Percepção visual, memória e cadeira

Quando batemos o olho em uma coisa qualquer, em frações de segundo realizamos uma operação complexa que costumamos chamar de “percepção visual”. É algo tão corriqueiro que raramente nos perguntamos o que ocorre nesse tempo infinitesimal. Entretanto, uma vez que começamos a questionar essa tal “percepção”, as perguntas começam a se acumular…

Digamos que, em um dado ambiente, eu olho para uma cadeira parecida com a que aparece na figura ao lado. Eu vejo imediatamente uma cadeira. Mas o que é uma cadeira se não um objeto que serve para sentar? Ora, a função de “servir para sentar” não faz parte do objeto que vejo. Eu é que atribuo a ele esta função e, por isso, dou-lhe o nome de cadeira. Se é assim, entretanto, devo reconhecer que eu não vi, na verdade, uma cadeira. O que eu vi foi um objeto de madeira com quatro pernas e uma aparência específica ao qual, através de um ato classificatório, dei, posteriormente, o nome de cadeira. Entretanto, mesmo nessa nova formulação, o problema permanece: “objeto”, “pernas” e “madeira” são, mais uma vez, nomes dados a alguma coisa que aparece para mim e que requerem categorias específicas para existir. Em última instância, se eu seguir este raciocínio até o fim, terei que admitir que o que efetivamente vi foi apenas uma imagem singular ainda inclassificada. Entretanto, tal suposta “imagem singular inclassificada” não faz parte de minha experiência: quando olhei para a cadeira, ela já era cadeira, e não um objeto estranho que só depois virou cadeira para mim. Mas será que tudo isso faz alguma diferença? Algum leitor poderia perguntar neste ponto: mas será que não é irrelevante o fato de eu chamar a cadeira de cadeira? Eu vi, diria ele, o que quer que seja que estivesse na frente dos meus olhos naquele momento e depois classifiquei essa coisa como cadeira. Se fosse um objeto desconhecido, isso em nada afetaria minha maneira de percebê-lo, ele continuaria a ser o mesmo objeto, apenas eu não o consideraria uma cadeira por não atribuir a ele a função de “servir para sentar”. Será que podemos nos satisfazer com tal explicação?

A ideia do leitor é a de que eu vejo “o que está lá, na frente do meu olho” e depois classifico aquilo que vi. Mas o que está lá de fato, na frente dos meus olhos? Será que tenho como saber? O único acesso que tenho ao que o leitor diz “estar lá” é a imagem que vejo (ou escuto, ou sinto pelo tato etc. Para simplificar nossa argumentação, vamos nos restringir ao sentido da visão, supondo que o que vale para a visão vale também para os outros sentidos). Portanto, dizer que eu vejo o que está lá na frente dos meus olhos é apenas outra forma de dizer que eu vejo o que vejo. Ou seja, na minha experiência, eu simplesmente vejo uma imagem. Eu nada sei do que a causou. A imagem simplesmente aparece para mim. E, como observei acima, ela normalmente aparece já permeada de sentidos. A questão que se coloca, portanto, é: eu posso separar a imagem que vejo dos significados que a permeiam na minha experiência corriqueira? Ora, sabemos que alguns pintores impressionistas se colocaram questão bem semelhante e tentaram o experimento: o que eu percebo se tento ao máximo abstrair tudo aquilo que sei sobre o mundo? Eles tentaram colocar na tela essa percepção imaculada pelo pensamento. Se um pintor quer representar cavalos correndo, por exemplo, costuma desenhá-los com quatro patas cada um, porque ele sabe que um cavalo tem quatro patas. Mas quando vemos os cavalos correndo, se tentarmos abstrair o fato de que sabemos haver quatro patas se movimentando, deixamos de ver as patas e passamos a ver um borrão cheio de qualidades específicas impossíveis de descrever.

Assim, é possível fazer um esforço e abstrair da imagem que vemos uma grande parte dos significados que costumamos dar às coisas. Entretanto, a imagem resultante desse “olhar inocente” é algo muito diferente daquilo que o leitor que colocou a questão imaginava “estar lá” quando disse que via o que “estava lá” independentemente do fato de chamar o que via de cadeira ou não. O fato é que, ao tentar abstrair os significados da imagem, a própria percepção muda, se torna ao mesmo tempo mais complexa e mais instável: uma massa caótica de sensações. Ou seja, as formas estáveis que acreditamos compor os objetos que vemos só existem em um mundo já ordenado pelo nosso pensamento. Em outros termos: um mesmo “material perceptual bruto” pode se transformar em diferentes percepções conscientes dependendo de como o significamos. Na percepção auditiva, é mais fácil perceber o que digo: quando escutamos alguém falar uma língua estrangeira que desconhecemos, não escutamos as palavras e apenas não as entendemos. O que escutamos é um ruído complexo no qual não conseguimos distinguir diferentes palavras. Para que possamos separar as palavras, é preciso já conhecê-las de uma maneira ou de outra.

Outra lição interessante que se tira desta experiência de abstração é a de que significar uma imagem envolve principalmente uma simplificação da imagem, e não, como poderíamos pensar a princípio, uma complexificação. O ato de preencher a imagem de significados é ele próprio uma espécie de abstração que ajuda a tornar tal imagem consciente como percepção. A imagem despida de significados é composta de inumeráveis singularidades, é caótica. Em nossa vida cotidiana não poderíamos viver com tal percepção caótica do mundo. Assim, abstraímos dessa “percepção bruta” (inconsciente) uma quantidade enorme de singularidades de modo a formatá-la em uma percepção visual coerente: ali uma cadeira, aqui chão, ali parede etc.

O processo de percepção visual normal envolve, portanto, uma atividade de esquecimento de parte do dado bruto dos sentidos e uma sobreposição de imagens já conhecidas, imagens-lembrança, a esta “percepção bruta”. Para citar Bergson (2010, p.30):

Na verdade, não há percepção que não esteja impregnada de lembranças. Aos dados imediatos e presentes de nossos sentidos misturamos milhares de detalhes de nossa experiência passada. Na maioria das vezes, estas lembranças deslocam nossas percepções reais, das quais não retemos então mais que algumas indicações, simples “signos” destinados a nos trazerem à memória antigas imagens.

Com efeito, se considerássemos todas as possíveis nuances da “percepção bruta”, não poderíamos produzir as imagens ordenadas que efetivamente vemos. Funes, o memorioso, personagem de um conto homônimo de Borges personifica este paradoxo de uma percepção sem esquecimento:

Nós, de uma olhadela, percebemos três taças em uma mesa; Funes, todos os rebentos e cachos e frutos que compreende uma parreira. [...]. Uma circunferência num quadro negro, um triângulo retângulo, um losango são formas que podemos intuir plenamente; o mesmo acontecia a Irineu com as emaranhadas crinas de um potro, com uma ponta de gado numa coxilha, com o fogo mutável e com a inumerável cinza, com os muitos rostos de um morto num longo velório. Não sei quantas estrelas via no céu (BORGES, 2001, p.125).

Funes, com sua memória perfeita, não percebia do modo que fazemos nós, projetando nas imagens nossas lembranças, despindo-as de suas singularidades de acordo com nossas categorias. Funes não precisava de classificações: vivia em um mundo abarrotado de inclassificáveis singularidades. Desnecessário dizer, portanto, que todas as categorizações e ordenações, das linguísticas às visuais, pareciam-lhe absurdas, já que identificam coisas inteiramente díspares: aborrecia-o, por exemplo, “que o cão das três e catorze (visto de perfil) tivesse o mesmo nome que o cão das três e quarto (visto de frente). Seu próprio rosto no espelho, suas próprias mãos, surpreendiam-no todas as vezes” (idem, p.127).

Nós, que não somos Funes, por outro lado, precisamos de nossas categorias. Precisamos da possibilidade de ordenar um mundo que, pelo menos tal como aparece para nossa “percepção bruta”, é inteiramente caótico. Não poderíamos ver uma única cadeira se fôssemos privados da nossa humana, demasiado humana, capacidade de simbolizar.

REFERÊNCIAS
BERGSON, H. Matéria e memória: ensaio sobre a relação do corpo com o espírito. 4. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2010.
BORGES, J. L. Funes, o memorioso. In: ____. Ficções. 3. ed. São Paulo: Globo, 2001.
GOMBRICH, E. H. Arte e ilusão: um estudo da psicologia da representação. 4. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2007.

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Acerca Daniel B. Portugal
Doutorando em Comunicação e Cultura pela UFRJ, Mestre em Comunicação e Práticas de Consumo pela ESPM-SP e Designer Gráfico pela UFRJ. Atualmente atua como professor substituto no curso Comunicação Visual Design da UFRJ. Reflete e pesquisa sobre temas relacionados a: consumo, comunicação, estética, ética, teoria da imagem, cultura visual e design.

4 Respostas a Percepção visual, memória e cadeira

  1. Parabéns Daniel, achei muito bem escrito, uma ótima via de acesso aos engenhosos caminhos teóricos do estudo da análise da imagem. Lembrei-me involuntariamente de Marcel Proust que, dizem as más línguas, foi aluno de Bergson em Sorbonne. E coincidentemente acabei de ler um trecho sobre o Proust no blog de um colega meu, e acho que pode contribuir com esta discussão sobre “memória involuntária” – segue abaixo:

    Proust sempre declarou que não tinha boa memória e que, além disso, uma lembrança reconstruída, estimulada por fotos ou reminiscências compartilhadas, era invariavelmente incolor. Apenas uma lembrança involuntária, provocada por um gosto ou um cheiro, ou uma outra sensação, podia apagar a passagem do tempo e recuperar uma experiência passada em todo o seu brilho inicial. Proust, que era um antiintelectual, estava convencido de que o domínio da arte, que é a experiência lembrada, não pode nunca ser atingido apenas por meio do raciocínio ou do método; ele deve chegar a nós, fresco e vívido, por meio de um processo que ultrapassa o controle do intelecto ou da força de vontade. Paradoxalmente, se Proust era antiintelectual, ele era também filosófico, pois em sua busca ele não visava os acidentes mas a essência de qualquer acontecimento passado. Contudo, a memória involuntária, por definição antiintelectual, purifica todos os detalhes desnecessários de um momento esquecido e dele só retém o núcleo singelo.

    Proust, forçado pela saúde precária a permanecer totalmente imóvel na cama horas a fio meditando sobre sua vida, estava naturalmente predisposto a transformar as pessoas que conhecia e as aventuras que tinha vivido em lendas brilhantes. Por estar sempre tão determinado a disfarçar a própria homossexualidade, ele foi forçado a transpor as lembranças das suas experiências com homens em histórias fantasiosas, contadas pelo Narrador, de uma paixão por mulheres. Esse jogo elaborado de codificar é a metade criativa do esforço de Proust, a invenção somada aos dados fornecidos pela memória involuntária. Mas assim como no caso de um bom ator do Método que constrói até a mais bizarra caracterização a partir de suas lembranças sensórias concretas e pessoais, as estratégias de Proust para disfarçar e transpor devem ainda começar e terminar com uma recordação extremamente específica de seus sentimentos e sensações. Nesse sentido, as lembranças involuntárias representam a verdade no processo de composição de Proust, a face nua que ele deverá, mais tarde, pintar com a invenção.

    Talvez a teoria da primazia da memória involuntária atraia os leitores por nos assegurar que nada é verdadeiramente esquecido para sempre e que a arte não é nada senão a acumulação de lembranças. Essa visão totalmente democrática que faz com que sejamos todos romancistas a quem o destino entregou um grande livro, a história das nossas vidas, atrai qualquer um que um dia sentiu o apelo em direção à auto-expressão mas que temeu não ter a perícia suficiente para registrar seus sentimentos. O que Proust deixa fora da equação são, sem dúvida, três coisas essenciais: o fato de que ele por acaso viveu num dos momentos culminantes da cultura e da civilização (quando não, da criação literária); seus dons naturais de eloquência, de análise psicológica e de assimilação de informações; e por fim sua disposição de sacrificar sua vida por sua arte. A memória involuntária, sem o acréscimo desses dons e dessas circunstâncias felizes, provavelmente não serviria muito como garantia da excelência artística. Uma vez que Proust possuía esses poderes em profusão, ele podia dar-se ao luxo de dispensar a importância deles.
    - Edmund White, Marcel Proust (Editora Objetiva, 1999) – via “o leitor comum” (http://oleitorcomum.tumblr.com/).

    Tem dois artigos interessantes que também podem contribuir com o “caldo”:
    - “A Mitologia da memória literária: a memória voluntária e involuntária em Marcel Proust”, de Flávio Pereira Camargo – http://www.ueginhumas.com/revelli/revelli1/numero_1/Artigo04.pdf
    - “A lembrança do presente e o falso reconhecimento”, de Henry Bergson – http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0101-31732006000100007

    Abraços!

    • Valeu, Marcos. E como sempre, ótimo complemento. Essa questão da lembrança voluntária ou involuntária é realmente interessante e pode nos levar novamente a Bergson. No próximo post vou tentar falar mais sobre Bergson. Acho que é um filósofo mto interessante.

  2. Ahmed diz:

    Como trabalhei numa madeireira que também construia cadeiras de luxo, quando vejo uma cadeira de madeira, sempre lembro de: dedos partidos no chão da fábrica ou esmigalhados numa máquina qualquer da fabrica, sangue espirrando pra todo lado, gente afastada de licensa médica,barulho ensurdecedor de motores,serras, furadeiras e geradores, lembro também de gente muito feia, bronca, semi-analfabeta e mal cheirosa, sempre doentes (a poeira da madeira de lei comia seus pulmões e tapava gargantas e aletas),e que mal ganhavam R$380,00 por mês (ano de 2004) mas que fabricavam cadeiras que custavam entre R$4.500,00 e R$15.000,00 (exportadas).Interessante como vocês isolam as coisas! Vivam os especialistas especiais e suas miopias!

    • Daniel B. Portugal diz:

      hahaha, míopes somos todos! você com sua miopia pragmática de construtor de cadeiras e eu com minha miopia contemplativa de pensador de cadeiras. Sim, um viva às miopias!
      (ps. Não rio da situação que você descreveu, que é brutal, inumana. Rio da sua noção de que tal situação, por algum motivo, deslegitima meu pensamento)

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