Design e Percepção Sinestésica
11/10/2011 4 Comentários

"Penetráveis", de Hélio Oiticica
Toda vez que ouço a nossa música sinto o gosto das bolinhas assadas de batata que a gente costumava comer, dá pra acreditar?
Pois é, dá, mas não muito. Isso tem a ver com “sinestesia” que pode, de acordo com Sérgio Basbaum (2002, p. 25), distinguir-se em diferentes abordagens: do ponto de vista neurológico; do ponto de vista artístico (combinação de diversos sentidos com a realização sinestésica, como a visual-music ou os “penetráveis” de Hélio Oiticica); por depoimentos subjetivos de experiências (pessoas que experimentaram, por meio de algum método, a sinestesia); e pela linguagem verbal não-poética (sob a figura de metáforas-sinestésicas). E essas abordagens não são excludentes entre si, afirma Basbaum, embora o depoimento de um sinesteta seja comumente incorporado ao discurso do neurologista.
Baron-Cohen e Harrison (apud BASBAUM, 2002, p. 26-27) estabelecem uma segmentação dessas categorias em: sinestesia e pseudo-sinestesia. Sendo em sinestesia, incluídas: a sinestesia constitutiva, a “sinestesia de nascença”; a sinestesia adquirida por disfunção neurológica, de caráter patológico; e a sinestesia como consequência do uso de drogas psicoativas. E em pseudo-sinestesia: a metáfora, enquanto sensação traduzida em signos; e a associação, a sinestesia apreendida pelo hábito ou uso cultural.

E o design com isso? Possibilidades sinestésicas, em uma abordagem semântica, complementam a mensagem que chega ao consumidor, nas mais diversas intenções. Yuji Kawasaki (2008, p. 167) exemplifica, de modo a ilustrar que estímulos de ordens variadas podem ser essenciais no entendimento de uma mensagem: “Uma pessoa pode encontrar um pote de requeijão na geladeira e ler no rótulo que o produto está fora do prazo de validade, mas apenas um dia ou dois. Não havendo nada melhor para passar no pão, a pessoa decide abrir a embalagem e dar uma olhada no produto. A cor está normal, mas isso não é suficiente para convencê-lo de que o produto pode ser consumido com segurança. A pessoa pode ainda cheirar o produto para se certificar que não há alteração no aroma. Não satisfeito, pode pegar uma faca na gaveta e remexer o produto para ver se sua textura e consistência estão uniformes. Por fim, levará o produto à boca e por conta de um sabor agradável constatará finalmente, que o requeijão está bom.”
Dessa forma, no campo da comunicação, continua Kawasaki, o design sinestésico pode oferecer uma complementação interessante para o produto, uma vez que, segundo Grossenbacher (apud KAWASAKI, 2008, p. 168), o estímulo em modalidades diferentes serve para confirmar a leitura consistente da realidade: “[...] se você ouve e vê um cão, por exemplo, ficará muito mais seguro que existe um cão ali do que se percebê-lo em apenas uma modalidade”. É uma forma de potencializar a informação, reforça Kawasaki, pois a identidade de determinado elemento pode não residir apenas em um único tipo de sensação: “A identidade de uma flor repousa tanto no seu aroma e em sua forma como em sua cor, de modo que a experiência e a memória possam conter um ramalhete de sensações e percepções” (PLAZA, apud KAWASAKI, 2008, p. 169).
[O que seria da Melissa sem o cheiro de tutti-frutti?]
Referências:
BASBAUM, Sérgio Roclaw. Sinestesia, arte e tecnologia: fundamentos da cromossonia. São Paulo: Annablume, 2002.
KAWASAKI, Yuji. Design Gráfico Sinestésico: A relação da visão com os demais sentidos na comunicação. 195 f. Dissertação (Mestrado) – Fau Usp, São Paulo, 2008.







nao seria helio oiticica o penetravel?
poxa, foi mesmo. obrigada pela correção (:
Olá!
Não vou comentar sobre o post em si…
Sempre acompanho o blog, o movimento que a filosofia do design faz. Dá pra aproveitar muita coisa!
Porém, tenho a impressão de que existe alguns exageros, principalmente acadêmicos, sobre os temas abordados. Um fascínio acadêmico sem tamanho. Uma ironia tão mal dosada que dá a impressão de que muita coisa é enunciada por puro prazer hermético – pra ser educado.
Até certo ponto, achei que seria falta de preparo de minha parte. Mas eu como bom adorador da boa filosofia, e designer por formação, hoje percebo que esse exagero é um problema, sinto que ele rasteja pra lá, rasteja pra cá, e no fim só dá voltas e voltas em vão.
Antecipo que estou longe de qualquer má intenção ou simples desavenças.
O MUNDO DÁ VOLTAS E VOLTAS EM VÃO. Por que nossas contemplações devem ser diferentes?