O realismo e os “regimes de visualidade”

Eis que estou eu aqui outra vez escrevendo para o filosofia do design depois de uma ausência de quase 3 meses. Durante este tempo, fui abduzido por atividades acadêmicas — mais ou menos como retratado naquela imagem do ser saindo da caverna que tem circulado pela internet (deixo aqui o link para quem ainda não viu).

O momento do retorno é oportuno, pois um artigo meu, prolixamente intitulado O realismo entre as tecnologias da imagem e os regimes de visualidade: fotografia, cinema e a “virada imagética” do Século XIX acaba de ser publicado na revista Discursos Fotográficos. Trata-se de um texto já antigo, que apresentei em um congresso em 2009 e depois ficou parado até meados deste ano, quando resolvi revisá-lo e ampliá-lo para publicar em um periódico da área. Embora o considere interessante, reconheço que o texto é um pouco duro, por isso vou fazer um resumo dinâmico do artigo nesse post.

A questão teórica de base é a seguinte: o que é uma imagem realista? Aquela que mais se assemelha à realidade, dirão. Entretanto, essa explicação é totalmente insuficiente, pois, para início de conversa, a imagem realista se assemelha à realidade de uma maneira específica — ninguém diz que um irmão gêmeo é uma “representação realista” do outro. Ou seja, a semelhança não explica o realismo. E me parece que o realismo explica mais a semelhança do que o contrário.Não vou me estender neste ponto, pois uma argumentação mais detalhada sobre o assunto encontra-se no último post que escrevi aqui para o blog.

Adotada a visão exposta acima, podemos partir do seguinte princípio: o realismo não depende de uma semelhança objetiva entre imagem e mundo, e sim de “regras” culturais que destacam certas formas de representações como “realistas” fazendo-as assemelharem-se àquilo que chamamos (também com base em códigos semelhantes) “realidade”. O objetivo do artigo é estudar historicamente a formação destas regras — o conjunto das quais eu chamo de “regimes de visualidades” – que regem o realismo nas representações visuais hoje.

Para fazer isso, retorno ao século  XIX, no qual teria ocorrido a última grande revolução nos regimes de visualidades. Como todos sabem, o século XIX é o século da invenção da fotografia e do cinema. Se, conforme argumentado acima, nossas formas de enxergar o mundo e as representações visuais variam historicamente, e se no século XIX há uma grande mudança nos regimes de visualidades, não seria razoável atribuir esta grande mudança exatamente à invenção das novas tecnologias da imagem — a fotografia e o cinema?

A minha resposta é NÃO! Isso porque as tecnologias não surgem do nada e nem dependem apenas de outros “avanços tecnológicos” anteriores. No caso da fotografia, sabemos que a camera obscura existe pelo menos desde o século XIII e que a ação da luz em certas substâncias é conhecida pelo menos desde o antigo egito. Por que, então, só no século XIX a fotografia é inventada? A pergunta requer uma resposta. É a invenção destas tecnologias da imagem que devem ser explicadas, e justamente com base nas transformações dos regimes de visualidade. Não o contrário.

Para tentar estudar o que podemos chamar de “bases ideológicas” da fotografia e do cinema, recorro, ao longo do artigo, principalmente a dois autores: Jonathan Crary e Jacques Aumont. Vai ser difícil resumir o pensamento deles mais do que já faço no artigo. Posso dizer, entretanto, que eles recorrem a uma vasta gama de transformações culturais/ideológicas para tentar explicar as transformações nos regimes de visualidade. Os dois observam, em última instância, que, no século XIX, há um descolamento entre imagem e significado: a visão deixa de ser considerada como uma espécie de entidade objetiva capaz de apreender a verdade das coisas e passa a se enraizar no corpo do observador, estando ligada a uma sensação que apenas depois é significada pelo entendimento. Até o século XVIII, a imagem estava sempre permeada por um “texto” que lhe dava seu verdadeiro valor — a imagem não era um recorte aleatório de uma realidade desprovida de sentido, não é uma reprodução daquilo que o observador “vê” antes atribuir significado, mas do que está lá e possui um sentido intrínseco.

Ao contrário, na “nova” forma de se encarar a visão, pode-se pensar em um “olho inocente” — isto é, um olho que vê uma imagem despida de significado, pura forma, sem conteúdo. É essa imagem da pura experiência sensorial que querem  retratar os impressionistas. Também a fotografia, precisa de uma orientação semelhante para se tornar concebível como forma de representação: é preciso que a realidade seja vista como um acúmulo de quadros em potencial e que basta um olho, ou uma câmera, para transformar essa potencialidade em imagem. É difícil explicar isso resumidamente. Mas, enfim, quem de fato foi fisgado pelo assunto e está com vontade de saber mais, tem o artigo à disposição.

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Acerca Daniel B. Portugal
Doutorando em Comunicação e Cultura pela UFRJ, Mestre em Comunicação e Práticas de Consumo pela ESPM-SP e Designer Gráfico pela UFRJ. Atualmente atua como professor substituto no curso Comunicação Visual Design da UFRJ. Reflete e pesquisa sobre temas relacionados a: consumo, comunicação, estética, ética, teoria da imagem, cultura visual e design.

2 Respostas a O realismo e os “regimes de visualidade”

  1. Muito interessante, Daniel! Pelo que eu entendi, você contrapõe duas questões complexas sobre “dinâmicas paradigmáticas” distintas (a tecnologia e a visualidade), que podem ou não caminhar juntas, embora estejam indissociavelmente influenciando-se entre si. Gostaria apenas de acrescentar algumas “simplificações” que porventura possam contribuir com o assunto.

    O filósofo Paul Feyerabend dedica grande parte de seu livro “Contra o método” (2007) para descrever a mudança paradigmática exercida por Galileu: a retomada de uma teoria antiga e já abandonada acerca do movimento da Terra. Tal episódio demonstra que Galileu não proporcionou um avanço científico nem mesmo uma ampliação do conhecimento, sendo apenas um regresso em favor de um modelo mais consistente. A conclusão que se chega, a partir disso, é que uma nova teoria não precisa necessariamente trazer ou refletir fatos novos, mas sim uma nova linguagem observacional.

    Este episódio remonta a noção que Thomas Kuhn atribui a “paradigma” – um conjunto de ideias predominante em determinada época e aceito de forma geral por determinada sociedade. Trata-se de um ponto de vista epistemológico contemporâneo e com forte ênfase em fatores subjetivos. Mas de que forma estes paradigmas relacionam-se com os tais “regimes de visualidades”? Seriam estes regimes apenas um aspecto paradigmático ou algo externo? A impressão que tenho, quanto a isso, é algo próximo da ideia de “perspectiva do designer”, conforme Flusser descreve:

    “A alma tem dois olhos: um que olha para o tempo, outro que olha para mais longe, para o cimo, para a eternidade. [...] Galileu não descobriu a fórmula da queda livre, inventou-a: experimentou uma forma atrás da outra até encontrar uma que funcionasse. Assim a teoria geométrica (e a teoria mecânica) é uma concepção (design) que atribuímos aos fenômenos para os compreender. [...]

    Temos de admitir que: o fato de o Sol girar em torno da terra ou a Terra em torno do Sol é apenas uma questão de design. Mas a queda dos graves [a lei gravitacional] também será uma questão de design? Por outras palavras: se já não partilhamos a opinião de Platão, segundo a qual o design dos fenômenos está no céu e deve ser descoberto por via teórica, mas acreditamos, ao invés, sermos nós próprios a criar os fenômenos, por que é que os fenômenos têm o aspecto que têm, em vez daquele que desejávamos que tivessem? [...]

    …não há dúvida de que as formas, independentemente de terem sido descobertas ou inventadas, projetadas por um designer celeste ou humano, são externas, ou seja, independentes do tempo e do espaço. A soma dos ângulos de um triângulo inteligível é sempre e eternamente 180 graus, quer o tenha descoberto no céu ou inventado no estirador. [...] O modo de ver do designer – quer o celeste, quer o humano – corresponde sem dúvida ao do segundo olho da alma. [...] O segundo olho da alma continua a olhar para a eternidade, mas trata-se de uma eternidade que agora pode manipular.

    É esta a perspectiva do designer: tem uma espécie de olho parietal [...] que lhe permite perceber e relacionar-se com a eternidade. [...] Na Mesopotâmia, chamavam-lhe profeta. Seria mais adequado chamar-lhe Deus. Mas, graças a Deus, não o sabe e considera-se um técnico ou um artista. Que Deus lhe conserve esta convicção.” (FLUSSER, 2010, p. 33-37).

    Embora seja verdade que tanto Feyerabend quanto Flusser (e mesmo Kuhn) estejam imersos em determinado paradigma, o que me chama atenção é a ideia de “linguagem observacional” ou “perspectiva do designer”, isto é, um modo de olhar particularmente humano que nos permite contemplar o infinito: construímos e consumimos produtos diversos, desenhamos e apreciamos imagens, mas, sem que saibamos exatamente “como”, compreendemos, experimentamos e inventamos uma miríade de sentidos, significados, emoções, desejos, ideias e valores. A impressão que tenho, pois, é que este modo de olhar do designer atua por detrás dos regimes de visualidade, não simplesmente os traduzindo ou os representando, mas os “realizando”, reinventando novas configurações e expandindo o campo de visão. Este papo pode ir longe, mas espero que tenha contribuído com o post.

    Parabéns pelo artigo Daniel, grande abraço!

    - FEYERABEND, P. Contra o método. São Paulo: UNESP, 2007.
    - FLUSSER, V. Uma filosofia do design: a forma das coisas.Lisboa: Relógio D’Água, 2010.

    • Daniel B. Portugal diz:

      Ótimo complemento, Marcos. Acho que tem tudo a ver. Eu gosto bastante desse livro do Feyerabend, embora o tenha lido às pressas e só pela metade. A Rose, que vc conheceu lá na ESPM, e que me orientou no mestrado, é que adora. Enfim, tenho que voltar a ele para uma lida mais atenta qq dia. De todo modo, no artigo eu tento fazer uma conexão que vai mais ou menos na linha desta que te passou pela cabeça usando o “As palavras e as coisas”, do Foucault, e o “Fontes do Self”, do Charles Taylor. De fato, a questão me parece ser o entrelaçamento complexo de três eixos, um epistemológico, um tecnológico e um estésico (imagético/perceptual), que me parece devem ser estudado evitando a noção (tosca!) de que um deles determina os outros dois. Abraço!

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