arte não é língua

A arte não é linguagem.

Essa afirmação é obviamente falsa em muitos sentidos.

O primeiro, claro, é que algumas artes são feitas de palavras: A literatura é feita de frases. A canção é feita de versos. O teatro de falas. Nesse sentido, dizer que elas não são linguagem é como dizer que uma canoa não é madeira, o que é muito diferente de dizer que ela não é só um pedaço de madeira.

Uma obra de arte pode usar a linguagem tanto quanto quiser, e até mesmo expandir e aperfeiçoar essa linguagem enquanto a usa. Mas o que nos toca numa obra é aquilo que não se coloca em palavras. O que é significativo e valioso nela pode ser justamente o que não é articulável.

Mas nosso título é falso em um outro sentido, um sentido mais complicado. Toda obra de arte precisa resolver uma dualidade entre sua execução e seu propósito. E o par «execução/propósito» é similar ao par «sinal/significado»que é o mecanismo fundamental da linguagem.

Assim, o vocabulário da teoria da linguagem (sinal, código, referência, redundância…) facilita falar sobre arte e, imagina-se, estudar linguagem ajuda a entender arte. E parece que de fato é assim. O risco é que por desenvolver demais a comparação acabemos forçando a arte a se tornar linguagem mesmo naquilo em que não é.

Ao escrever O Senhor dos Anéis, J.R.R. Tolkien produziu uma volumosa quantidade de notas e esquemas do que seria a história passada de seu mundo ficcional. As notas foram postumamente editadas e publicadas como O Silmarillion. Esse livro posterior, embora seja muito interessante como leitura complementar a’O Senhor dos Anéis, não é sozinho uma obra tão poderosa. O Silmarillion sem O Senhor dos Anéis seria uma obra pobre. Mas o curioso é que, parece, uma das grandes qualidades literárias da obra principal é o gigantesco escopo histórico da mitologia, mesmo que essa mitologia sirva quase como um pano de fundo.

O dilema então é que essa mitologia, quando implícita, envolve o leitor de forma extremamente poderosa mas, quando explicada em detalhes, perde grande parte do seu encanto. Mas se trata da mesma mitologia. É claro, para transformar as notas do J.R.R. em uma obra autônoma foi necessário acrescentar passagens e corrigir algumas discrepâncias, mas essa edição foi feita com um respeito rigoroso à obra principal.

Então existem ao menos dois níveis de “recheio” nessa obra. O primeiro conteúdo é o texto literal, a história básica contada. Aqui a história é um amontoado de fatos, basicamente objetivos, que são facilmente articulados, organizados e enfim traduzidos. Mas existe um outro nível, que é como o conjunto forma uma obra autônoma, integral, relevante e poderosa. Os dados em si não são suficientes para constituir esse outro nível de “conteúdo”. Existe um poder na obra que não vem das palavras, nem do que elas significam, de como as lemos. Se J.R.R. Tolkien nos apresentasse uma descrição objetiva dos valores e ideais que regem sua Terra Média, ela não seria tão cativante quanto O Senhor dos Anéis.

Uma comparação ainda mais ilustrativa é The Last Ring Bearer, uma adaptação que apresenta os mesmos fatos sob uma luz histórica, muito mais plausível, e exatamente por fazê-lo desfaz em grande medida a sensação de encanto (ainda que seja uma obra muito interessante em outros aspectos).

Não se faz um livro sem linguagem, mas o que diferencia um bom livro de um ruim é algo bem diferente de linguagem. O livro que mais seguir as regras gramaticais corre o risco de não ter muito a dizer. Mais do que palavras existe vida em O Senhor dos Anéis. Existe uma partícula de humanidade indescritível, inexplicável. E brilhantemente Tolkien usa as linguagens dos seus elfos fictícios como um elemento da construção dessa vida.

Uma diferença entre «execução/propósito» e «sinal/significado» é que o aperfeiçoamento da execução, na arte, não leva ao desaparecimento do meio, à transparência, mas ao risco do virtuosismo. Numa acepção simplista o virtuosismo é exatamente o desenvolvimento extremo da capacidade comunicativa da arte, e esse desenvolvimento do meio de expressão esvazia a arte. Para nos apegar ao paradigma linguagem, teríamos de dizer que a obra tenta comunicar algo que não é exatamente a informação que de fato transmite, mas aí ficamos perdidos ao tentar descobrir exatamente que coisa é essa.

É fácil descartar o virtuosismo na vivência da arte, mas exatamente porque ele parece difícil de explicar pode ser uma oportunidade de compreender melhor algumas questões. É curioso que o virtuosismo na música esteja quase sempre relacionado à instrumentação e na dança quase sempre à coreografia. É raro acusar um compositor de virtuosista, mas comum falar de um coreógrafo virtuosista. Já em artes plásticas seria difícil separar o virtuosismo em um ou outro dos dois contextos, digamos uma composição virtuosista que não fosse pintada de forma virtuosa.

A arte começa com uma execução, e assim pensar arte é inevitavelmente pensar um tipo de ação. A intencionalidade faz parte de todas as ações humanas, quer clara quer obscuramente. A intenção de um ato de comunicação é transmitir informações. Mas a intenção de uma ação artística é algo mais complexo. Portanto, a diferença entre «significado» e «propósito» nos leva para a dimensão em que a arte pode ter um valor e, talvez, portanto, ao ponto do qual tira seu poder.

Falando ao contrário, pensar a arte como linguagem explica o significado de uma obra ao mesmo tempo que obscurece o poder dessa obra.

Superficialmente, a diferença entre significado e propósito é que o propósito não é legível.

Legibilidade é a regularidade de uma obra em relação à um código. Não é a quantidade de informação transmitida, mas o comprometimento com uma transmissão de informação.

Uma definição menos precisa de legibilidade é a de facilidade de ler. A leitura é a extração de informações (significados) de um objeto e pode ser feita com diversas estratégias prospectivas, que em geral envolvem contextualizar o objeto lido, colocá-lo dentro de certas estruturas de interpretação.

A obra legível é aquela que torna esse trabalho interpretativo o mais óbvio possível.

O risco claro é que pode-se facilitar a leitura diminuindo a complexidade do conteúdo. Ao invés de melhorar a expressão, piorar o que é expresso. Cair num tipo de pantomima. E portanto reduzir-se à superficialidade e ao estereótipo. Esse risco está presente em todas as formas de expressão, e deve ser evitado também na arte, mas por si só não quer dizer que a arte seja diferente de linguagem.

Seja ou não seja linguagem, a arte usa a linguagem em suas formas mais avançadas. Inclusive, passa constantemente pela tradução. Considerando que exista mais de uma estrutura de interpretação possível (digamos a língua inglesa e a italiana, ou a Verona Shakespeareana e a NY de West-Side Story, ou até coreografia e pintura) traduzir é produzir uma obra num contexto que tenha identidade com uma obra original de outro contexto. Para que isso aconteça, além de considerável habilidade do tradutor, é necessário que as duas estruturas contenham essas possibilidades de significado. Se (e como) significados criados através de estruturas de interpretação diferentes podem ser iguais é uma questão interessante, mas absurdamente complicada, da teoria da linguagem.

Uma versão ingênua da arte enquanto linguagem seria imaginar um plano dos significados artísticos e cada uma das várias formas de arte como uma tradução dele para planos de expressão mais mundanos. O problema (dessa e de outras versões mais complicadas) é que a arte parece não se limitar a nenhum tipo de conteúdo, e até mesmo se esforça por quebrar quaisquer limites que venham a ser percebidos no conjunto de “o que a arte pode dizer”. Parece se sentir aprisionada quando esses “significados” ficam destilados e claros. Parece evitar tipos de interpretação semelhantes e previsíveis. A arte desafia fronteiras, e um plano de significados privilegiadamente artísticos seria como uma fronteira aferrada à própria essência da arte.

O erro que queremos apontar é, então, que frente a uma determinada obra se pergunte “Mas o que ela queria dizer?”. Ou que por exemplo frente a uma obra com um tema de «morte» a crítica seja “eu não vi morte nessa coreografia”. Nesse caso, talvez o processo de justificação da obra que inclui um texto sobre morte esteja realmente sobrando, mas a obra pode ser poderosa a despeito disso, e mais, discutir o panfleto da peça pode vir a ser perder completamente a peça.

A experiência da arte é mais poderosa que a interpretação da arte.

A ideia é que a obra é fundamentalmente não-legível. Ou que se o objetivo da coreografia fosse “expressar morte” um papel escrito “morte” seria tão bom quanto. Toda obra tem ideias como componentes, mas para que essa obra tenha algum valor é preciso que a experiência da obra seja mais do que a tentativa de adivinhar qual era essa ideia. Uma obra de arte não é um enigma, nem uma exemplificação, e nem se encontra num meio termo entre os dois. A obra de arte deve transcender as ideias que levaram à sua construção, sob pena de deixar de ser arte e passar a ser doutrina.

A sentimentalização cria exatamente o mesmo reducionismo. Uma obra provocar alguma emoção (“Senti tanta paixão com Romeu e Julieta!”) muitas vezes serve a propósitos artísticos (como identificação com o personagem ou sensibilização para alguma perspectiva) mas raramente parece suficiente para constituir uma obra. Abusar dessa resposta emocional pode facilmente impedir um trabalho de atingir todo o seu potencial.

Ainda que seja difícil evitar dizer que “tal obra me faz sentir algo”, essa sensação não é a mesma coisa provocada por um acontecimento não artístico. Perder um filho e rever suas atitudes não é o mesmo que assistir Romeu e Julieta. A experiência da arte vai além das experiências cotidianas de formas que não tem nada a ver com a intensidade das emoções sentidas.

A legibilidade da arte conduz (rapidamente) a um problema que tem a mesma estrutura do virtuosismo: Reificação. É coisificar a obra. Pegar um processo complicado, cheio de ambiguidades e idiossincrasias e transformá-lo em algo simples, claro e definido. É tratar a arte como uma história com lição de moral no final.

Outro jeito de explicar a diferença entre «significado» e «propósito» é que a informação articulável que o «significado» transmite é específica, localizada, é um detalhe. Um sentido da obra que seja só um significado da obra é um sentido pequeno.

O que estamos chamando (provisoriamente) de propósito da obra seria então um sentido grande para a arte. Portanto, uma questão aberta que deve não só ser discutida, mas trabalhada. Para tanto, a linguagem é importante, mas não suficiente.

Uma linguagem é uma ação, mas uma ação que se oferece exclusivamente à interpretação. Uma fala faz parte do jogo da vida apenas enquanto promete ou resgata outras ações, e a arte quando fala o faz para provocar experiências muito maiores que palavras. Colocar a arte enquanto linguagem enfatiza esse falar, mas desenfatiza a provocação. Enevoa o poder. Tratar a arte como linguagem tende a retirá-la da política e da cultura, das vidas e das formas de viver. Tende a dizer que isso são elementos acessórios, opcionais, processos que afetam a arte mas não participam dela. E pode até ser possível fazer essa separação, mas ela não é nem espontânea nem desejável.

a individualidade isolada no meio da multidãoO que quero dizer é que a arte está constantemente se chocando com questões como a complexidade, a vivência, os valores, a incomensurabilidade e a transcendência. É briga de cachorro grande. Que essas são questões difíceis, que não basta enunciar ou descrever, que não se acabam numa declaração de posicionamento, mas que adquirem sua forma enquanto lidamos com elas. E que ao tratarmos a arte como linguagem inconscientemente perdemos toda esse dramático conflito que é muito presente no nosso momento.

O risco de dizer isso é que posso estar determinando uma essência para a arte, tentando baixar uma lei sobre a sua natureza. Quero evitar tal estripulia. Mais do que provar que “arte não é língua”, a questão é que tratar a arte como uma forma de expressão pressupõe uma essência para a arte que, se estivesse explícita, provavelmente não aceitaríamos.

É claro, ao colocar esse argumento posso estar caindo na exata mesma armadilha. E sinceramente não sei como evitá-la, nem mesmo se é possível evitá-la. Os caminhos da arte certamente (necessariamente) atravessarão a linguagem (e todas essas outras questões) em todas as direções imagináveis.

Um desses atravessamentos é fazer da arte linguagem, torná-la linguagem mesmo que não fosse, contar histórias compreensíveis, e até mesmo de vez em quando abusar do chavão e da chanchada. Manipular os campos de significado que estão ao redor da arte e na arte. Mas esse é um passo, um estratagema entre outros. Não o único, não o primeiro e não o melhor.

Outro passo, outra estratégia, é combinar: Bater os pontos de vista uns contra os outros, encaixá-los até de formas erradas, misturar e criar sentidos através da mistura. Não só aceitar as diferenças, mas apropriar-se delas.

Imagina-se, através desses (e outros) procedimentos, a arte expande-se, não só numa acumulação de ideias diferentes, mas no abandono de suas suposições e preconceitos e barreiras. Descobre-se que os pressupostos, mesmo quando acertados, diminuem a visão. Esse processo não é o aprendizado de uma gramática ou vocabulário, mas a sua subversão.

Claro, não se trata do abandono de todas as estruturas, mas de descobrir (ou criar) estruturas cujo sentido é vivido profundamente, ao invés de simplesmente veiculado. A arte não é um auto-falante ou mural, receptáculo de sentidos, mas um ritual onde o sentido é a própria estrutura. A arte não reproduz (descreve) uma realidade, ela cria realidade(s).

Por isso, a arte faz algo que a sozinha linguagem não pode fazer: Explora. A arte é exploratória. Chama coisas que não têm nomes. Vai a lugares não mapeados. Fraseia o indizível. Ensaia geometrias impossíveis. Nos traz à dimensões não descritas e não descritíveis.

Não se trata de inovação: Até a arte mais retrógrada reproduz o status-quo de forma inesperada. E nem é necessariamente uma questão de novidade: A arte folclórica também é surpreendente ao mostrar uma tradição que conhecemos. O propósito da arte, esse sentido-grande, talvez seja mais que inesperado: Inesperável.

E, assim, inexprimível.

O inexprimível não é o que estou proibido de dizer. Mais que fazer reivindicações, e antes de entrar em disputas de poder, a arte nos faz ver porque queremos o que estamos a reivindicar, e é portanto pungente até quando temos essa coisa. O inexprimível não é tampouco o que fica nas entrelinhas. O subentendido é tão articulável quanto o explícito, e até essa elisão é codificada. O inexprimível não é o que não cabe no papel, por falta de tempo ou espaço: É às vezes pressentido em poucas linhas e totalmente ausente de grandes volumes. O inexprimível não é o que não entendo. Todos esses são equívocos de linguagem, justamente onde a questão não está.

O inexprimível certamente não é aquilo que escapa ao racional. A arte não se limita à aspectos do indivíduo, comporta a vida inteira. O pensamento lógico é uma ferramenta como outra qualquer, e seria ingênuo ver nele a chave dessa questão tão complexa, seja como inimigo seja como panaceia. Os exageros do racionalismo e do anti-racionalismo são problemas gigantes da cultura contemporânea, e seria estranho se a arte os ignorasse. Mas a arte certamente não se resume à essa que é uma questão exclusivamente filosófica.

Buscar arte que não seja linguagem é quase como buscar arte ambígua, mas não exatamente. A duplicidade (ou multiplicidade) de sentidos é um caminho para a arte que vai além de uma simples leitura. Mas é ainda uma leitura, apenas mais complexa. É uma leitura que provoca mais de uma conjectura. A questão é saber se a experiência da arte vai além de fazer conjecturas. Claro que sempre se pode interpretar qualquer fato, mesmo os que não são feitos pra isso, e é claro que a interpretação da arte enriquece a arte, mas uma obra nos toca não naquilo que compreendemos dela, mas no nosso ser inteiro.

É importante ver que a intelectualização é muito útil para a arte. Que a complexidade que a língua permite ajuda a criar a experiência da arte, e dá à arte caminhos que ela não teria de outras formas. Não se trata de buscar uma arte pobre, que abre mão da interpretação e da citação, que não fala de, que não refere. A manifestação completa da arte contém também a inteligência erudita, além de outras coisas, porque não? É uma ferramenta enormemente relevante. Trata-se de lembrar que não é a única. Negar a leitura empobrece a arte, a diminui, mas ainda assim a arte que vale à pena é a que vai além da leitura, que nos atinge com a língua também mas com mais que isso.

Não basta também o contrário disso, buscar uma arte que seja meta-linguagem, que se torne uma interpretação da interpretação, que desfaça a linguagem exagerando a sua própria abstração. A língua permite a complexidade e a complexificação, e essa é provavelmente sua principal qualidade. Por mais importante que isso seja para a arte, não é essencial.

Infelizmente, é mais fácil falar o que o inexprimível não é do que falar dele em si. Precisamente: Dizer o indizível é impossível. Nossas estruturas de interpretação não incluem a possibilidade desse significado. Nossa língua não tem uma palavra pra isso e nossa gramática é um instrumento inadequando para manipulá-lo. Mas o inexprimível não é simplesmente qualquer coisa que não esteja contida no conjunto da linguagem.

Trata-se de algo impossível de dizer que queremos ouvir ainda assim.

Algo que precisamos viver mas não existe.

É aquilo que está além da banalidade e indiferença da vida sem deixar de ser vida.

Depois, em retrospectiva, pode ser que, no âmbito da crítica ou da imitação, um pouco do sentido transcendente se prenda na rede da linguagem. Mas a arte continua inexprimível.

O inexprimível é perigoso: Justamente porque não podemos traduzi-lo também não podemos controlá-lo. Qualquer controle que se tenha sobre o inexplicável é provisório e sem garantias. O risco dessa tentativa é alto. Por isso o seu valor é alto.

se lançando contra o abismo intransponívelEsse inexprimível é algo que toda a sociedade, para além de uma comunidade artística, precisa buscar. É uma pulsão claramente visível por exemplo na filosofia, buscando pensar o que não era possível pensar antes. Ou também numa escala menor, das vidas separadas, em que temos um anelo por algo que não saberíamos colocar em palavras (razão pela qual discutir a relação é sempre um episódio sem fim).

Assim, talvez a arte seja uma expressão desse esforço coletivo. Talvez a arte simplesmente traduza uma filosofia de vida, um modo de ser, cuja busca acontece em outras instâncias. E talvez seja mesmo mais honesto de um artista não se colocar a discutir uma filosofia que não é nem do seu interesse nem de sua compreensão. Mas é claro que a arte é parte desse processo, mesmo se não tiver (ou quiser) autoridade sobre ele. Me parece falta de responsabilidade para a arte se retirar dessa busca.

Um artista trabalha com sensações e vivências e formas de compreender que talvez só existam dentro dele mesmo, para ele. Sendo ser humano, é literalmente impossível determinar se sua experiência vai ser entendida e partilhada por outras pessoas. Ninguém pode viver a vida de outrem — e quanto mais se estuda sobre isso mais se descobre quão gigantescas podem ser as diferenças. E pior, no fundo nem mesmo podemos ter certeza de que nossa experiência seja diferente. Não sabemos nada.

Exatamente por isso, buscar um propósito para a arte é fazer uma pergunta aberta que deve abrir mão de referências orientadoras. Por outro lado, é essa abertura infinita que faz da arte uma ação com potencial e valor.

Buscar um propósito maior não é desafio pequeno, e ao assumir esse caminho certamente estamos aumentando a dificuldade de nossas obras. Como diz Joseph Kosuth, “art … fulfills what another age might have called man’s spiritual needs“. A arte preenche anelos que outrora poderiam ser chamados de espirituais. Ao assumir isso estamos ampliando nosso compromisso com a arte, e o desafio que ela representa.

Dessa forma, a arte é transcendente em vários sentidos. Primeiro porque se lança na direção do intransponível abismo entre o eu e o outro. Porque ela fala de algo que é impronunciável. Porque é justificação da vida sem justificativas, sem explicações, sem contabilidades. Porque cremos nela e não queremos ter certeza dela. Porque é uma técnica de consciência sem ser uma ideologia. Porque ela é vivida sem ser banal.

Ou, pelo menos, porque temos esperança de que fosse.

Por outro lado, se o sentido da obra fosse uma informação, algo a ser interpretado, seria como se o valor da arte fosse algo que já vem pronto, que o artista simplesmente recebe e segue como receita, ou no máximo traduz para um outro contexto. Mas aquilo que enganosamente chamamos de «significado» de uma obra de arte era algo que não existia antes da própria obra.

Por mais que assumir essa busca semi-espiritual seja uma complicação, ela nos mostra como a arte tem um valor maior que sua utilidade cotidiana sem nunca abandonar nossa sensibilidade humana, individual e carnal.

A experiência de uma obra é mais do que a re-organização de certas ideias pré-existentes, é mais que uma retórica capaz de convencer acerca de uma posição que já estava pronta antes. Uma obra constrói essa posição e essa ideia. A obra cria uma realidade nova, e essa construção não é uma separação da vida, um mundo fechado que ignora e isola a vida, mas sim a transcendência da vida.

A arte, portanto, não é linguagem. Não se trata de proibir falar de arte com termos da linguagem, mas de tentar pensar arte para além desse paradigma. O mais importante na arte, e também o mais difícil, é a busca dum algo que não pode ser articulado, transformado em palavras, e portanto expressado. Esse algo, talvez, tenha que ser vivido. E nesse sentido a arte não é uma busca linguística, mas uma busca existencial.

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Acerca Marcio Rocha Pereira
1 - I like to be criticized 2 - I take my time 3 - I do take it seriously

Uma Resposta a arte não é língua

  1. lgguts diz:

    Gostei bastante do texto! Trouxe-me alguns questionamentos bem bacanas.

    Por coincidência, estive navegando pelas obras e textos de Lygia Clark (http://www.lygiaclark.org.br/) há pouco tempo, e vejo relações que vão muito ao encontro de suas ideias. Especialmente a arte como não somente uma forma e meio expressivo, e a ligação do fazer (em arte) com uma profunda “busca semi-espiritual”.

    Fiquei me questionando ao decorrer do texto, como (e se) seria possível ver a arte como uma multiplicidade primordialmente imanente. Não no sentido que este anule a transcendência, mas que ambas coexistam de forma harmoniosa nas relações entre “artista / arte / sociedade / vida” numa complexidade fractal.

    Obrigado pelo texto! o/

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