Você é original? Então também é possessivo
23/09/2011 6 Comentários
Murray (2011) fala que o conceito de originalidade tem suas raízes na idéia de posse. Isso porque com a instauração do livre comércio, lá no final do Renascimento os fabricantes, comerciantes, distribuidores, autores viram a necessidade de diferenciar seus produtos, aumentar a competitividade e no fim das contas vender mais. Inventaram então a originalidade, ou seja camuflaram o processo criativo para que não se soubesse a real origem da idéia, e instauraram uma série de proteções amparadas pela lei, criminalizando então a copia.
O que poucos sabem é que antes disso, início do século XIX, o processo criativo estava diretamente ligado a idéia da copia. Pois é, copiar não era um crime, e sim um processo natural paralelo ao conceito de criar. A ascensão da copia teve seu auge no Renascimento. Foi nesse período que a Grécia Antiga foi redescoberta, e por meio da copia e recombinação de idéias das soluções adotadas pelos gregos para resolver problemas é que se resolviam os novos problemas que eram enfrentados. Em um esforço cooperativo, coletivo as idéias eram copiadas com a condição de serem melhoradas. Portanto, o conceito de criatividade era concebido mais como aperfeiçoamento do que originalidade. Assim viviam os artistas, escritores, cientistas, inventores, e eles se quer precisavam assinar seus trabalhos, tudo em prol da evolução da idéia.
Então, com a instauração do conceito de originalidade e a reprodução de centenas de leis de proteção parou-se de copiar ou de criar? Nem um nem outro, o segredo da criatividade nada mais é que esconder bem as fontes, já dizia Einstein. Não existe idéia isolada, nem mesmo insight criativo. Elas estão em redes, conectadas! Quanto mais inserido no mundo, e conectado às idéias alheias mais facilmente se cria. As idéias dos outros são referencias para que você possa criar sua própria idéia. Quanto mais empréstimos você fizer maior será a chance de ter uma grande idéia.
Johnson (2010) fala que uma boa idéia aparece apos 10, 20, 30 anos de incubação. Este período em verdade pode variar de pessoa pra pessoa e da maneira como ela se relaciona com as outras idéias. Infelizmente para isso não existe milagre. Engano daquele que cria algo achando que de fato está sendo original. [Assista ao vídeo Where the good ideas come from]
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A culpa disso tudo é do sistema! Calma, não briga com o sistema, você também aprendeu a condenar a copia. “A natureza humana e as pressões sociais o forçarão a também esconder suas fontes” (MURRAY, 2011, p. 233). Isso é inevitável.

Agora entenda que se processo criativo está cada vez mais obscuro a culpa é da originalidade. Eis o paradoxo da criatividade!
Como ser criativo se não se pode copiar? Como ser original se tudo é copia? Escondendo muito bem as suas fontes.
“Só não se esqueça que no final de tudo…” se você quiser entrar na dança da inovação precisará antes de mais nada saber de uma coisa: copie.
Fontes
JOHNSON, Steven. De onde vêm as boas idéias. Rio de Janeiro: Zahar, 2010.
MURRAY, David Kord. A arte de imitar: 6 passos para inovar em seus negócios copiando as idéias dos outros. Rio de Janeiro: Ed Campus, 2011.
Sugestões de leitura
BERKUN, Scotto. Mitos da inovação. Rio de Janeiro: Alta Books, 2007.
BEZERRA, Charles. A máquina de inovação: Mentes e organizações na luta por diferenciação. São Paulo: Bookman, 2010.
MANSON, Matt. The Pirate’s Dilemma: How youth culture is reinventing capitalism. New York: Free Press, 2009.
POTOLSKY, Mathew. Mimesis. London: Routdlege, 2006.








Parabéns pelo post. Considero esta a discussão mais importante dos nossos tempos, até por isso meu comentário ficou um “pouquinho” extenso…
Na minha opinião, o conflito de interesses entre direitos autorais e domínio público atualmente só prejudica os criativos e a humanidade.
Como contexto, vale lembrar que a lei de direitos autorais desde sua origem foi moldada para proteger o lucro e não o autor. Muito se progrediu desde então, no ponto de vista dos autores, mas TERRIVELMENTE o maior progresso foi em direção ao lucro.
Lá por 1920, os direitos autorais de uma obra expiravam entre 10 e 20 anos após sua concepção, nessa época surgiu Walt Disney (personagem chave nessa questão) que criou o Mickey e muitos outros produtos da Disney parafraseando, citando, ” usando” as principais referências dos movimentos de arte de vanguarda.
Agora vem a parte fundamental: o poder corporativo (aquele do lucro) faz com que até hoje o prazo de validade dos direitos autorais continue se estendendo, acompanhando a idade do Mickey, que quase 80 anos depois ainda não é domínio público, abrindo um precedente muito perigoso para qualquer trabalho artístico que se baseie em outro.
O maior paradoxo nessa “evolução” é que justamente a partir do séc XX, com aumento da velocidade de transformação da sociedade, para beneficiar o progresso a duração dos direitos autorais deveria encurtar na mesma medida e não se estender indefinivelmente. Isto é, se antes o intervalo entre gerações era de 20 anos e agora é de 5, as coisas deveriam cair em domínio público mais rápido e não o inverso.
Hoje considera-se que algo passa a fazer parte do domínio público cerca de 80 anos após a morte do autor, sendo que este deve ser citado eternamente em obras que derivem ou se utilizem da anterior.
Como bem sabemos, muitos processos criativos tem seu aprendizado pela cópia e apropriação, antes da evolução e da transformação. Há quem diga que não se cria nada do zero, como se a “criatividade pura” fosse uma impalpável utopia. O certo é que trabalhos criativos e científicos, que são ambos experimentações e conclusões, sempre se basearam em experimentos e criações anteriores.
O momento em que vivemos nos criminaliza, pelo simples ato de criar de acordo com nossas influências. Não é permitido criar uma nova música a partir de Tom Jobim, Chico Buarque e Gilberto Gil, pela lei só podemos fazer isso com Chiquinha Gonzaga, percebem o atraso?
Só quem vem se beneficiando com este legado são grandes corporações que encontraram nos direitos (e patentes) a forma de manter seu lucro frente a um mundo globalizado e amparado por recursos tecnológicos que transformaram a produção e distribuição de ideias e produtos culturais para sempre, tornando as funções antes lucrativas dessas CIAs obsoletas.
O absurdo que vivemos é assim,na minha visão metafórica: antes um pequeno grupo faturava muito para acender os lampiões toda noite, agora inventaram a energia elétrica e esse grupo quer restringir sua utilização, alegando que os “seus” perderão seus empregos se esta for usada em larga escala e querem continuar controlando o monopólio da iluminação.
Sabemos que na prática não é bem assim, muita gente copia, se apropria e não é processado. Outros produzem conteúdo original, registram, são copiados, reproduzidos e não ganham seus “direitos”.
Constrangedora, essa lei que trabalha para emperrar a roda do mundo, sem deixar que o poder (lucro) escorra de mãos, deixando o criador desamparado frente aos inúmeros bloqueios.
Há pouco tempo o Brasil parecia estar na vanguarda de uma solução iminente, pelas mão de Gilberto Gil no MinC, encaminhando uma nova lei de direitos autorais mais de acordo com o tempo em que vivemos. INFELIZMENTE para nosso país e o mundo, com a transição para a atual ministra Ana de Holanda, a nova lei foi arquivada e o MinC passou a investir mais e mais no controle e na cobrança ($) dos devidos direitos autorais.
FIM. (longe de ser um comentário, isso foi um artigo/desabafo)
PS: sou criativo, sou possessivo, se quiser pode reproduzir meu texto citando o meu nome: @BrunoEtchepare
Olá Bruno,
Como disse anteriormente em seu blog muito obrigada pelo comentário.
Acredito que cedo ou tarde a cópia será incapaz de ser controlada (como de fato já acontece). Em um futuro próximo ela será utilizada como ponto de partida para qualquer modelo estratégico. Somente sobrevive aquele que é capaz de se adaptar. Meio apocalíptico não? hehe
Criminalizar a cópia é um erro, até porque originalidade é uma imitação adaptada. Quis apenas demonstrar que diante de uma noção rasa crê-mos ser originais,, inovadores, ou inventores de algo inédito, e quem copia é um criminoso. Além de errados, copiamos tudo, vivemos de padrões mimeticos, portamo-nos de modo imitativo, reproduzimos, interpretamos e encenamos o tempo inteiro. Não muito obstante nossas leis são baseadas em padrões que devem ser repetidos. Sem contar o que brevemente trouxe com o texto.
No entanto, a proteção de propriedade intelectual, direitos autorais, patentes beneficia o desenvolvimento social e econômico de um país. Através de invenções as pessoas podem se deslocar dentro dos níveis sociais. E infelizmente, já que uma vez o processo criativo foi totalmente mascarado, temos que ser originais e nos proteger para ascender. Mas como você disse, as leis precisam ser revistas, penso que talvez reduzidas, ou válidas até determinadas etapas do processo criativo, sei lá, preciso pensar mais sobre isso.
O que o autor que estou lendo fala é que seja mais prático, fácil, inteligente e econômico para os países emergentes seja copiar os modelos estratégicos de países que tiveram problemas parecidos e bem resolvidos. E isso já é feito por muitas grandes corporações, mas que no fundo não podem dizer isso de forma declarada. Afinal pega mal, e é crime.
Abraço
Fontes e referências são fundamentais e auxiliam ao desenvolvimento de um trabalho novo ou possivelmente criativo.
Penso que copiar não seria a palavra adequada a dizer, mas reformular o original não deixa de ser criativo e inovador.
Um exemplo que pensei agora é o telefone móvel, começou de uma maneira (original) e hoje tem varias características e aspectos que motivam as pessoas a querer ou trocar. Ai me pego a questionar é copiar ou recriar o original – pode-se dizer inovação?
Eu continua há culpar um pouco o sistema.
Fui.
Oi André,
Obrigada por seu comentário.
Copiar é apenas a palavra que eu escolhi por acreditar que, dentre todas as coisas que estou estudando e que se referem a cópia, abrange de maneira mais satisfatória, mesmo que chula, o complexo de significados da cópia. Poderia ser imitação, plágio, etc, mas ao meu ver parecem ser muito restritas e pesadas.
É um ótimo exemplo o seu. Mas eu estou certa de que Graham Bell quando inventou o telefone não pensou em aparelhos móveis, mas que quem inventou o móvel com certeza partiu da pré-existencia do telefone fixo e do desejo de se locomover, quem sabe o BIP?! Não sei este caso em particular, mas facilmente entendo.
Outra coisa interessante é que muitas invenções ocorreram, não somente pela associação de outras idéias, mas como também pelo erro. Muitas coisas quando dão errado acabam resultando em outra coisa.
Um termo peculiar para isso é a recombinação de ideias que geram um novo resultado. Acho que é a resposta. Caso só se copiasse sem o objetivo de melhorar, adaptar, ou criar algo novo, teríamos sempre o mesmo resultado. Lá no Renascimento eles tinham o compromisso de melhorar a cópia.
Bom acho que é isso.
Continue comentando.
Abraço
Parabens mari
Obrigada amiga!