Design pelo I Ching [2]

Pela possibilidade de interesse por parte do Design ocidental, desdobro a resposta da pergunta que Jung (apud WILHELM, 2011) fez ao I Ching, personificando-o, sobre sua situação ao atravessar a nossa cultura. Vale colocar que essa atitude de Jung defende um diálogo viável com o Livro, uma vez que o I Ching é considerado uma sabedoria viva. Com isso, Jung sublinha que o leitor tem a possibilidade de observar tanto a “expressão suprema da autoridade espiritual” quanto um “enigma filosófico”.

Utilizando o método de moedas, Jung obteve como resposta o hexagrama 50 do Livro, referente ao texto Ting, O Caldeirão. Ele esclarece que, levando em consideração a formulação da pergunta, deve-se entender o I Ching como sujeito da própria resposta, ou seja, nesse caso, o I Ching se autodireciona como sendo ele mesmo “o caldeirão”. De acordo com essa interpretação, a linha de pensamento parte do caldeirão como um “recipiente de ritual contendo comida preparada”, num sentido espiritual: “alimento espiritual”.

Para essa resposta, o I Ching enfatiza a segunda e a terceira linha do hexagrama, que manifestam:

Segunda linha: “Há alimento no Ting. Meus companheiros têm inveja, mas nada podem contra mim. Boa fortuna.”

Terceira linha: “A alça do Ting está alterada. Ele é impedido em suas atitudes. A gordura do faisão não é comida. Quando a chuva cair, o remorso desaparecerá. A boa fortuna virá ao final.”

Nessas linhas, o I Ching estende o fato de “conter alimento (espiritual)” incluindo o “coro dos invejosos” na questão. “Mas essa hostilidade é em vão”, acrescenta Jung, pois há devida segurança nas conquistas positivas do oráculo.

Quanto à terceira linha, o I Ching expõe que sua alça, isto é, a pega pela qual é segurado, foi alterada com o tempo, sendo assim, não conseguimos apreendê-lo da mesma maneira que os orientais anos atrás. Além disso, não se come “a gordura do faisão”, a melhor parte do alimento. No entanto, “quando a chuva cair, o remorso desaparecerá”, quando tivermos nosso “estado de carência” superado, enxergaremos a oportunidade.

O I Ching parece estar lamentando que suas excelentes qualidades não sejam reconhecidas e portanto permanecem inexploradas. Conforta-se com a esperança de recuperar, em breve, o reconhecimento. [...] O I Ching, como resposta, fala de seu significado religioso, do fato de ser desconhecido e mal interpretado na atualidade e sua esperança de voltar a ocupar um lugar de honra – essa última parte obviamente como uma direta menção ao meu prefácio ainda não redigido e sobretudo à tradução para o inglês. Essa parece ser uma reação perfeitamente compreensível, tal como se poderia esperar de uma pessoa numa situação similar. (JUNG, apud WILHELM, 2011)

E, realmente, agora em nossa defesa, por nossa postura intelectual e racional sobre as coisas do mundo, é um bocado estranho confiar em três moedas que se combinam ao acaso de serem jogadas ao ar e caírem de um lado ou de outro… Contudo, é justamente a resposta que faz sentido por meio de uma técnica que, aparentemente, não faz sentido algum, que é a grande conquista do I Ching, diz Jung. E, assim, continua em defesa do oráculo:

Sinólogos ocidentais e importantes eruditos chineses deram-se ao trabalho de informar-me que o I Ching é uma coleção de ‘fórmulas mágicas’ obsoletas. No decorrer destas conversas, meu informante algumas vezes admitiu ter consultado o oráculo através de um adivinho, geralmente um monge Taoísta. Naturalmente isto ‘só poderia ser bobagem’. Mas o estranho é que a resposta obtida aparentemente coincidia, de um modo notável, com o ponto cego psicológico do consulente. (JUNG, apud WILHELM, 2011)

Ainda quanto a resposta que Jung obteve do I Ching, pelas tensões encontradas nas linhas segunda e terceira, como expliquei rasamente no outro post, acontece uma transformação das linhas yang em yin e vice-versa, sobrescrevendo uma segunda resposta que, nesse caso, foi o hexagrama 35, referente ao texto Chin, Progresso, o qual Jung resume: “O I Ching está nessa mesma situação: eleva-se como o sol e se dá a conhecer, mas é repudiado e não inspira confiança – ele está ‘progredindo, porém em tristeza’”.

Não sei se combinar o I Ching com o Design é de fato feliz para o Livro, mas acredito que seja uma forma de conhecimento subjetivo de nossa profissão e, talvez, seja o peteleco (descrito pela pergunta sobre o julgamento do I Ching sobre a intenção de aproximar as questões do Design com sua sabedoria milenar) que declarou em última instância que “uma situação desfavorável está prestes a acontecer e não pode ser corrigida pela força ou pelo esforço externo” que muito me fez pensar.

Novamente com o socorro de Jung, tentei entender e, sinceramente, a confusão e a descrença se deve a nossa cultura ocidental e, em meio disso, o I Ching parece sobreviver como um dia nublado, algo que acontece e se intensifica na medida em que a Água sobre Terra, o PI Manter-se Unido (Solidariedade), aproxima-se de nossa realidade.

Segundo a edição de Walker (1992), A União visa o auxílio mútuo, assim como a chuva aperfeiçoa e auxilia a terra e, para isso, o I Ching sugere que como primeiro requisito é necessária a união com a nossa própria verdade interior, ou seja, conservar-se fiel aos próprios princípios, e como segundo requisito aponta a importância da resistência aos processos de nossos inferiores emocionais: “toda união enfrenta desafios e se não resistirmos aos efeitos do medo, da dúvida, do desespero e da raiva, será impossível atingir o sucesso duradouro em qualquer relação”. Daqui pra frente, diante do Design e do I Ching, confiamos, então, nisto: numa União, num aprendizado mútuo, numa água sobre terra, numa imaginação sincera e na subjetividade de nossas interpretações.

[...] é necessário e recomendável que estejamos atentos ao perigo do que julgamentos demasiado claro. Os dias também findam e o destino de todo saber é conduzir-nos ao não-saber. Só nesse cuidado poderemos cultivar a virtude da modéstia, ressaltada no Hexagrama 15. O estudo do I Ching é um trabalho constante, no qual, mais que um acúmulo de conhecimento, se processa uma crescente conscientização do ignorado. Ao primeiro ano de estudo, em geral julgamentos que estamos sabendo muito mais do que antes. Ao décimo ano, em geral descobrimos que desconhecemos o livro muito mais do que julgávamos. (CORRÊA PINTO, apud WILHELM, 2011)

Referências

WALKER, Brian Browne. O I Ching Fácil – Um Guia atual para os pontos de mutação da vida. São Paulo: Editora Cultrix, 1992.

WILHELM, Richard (Org.). I Ching: O Livro das Mutações. São Paulo: Editora Pensamento, 2011.

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Acerca Anna Stolf
Sou mestranda em Design na UFRGS, onde trabalho no Laboratório de Design e Seleção de Materiais (LdSM) e desenvolvo meu projeto de dissertação previamente intitulado "Livros Dúcteis: aspectos intangíveis da matéria através da não-matéria". Sou graduada em Design de Produto pelo IF-SC, fui pesquisadora no PET Design, e integrante do Design Possível-SC e CORDe Floripa 2011. Meus interesses envolvem poesia e nonsense, com eventuais desvios.

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