A forma além da forma
08/05/2012 2 Comentários
Por que não acredito na forma que segue a função™? Resposta curta: porque não há nada fora da forma.
Resposta longa: é verdade que a forma pode esclarecer determinada função, mas a função nunca explica inteiramente a forma, pois a função foi antes reconfigurada pela forma. A função depende da forma, mas a forma não depende da função.
Não significa que designers devem se preocupar mais com a forma do que com a função das coisas. Significa apenas que a forma nos mostra algo sobre as coisas que a função não mostra – a saber, a possibilidade de uma nova forma e função.
O advento do iPad, por exemplo, não trouxe nenhuma função inédita; sua maior inovação foi ter introduzido uma forma nova a funções velhas que, assim, ganharam novos significados.
O mesmo aconteceu com o advento do carro, do telefone, da lâmpada elétrica etc. – formas novas que mudaram o modo como entendemos funções velhas. A forma não seguiu a função, mas a própria forma construiu a função de si mesma. Acontece que essa última ideia é tão antiga quanto a tradição funcionalista contra a qual ela critica. Isso porque, em última análise, forma e função são valores morais – o que se verifica pelo simples fato de (ainda) discutirmos sobre tal dicotomia no design.
Ao propor um método genealógico como via alternativa à ontologia, Nietzsche não apenas quis mostrar a interdependência entre história e valores morais, mas também queria desnaturalizar a moral. Ou seja, o bem e o mal não são valores “naturais”, percepção esta que exigiria uma (trans)valoração dos valores socialmente produzidos e fixados. Forma e função, neste sentido, interagem como potenciais desencadeadores de ações, e não como valores inexoráveis, fora do alcance da intervenção humana.
Os movimentos anti-funcionalistas (Memphis, Less is Bore, Kitsch etc.) não diziam que o funcionalismo é errado. A mensagem era outra: “somos mais funcionalistas que os próprios funcionalistas, pois levamos a cabo consequências funcionais que eles não conseguem assumir”. Ou seja, a própria forma desse argumento continua sendo funcionalista e, portanto, o funcionalismo permanece vitorioso mesmo quando é derrubado.
Trata-se de um raciocínio inversamente análogo aos movimentos anti-racistas da atualidade. Tenta-se anular a função racista inicial, mas a forma continua a mesma – o que é claramente dito na frase “para o negro há somente um destino, e ele é branco” de Frantz Fanon, um filósofo negro que desde a década de 1950 criticava o anti-racismo politicamente correto.
O funcionalismo também pode ser comparado à libertação colonial da Índia – após a dominação britânica, os indianos se libertaram das restrições de sua própria tradição indiana. É neste sentido que deveríamos encarar o funcionalismo: somente se admitirmos os efeitos positivos de tal ideologia é que seremos finalmente livres e maduros o suficiente para abandonar o estigma da forma que segue a função.
Não pretendo construir uma crítica aqui – isso eu fiz em minha dissertação, nas páginas 287-299 – e reitero que não se trata de abandonar as noções de forma e função, apenas de enxergá-las de outro modo. Tentarei esclarecer, pois, um dos possíveis modos de encará-las.
Suponha que você é fã de uma banda e que está prestes a assistir um show dessa banda. Você poderia levar uma câmera de vídeo e várias baterias pré-carregadas, procurando com isso registrar o evento para que você possa revê-lo posteriormente. Ou você poderia simplesmente assistir a banda tocar, desviando-se das inúmeras câmeras que estarão na sua frente.
Para o filósofo Henry Bergson, a segunda opção nos forneceria uma vivência mais direta do que a primeira, pois o fluxo da experiência seria mais entendido em termos de tempo do que de espaço. Não se trata de duas experiências diferentes, mas de dois aspectos possíveis de uma mesma experiência, conforme Deleuze (1999, p. 127) nos explica:
“um deles é tal que o movimento tende a se congelar em seu produto, no resultado que o interrompe; o outro sentido é o que retrocede, que reencontra no produto o movimento do qual ele resulta”.
A configuração do espaço só pode ser encontrada sob a configuração do tempo, de tal modo que o dado imediato (o show ao vivo) não é imediatamente dado, mas sempre reencontrado, coexistindo com o passado. Mas é precisamente essa impressão de “imediato” que nos interessa, pois é nela que forma e função se diferenciam.
Assim como os conceitos bergsonianos de matéria e duração, a forma e a função não precisam se distinguir como duas coisas, mas podem, ao invés disso, ser entendidas como dois movimentos, duas tendências, como a distensão e a contração de uma mesma coisa.
É preciso considerar que estamos inicialmente imersos em circunstâncias particulares (funções), tais como as suposições de onde estamos, de quem somos e do que fazemos. Tais circunstâncias são inseparáveis de nossas expectativas futuras e nossas lembranças do passado (formas), ambas constituindo uma mesma duração (que em si mesma é forma).
Enquanto a função é um movimento de contração, congelamento e delimitação, a forma é um movimento de distensão, dilatação e abertura. O que vai determinar se alguma coisa contrai-se pela função ou se dispersa pela forma é o modo pelo qual essa coisa se realiza, se atualiza ou se faz.
A divergência de direções não acontece simplesmente por uma resistência de funções, mas antes por uma força da qual a forma é em si mesma portadora: a duração do instante – e, portanto, de qualquer função ou circunstância.
Disso decorre que as experiências não são apenas um conjunto de formas (isso seria o virtual), mas uma relação de funções entre instantes mediados por formas. As coisas e as pessoas, pois, constituem um enredo sem fim nem finalidade. É neste ponto que esta concepção se diferencia do funcionalismo tradicional e do anti-funcionalismo que, cada qual a sua maneira, compreendem o mundo real e concreto como algo dado e não como a realização/atualização de um virtual, de uma forma.
O real é uma atualização da virtualidade, e não o contrário. Não se trata de platonismos – claro que o virtual não é real, mas nem por isso deixa de ser um modo de durar, de formar e de realizar. O virtual/forma não se constitui antes ou depois de ter sido real/função, mas ambos coexistem como duração.
É como se fosse um “cone temporal” em que o instante do aqui e do agora é somente o grau mais contraído do passado (que se converge) e do futuro (que se diverge).
Creio que a maior implicação dessa perspectiva no design concerne à noção de “solução”. Tendemos a definir a solução como sendo o resultado virtual de um processo sucessivo (tipo a forma que segue a função), mas ela só é efetivamente sucessão real por ser coexistência virtual. Parte-se de um problema supostamente dado, supostamente real. Mas a solução (virtual) para a qual todo o processo é direcionado faz com que o problema se atualize a cada etapa, de tal modo que a forma da duração vai reconfigurando as coordenadas que determinam tanto o problema quanto a solução.
Em todo caso, podemos inferir que geralmente há mais falsos problemas do que falsas soluções.
A solução supõe um movimento que a inventa ou cria, e que esse movimento deve ser concebido como uma contra-forma do problema. Mas se o problema é constantemente atualizado pela solução (a função é continuamente atualizada pela forma), o que projetamos é outro problema que em seguida é retroprojetado sobre o movimento da solução.
Temos que manter em mente que há uma diferença de natureza entre problema e solução, assim como entre forma e função, ainda que tal diferença seja apenas direcional. A realidade de um problema não passa da afirmação de uma virtualidade que se realiza, e para a qual realizar-se é inventar.
Com isso quero dizer que nosso maior trabalho enquanto designers é inventar e reinventar problemas, não soluções. O problema é o próprio projeto que se realiza ao mesmo tempo em que a solução é nele atualizada.
Se a solução coexiste como forma do problema, se o real é o grau mais contraído do virtual coexistente, eis que a forma, por determinar o ponto preciso onde a função se contrai em direção ao passado ou ao futuro, se define como aquilo que muda sempre de direção.
A forma não possui fim nem finalidade e, por isso, é um fim em si mesmo. E quando conseguimos sincronizar a realidade com sua forma virtual, são as próprias coisas que recebem novas funções, redistribuindo-se e reconfigurando-se de outros modos.
A forma, portanto, pode muito bem ser um passo decisivo na ultrapassagem do dualismo forma x função, mas sem desempenhar o papel de síntese transcendente (ela ainda é uma das partes do dualismo) e sim o de diferenciação e atualização.
Isso se traduz, em um primeiro momento, em nossa relação com o real, que então se torna um reflexo do sujeito, e não mais o contrário. Ou seja, não é mais o trabalho que realizamos que diz o que nós somos, mas somos nós que passamos a dizer o que o trabalho (a sociedade, a vida e nós mesmos) significa para nós.
Podemos ainda não ter as respostas, não importa, o que queremos é (re)formular as perguntas.
Em um segundo momento, esta concepção de forma presume a aceitação de uma “dimensão estética” da vida – como o amor fati de Nietzsche –, onde o sentido das coisas não se impõe como função do real nem é dado como uma forma virtual, mas se instaura na troca entre essas duas esferas.
É um ato de articulação formal para se compreender e se reconfigurar o que se vê e o que se sente. Sobretudo, parafraseando Fernando Pessoa, é indagar se a realidade é a lembrança de uma partida ganha ou a expectativa de um jogador melhor.
Referência Utilizada:
DELEUZE, G. Bergsonismo. Trad. Luiz B. L. Orlandi. São Paulo: Editora 34, 1999.







Acompanho o blog faz um tempinho e ontem aconteçeu algo interessante: Li esta última postagem e fiquei com estas questões na cabeça. Eis que na parte da tarde, passei por uma banca de livros e encontrei “Design para um mundo complexo” do Rafael Cardoso.
Logo no inicio ele aborda a forma, o ‘mundo real’ e o mundo complexo, compressão e complexidade. Me pareceu bem complementar as ideias acima. Estou começando a leitura, mas ja indico!
Embora goste deste “mundo”, não sou designer, estudo jornalismo. Mas acho que minha profissão tem um exemplo sobre o que fala o texto: jornalista tem uma tara por “escrever simples” e pelo “imediato”, é quase um fetiche. Argumentam que isto é uma resposta à, digamos assim, uma demanda da sociedade contemporânea. Não acho que estão totalmente errados, mas acredito que a forma como escrevemos e produzimos conteúdos é também parte desta demanda, ao meu ver, a maior delas.