Design pelo I Ching [1]
12/01/2012 2 Comentários

Pode haver uma posição intelectualmente mais incômoda que a de flutuar na névoa de possibilidades não comprovadas, não sabendo se o que estamos vendo é verdade ou ilusão? Essa é a atmosfera quase onírica do I Ching, e nela não encontramos nada em que possamos confiar, exceto o nosso próprio e tão falível julgamento subjetivo.
(JUNG, apud WILHELM, 2011)
Jung é autor do prefácio da edição inglesa do I Ching, um livro de sabedoria oriental traduzido e comentado do chinês para o alemão por Richard Wilhem. Assim como Wilhem, Jung é um dos responsáveis por aproximar o oráculo oriental da cultura ocidental, enfatizando, assim, para os amadores espirituais, um pouco do propósito do livro: “O I Ching não oferece provas nem resultados; não faz alarde de si nem é de fácil abordagem. Como se fora uma parte da natureza, espera até que o descubramos.”
Como uma “parte da natureza”, o I Ching se sustenta sem serem necessárias provas de sua existência e, por esse motivo, Jung confessa seu desconforto inicial com relação à ciência ao escrever sobre o Livro. Sublinha, com isso, que o I Ching é insistente no autoconhecimento e que o método pelo qual isso é alcançado é suscetível a aplicações errôneas, ressaltando que, por isso, o I Ching “não convém aos frívolos e imaturos nem aos intelectuais e racionalistas” e que apenas é apropriado para quem possui o hábito de pensar sobre as coisas, de refletir e de meditar sobre o que fazem e o que lhes ocorre. E esclarece em seguida: “não tenho resposta para a infinidade de problemas que surgem quando procuramos harmonizar o oráculo do I Ching com nossos cânones científicos aceitos. Mas é desnecessário dizer que nada ‘oculto’ é passível de ser deduzido.”

Não tenho pretensões de ensinar ninguém a consultar o I Ching, nem mesmo de obter uma sabedoria espiritual que não condiz com meu contexto, mas como desde criança presencio minha mãe buscando autoconhecimento neste “Livro das Mutações”, sinto-me frequentemente inclinada, assumindo minha curiosidade inevitável (incalculável e incontrolável), a fazer o mesmo.
Ao demonstrar meu interesse constante, ganhei, então, o primeiro livro que minha mãe adquiriu do I Ching, o “I Ching Fácil”, publicado pela mesma editora que traduziu a edição comentada por Richard Wilhem. E, por meio dele, (agora sim) tenho pretensões de assumir uma postura mais pontual sobre questões que constantemente atravessam, transbordam, transgridem e definem a área do Design.

Desse modo, espero intercalar estudos sobre o I Ching com estudos sobre o Design, iniciando meu trajeto arriscando a submissão de uma pergunta que cruza o Design e o I Ching, sem saber se isso é “espiritualmente oportuno”, num paralelo ao que Jung apresentou no prefácio da edição de Wilhem, ao perguntar para o Livro seu julgamento sobre sua própria situação atual, isto é, sobre a intenção de Jung de apresentá-lo à mente ocidental (sendo essa resposta um assunto para um próximo post).
Qual será o julgamento do I Ching, o livro das mutações e das não-mutações (pois, segundo Wilhem, ao analisar a mutação, verifica-se que ela é invariável, pois é onipresente e absoluta, sendo assim mutável e, por isso, o “I” do “I Ching” significa “mutação” e também “não-mutação”), sobre a intenção de aproximar as questões do Design com sua sabedoria milenar?
Cabe ressaltar, antes de apresentar a resposta obtida pelo livro, que, mesmo que possam haver inúmeras respostas possíveis, a pergunta não deve ser repetida, pois “uma repetição da experiência é impossível pelo simples motivo de que a situação original não pode ser reconstruída” (JUNG, 2011).
Considerando, portanto, o contexto atual (mundial, profissional e pessoal), temos, de acordo com a edição de Walker (1992), o hexagrama: Vento sobre Fogo, referente ao texto Chia Jên/A Família (O Clã).

A partir disso, selecionei alguns trechos elucidativos da resposta (considerando minha subjetividade pessoal), os quais devem ficar a disposição dos inúmeros pensamentos relativos à subjetividade de cada leitor, uma vez que não irei expor, neste primeiro momento, minhas interpretações.
Texto: “O hexagrama Chia Jên diz respeito ao alicerce adequado das comunidades humanas. O I Ching ensina que [...] para desenvolver nossa família, companhia, nação, ou comunidade mundial, precisamos começar a desenvolver a nós mesmos. [...] Concentre-se não em influenciar as pessoas ou as situações externas, mas em fortalecer sua devoção interior aos princípios adequados. [...]”
Nesse caso, temos ainda duas tensões sobre a resposta, aparentes nas linhas do hexagrama, as quais seguem pontuadas e descritas:
Sexta linha: “Nem a vida, nem o Sábio, nem suas companhias querem prejudicá-lo. Afaste a desconfiança e libere as tensões do momento.”
Segunda linha: “A oposição impede o encontro de almas. Uma postura aberta e desestruturada é mais aconselhável. Via de regra, as respostas chegam acidentalmente.”
Uma vez havendo essas tensões internas no hexagrama, sobrevém uma transformação para com a resposta, resultando em um novo hexagrama e em um novo texto a ser consultado no Livro, em correspondência a resposta anterior. Sendo assim, temos o hexagrama: Água sobre Céu, referente ao texto Hsü/A Espera (Nutrição).
“Uma situação desfavorável está prestes a acontecer e não pode ser corrigida pela força ou pelo esforço externo. O Criativo fornecerá a solução àquele que esperar com uma atitude correta. Este é um momento de paciência e cuidadosa atenção à verdade interior. [...] Tentar forçar uma mudança, em vez de permitir que esta amadureça naturalmente, só trará o infortúnio. [...] Aceitando as coisas como elas são e eximindo-se de comparações infrutíferas com a situação de outrem ou com algum ideal imaginário, evoca-se o poder do Criativo. [...]”
Confesso que esse último texto me deixou muito pensativa sobre a qualidade dessa proposta e, sendo assim, concluo com mais reticências pessoais internas entre colchetes.
Referências
WALKER, Brian Browne. O I Ching Fácil – Um Guia atual para os pontos de mutação da vida. São Paulo: Editora Cultrix, 1992.
WILHELM, Richard (Org.). I Ching: O Livro das Mutações. São Paulo: Editora Pensamento, 2011.







Alguns de seus projetos mais interessantes são ruas mistas, nas quais os motoristas sentem se vigiados e dirigem com um cuidado monstro.
Comentário intrigante.
Obrigada