Filosofia do Design, parte LXXII – Design Thinking
22/03/2012 7 Comentários
Design Thinking está tão na moda que já não é nenhuma novidade. Na década de 1980, alguns autores como Bruce Archer, Bryan Lawson e Peter Rowe propuseram uma “maneira designer” de pensar e de comunicar como alternativa a métodos científicos e acadêmicos, mas que poderia ser tão poderosa quanto quando aplicada aos seus próprios problemas.
Moral da história: a visão de que o designer é capaz de liderar uma empresa voltada à inovação, tipo IDEO, com uma pitada do discurso de Tim Brown (TED) ou de Steve Jobs (em Stanford).
A pergunta que deve ser feita hoje não é mais “como pensam os designers?”, mas o contrário: como o design tem sido pensado? O que as pessoas em geral, depois de 30 anos de design thinking, pensam sobre design? Será que o designer finalmente conquistou a insígnia do profissional plenamente capacitado a enfrentar jogos de poder, estratégias econômicas ou mesmo seus próprios clientes?
Acho que designers e o seu “jeito de pensar” são nada mais que um cego no meio de um tiroteio muito maior.
Em tempos de multiculturalismos autoritariamente democráticos, temos a sensação de que tudo é possível, de que qualquer coisa está ao nosso alcance e que temos liberdade infinita de escolha.
Tudo precisa parecer novidade. E se “inovação” é sempre uma intervenção específica num contexto específico, o inovador hoje é aquele que garante a permanência da novidade. Ou seja, uma inovação sem inovação.
Não estou dizendo que a inovação é inteiramente determinada pelo contexto. O eterno de ontem pode voltar como o novo de hoje. O que o contexto determina e engessa é o fascínio pela novidade, dificultando assim a percepção do eterno (isto é, aquilo que se reinventa a cada geração).
Então a reinvenção é substituída pela mera repetição seguindo a retórica do “só para sócios”: confira o que há de novo no Starbucks mais próximo!
É neste ponto que a receita do design thinking torna-se eficaz: se quisermos ter uma empresa (que pareça) inovadora, não devemos arriscar nosso dinheiro em coisas realmente novas, mas sim naquilo que, há 30 anos, continua sendo “novidade”.
Expectativas fazem parte do jogo, até mesmo expectativas sobre as expectativas dos outros. A ironia é que não se espera que o designer faça algo novo, mas que ele mantenha o “novo” reconhecível enquanto tal.
Outra ironia é o fato de o design thinking defender o lema “não fique aí só falando e pensando, faça alguma coisa!”. Parece que design-thinkers fazem coisas para não terem de pensar e falar sobre elas.
Adoramos a forma como trabalham as empresas do Vale do Silício, mas ignoramos o fato de que a principal causa da crise de 2008 foi o impasse dessas empresas em torno da propriedade intelectual¹ (e cujas consequências reverberam a cada dia com mais força).
Diante disso, assim como não hesito em dizer que não é preciso ser designer para fazer design (não é preciso ser vítima para se ter razão), digo sem pensar duas vezes: uma inovação não precisa de design thinking. O raciocínio é que, por um lado, fazer o novo significa assumir um risco, dar um passo no desconhecido, sem nenhum tipo de garantia, enquanto que, por outro lado, o design thinking continua tentando garantir a inovação.
Não sou contra o design thinking. Muito pelo contrário, minha crítica reside precisamente em uma potencialidade desperdiçada: ao negar bases teóricas firmes, o design thinking poderia ter construído um cenário em aberto.
Ao invés de procurar inovações no interior de um conjunto prévio de expectativas, ele poderia operar nas próprias expectativas, o que implicaria não criar expectativa alguma. Claro que esse último enunciado já configura um tipo de expectativa, mas pelo menos sem um direcionamento inicial ao espetáculo da “inovação”.
Um “pensar design”, portanto, que não fale em nome da inovação e que possa reconhecer uma finalidade em si mesmo. Que nos permita compreender que “método”, por exemplo, não é apenas um conjunto de ações previstas, mas antes um caminho que também pode privilegiar o imprevisto e o improviso. E que uma solução nova, por conseguinte, é menos baseada na aceitação ou na negação do velho e mais na reinvenção da própria noção de novidade.
Não se trata, pois, de abandonar o design thinking, mas de tentar desbloquear o acesso dos designers ao thinking político-econômico onde provavelmente seria possível contemplar, com maior nitidez, os mecanismos de produção de sentido e de reprodução da realidade social.
O problema do design thinking, enfim, não é sua proposta de autoafirmação do design, mas o fato de ser uma falsa afirmação em que a implacável busca pelo novo tem se tornado uma estratégia definitiva para evitar o confronto com ele.
¹ de acordo com Slavoj Žižek em “Primeiro como tragédia, depois como farsa” (Boitempo, 2011, p. 26).
Dan Saffer: How to Lie With Design Thinking from Interaction Design Association on Vimeo.







Marcos achei interessante seu ponto de vista, principalmente quando chama atenção para entender como se tem pensado o design, certo?
Primeiramente, dentro deste contexto, acho interesse pontuar o que é inovação, caso contrário ela recai mesmo num sentimento de paradoxo. Sugiro começar essa consulta pelo Manual de Oslo.
Mas de certa forma, talvez eu em meio a minha dislexia, compreendo essa metodologia do design thinking como um convite a entender como o design tem sido pensado e então verificar de que maneira ele pode ser repensado e talvez modificado para gerar um resultado diferente que promova as mudanças que eu espero.
Por outro lado, esta metodologia proposta por alguns autores, dentre eles Tim Brown, é de trazer a lógica de pensamento do designer para o mundo, ou seja um livro de design para não designers (que é o objetivo do livro). É exatamente por isso que compreendo ele como um livro didático (introdutório) para pessoas que lidam com design indiretamente (altos administradores de corporações), mas que não sabem o que é design de fato (se é que alguém sabe…). Sem contar as questões mercadologicas mesmo, que é cunhar um termo, em cima de um método/processo/ferramenta já existente, que seja mais atrativo e no final das contas venda mais.
“Não pense muito, porque faz mal”, concordo com ele, mas isso não quer dizer não pensar. É um convite para deixar sua intuição resolver alguns problemas e eu não vejo nenhum problema nisso. Acho que muitas vezes nós não temos capacidade racional de assimilar tudo, e que nosso lado intuitivo, consegue de alguma forma, resolver melhor pra gente.
Prototipar? sim, estamos falando de um design voltado para o mercado, então é necessário tornar tangível, pois as pessoas não querem coisas que não gerem lucros. Felizmente ou não, é ele que move o mundo.
Mas de qualquer maneira, acho que a reflexão deva existir, e diante de tudo que nos é oferecido, vale uma reflexão e um bol julgamento, coisa aí que um percentual mínimo da população faz e vive emburrecidamente apenas reproduzindo os padrões. Sinceramente não sei se é por conveniência consciente ou não.
E por fim…
“O problema do design thinking, enfim, não é sua proposta de autoafirmação do design, mas o fato de ser uma falsa afirmação em que a implacável busca pelo novo tem se tornado uma estratégia definitiva para evitar o confronto com ele”, concordo plenamento, mas não acho que a culpa seja da metodologia e sim das pessoas, que de fato não estão preparadas para enfrentar o novo e buscam se agarrar em poderes antigos para continuar apenas e somente como estão.
(espero que minha colaboração seja de alguma forma útil ao seu texto, de qualquer maneira me esforcei para compreende-lo, sabes que tenho minhas dificuldades).
Abraço
Oi Mari,
Obrigado pelo comentário (praticamente um post novo), contribuiu bastante sim. Optei por não definir o que é inovação apenas porque o tema desse texto não é isso (e nem haveria espaço para isso), mas concordo que mereceria uma reflexão mais longa. Assim como sobre as circunstâncias do “mercado”, tema este que tenho explorado em meus últimos posts.
Em todo caso, não tenho interesse em repensar o Design Thinking e propor algumas mudanças/melhorias (pelo menos, não aqui neste blog). Meu maior interesse é sempre analisar e questionar, mas longe de querer “chegar a algum lugar” com isso – a filosofia do design como um fim em si mesma.
abraços
Criticar design thinking,hoje, é quase uma heresia para os hypsters rsrsrs .Bacana o post.Pegando o gancho nessa busca histórica sobre as velhas novidades e criação de expectativas, alguns discursos dos designers thinkers vieram a minha memória. Às vezes me parece que o discurso do design thinking é, na verdade, um “rediscurso” modernista num período pós-moderno. A tentativa de definir alguns métodos,atribuir alguma racionalidade, perspectivas de um mundo melhor para o usuário (sociedade) no intuinto de dar alguma previsibilidade segura,aliviando o tal mal-estar da pós-modernidade (produtores e consumidores).Talvez aí, o design thinking cairia nessa “armadilha” que tu fala, quando diz que ela perde sua potencialidade ao evitar trabalhar com o acaso, o improviso. Uma vez que ele busca confortar um sistema carente de “inovação”, funcionando como um ,sei lá, “Prozac Designeristico” rsrsrs. Posso estar viajando brutalmente, mas aonde mais eu faria isso, não é?
Abraço.
Ah, prototypos, na verdade, sou eu logado errado rsrs
Abs.
Pensando bem Marcos, concordo com você em quase tudo.
DT não é bem uma farsa… é só um hype:
http://fabiocaparica.com/2012/03/mentalidade-projetual/
Quando ouvi o Anticast 45 não entendi muito bem a sua opinião, mas agora depois de ler o texto, acho que consegui organizar um pouco as ideias. Vamos ver se entendi, você critica a constante e velha sede por inovação, que assim, cria o hábito de não refletirmos sobre os problemas. Assumimos os riscos a cada “nova” inovação, tecnicamente sem necessidade. Isso cria uma expectativa em torno da marca, por exemplo, a Apple a cada ano lança uma inovação que vai mudar o modo como vivemos, no ano que a empresa anuncia apenas pequenas mudanças em um de seus produtos, os consumidores ficam frustrados.
Se entendi bem, concordo com a sua opinião. Quando li o livro Design Thinking do Tim Brown, percebi logo que como disse o Cuducos, a metodologia do design thinking se resume em apenas design bem feito.