquanto observador, mantive-me em estado de vigília em meio a tantos pesquisadores excessivamente apaixonados por suas ideias, por si mesmos, pelo imaginário. Contudo, seria ingênuo posicionar-me contra ou a favor do imaginário, pois não se trata do imaginário em si, mas do uso que se faz dele. O imaginário é uma abordagem teórica. Estou correndo um risco nada teórico agora e isso não significa que abandonarei tal abordagem.
“Isso os filósofos já previram há dois mil e quinhentos anos. É a ideia de que pessoas muito conscientes do valor do que elas fazem podem facilmente se tornar pessoas extremamente perigosas, justamente porque creem absolutamente nelas mesmas. E uma pessoa que acredita plenamente nela mesma é sempre um problema. Uma certa dúvida consigo mesmo me parece fundamental para não virarmos monstros” (PONDÉ, 2011, FP).
O problema é quando o Imaginário, assim como qualquer outra abordagem, é associado a intenções políticas ou morais, ao “como as coisas deveriam ser”. Potencialmente, pois, o imaginário contém em si todo tipo de conhecimento e ninguém tem o direito de privá-lo disso. As contradições são importantes – e ignorá-las nos impede de escutar e apreciar novas melodias.
Do contrário, o imaginário se torna um fardo: Jung, Bachelard e Durand nos deram as ideias, agora devemos carregá-las conosco, aplicá-las e trabalhar com elas. “E é tudo calcado num pseudomisticismo da individuação e da totalidade” (HILLMAN, 1989, p. 45). É também uma espécie de auto-proteção: ninguém questiona ou duvida daquilo em que tanto se acredita e se confia, ninguém se arrisca, ninguém desafia ou permite ser desafiado. No extremo oposto, vale dizer, os estruturalistas e cognitivistas são tão literais e intransigentes quanto o pessoal do imaginário.
“Para ser leal a Jung, [os junguianos] tornam-se indiferenciados. Eles sentem que sua tarefa é uma missão. Divulgar. Ensinar. Quando você tem que ensinar algo, você se torna didático e tem que saber simplificar a coisa: você ensina aquilo que já está acabado ou, digamos, quando você ensina alguma coisa, ela se torna já acabada. De qualquer maneira, eles estão divulgando a teoria, mostrando que Jung está certo. Eu não estou preocupado em mostrar que Jung está certo. Ele está certo – e está errado também… mas isso não importa. Há outras coisas a serem feitas, como aprofundar as implicações, continuar, levantar questões, olhar para aquilo que ele disse pelo lado e baixo, numa nova luz, uma luz estranha, tirar mais coisas do que foi dito” (HILLMAN, 1989, p. 49).
Durand dizia que é necessário problematizar as coisas o tempo todo. Isso inclui problematizar o próprio imaginário? Parece-me que não. Mas como eu venho do design e sou apenas um turista (como fui apelidado), acho que tenho certa abertura para fazer isso: questionar o imaginário. Não acredito no imaginário ou em seus autores, pois não vejo isso como uma crença. O imaginário não é um time de futebol. Adotá-lo não significa converter-se religiosamente. São apenas ideias valiosas para o pensamento, uma opção epistemológica profícua na medida em que permite, pelo menos aos turistas, ser questionada e contrariada.
“Entender é sempre limitado” | de Clarice Lispector, por Antônio Abujamra
Referências utilizadas:
- FEYERABEND, P. Contra o método. Trad. Cezar Augusto Mortari. São Paulo: Editora UNESP, 2007.
- HILLMAN, J. Entre vistas: conversas com Laura Pozzo sobre psicoterapia, biografia, amor, alma, sonhos, trabalho, imaginação e o estado da cultura. São Paulo: Summus, 1989.







Obrigada pelo texto, haha (:
Na verdade, este é meu atual problema… essa abertura sem limites, essa relativização excessiva, essa impossibilidade (?) de estabelecer alguns parâmetros, ser crítico e tomar posições.
Pra mim o mais válido no imaginário é o respeito com que ele se relaciona com outras coisas (ou pelo menos essa é a minha interpretação) e as valoriza. (Embora alguns pesquisadores, por mais contraditório que pareça, se fechem em nome dessa abertura oferecida)
E sim, como diz um professor meu, as teorias/escolas/noções estão aí pra quem quiser usar. O problema, na grande maioria das vezes, é como elas são usadas.
Haha pois é Carolina, eu tive que desabafar por aqui.
Porque eu vi que os “discípulos” do imaginário simplesmente repetem a mesma coisa o tempo todo, como um gravador quebrado. Não vejo renovação, apenas um ecletismo cada vez maior. Tipo quando vamos ao supermercado, “pegue um pouco disto e um pouco daquilo”, mas no fim ninguém mexe em nada, as coisas continuam onde sempre estiveram.
Acho que o imaginário enquanto conjunto de ideias pode ganhar uma forma diferente cada vez que alguém mexe nele. Claro que isso ocasiona milhares de distorções e confusões (coisa que os acadêmicos detestam), mas também dá espaço a pensamentos originais, a pensadores crítico-criativos.
É muito provável que este problema não seja apenas do imaginário e sim da maioria das tradições intelectuais, mas acho interessante fazer este questionamento especialmente ao imaginário, que se julga livre de qualquer tipo de “fechamento”. Beijos, querida
Carolina, Marcos estou acompanhando esta discussão. Parabéns, Marcos por levantar este assunto e, principalmente, colocá-lo no ar para a recepção de outros leitores e estudiosos do imaginário.
Por enquanto fiquei na palavra “discípulo”. Ela merece ser aberta para a recepção e ampliação dos estudos do imaginário e da vida. Acho que aqui está o ponto crucial onde a tal palavra ganha uma oxigenação e fertilidade tamanhas em qualquer tipo de estudo.
Para mim as teorias do imaginário fertilizam qualquer área do conhecimento porque congregam o sensível e o intelectual e se apresentam naturalmente ambivalentes (Pico de la Mirándola explicaria isto com maior propriedade). Como Mas não posso “passar ” isso para meus “discípulos”. Eles precisarão encontrar essa possibilidade alavancados pelos estudos das teorias da vida, do seu próprio cotidiano. Fazer sentido é diferente “do que ir para algum lugar” com os estudos do imaginário… Bem, isto é só uma anotação rápida para dar mais lenha à fogueira (estão vendo? o rumo da minha já ganhou outros elementos “lenha”, “fogueira” que convidam para outra conversa)destas discussões. Abraços e bons (e)ventos