Neoliberalismo econômico e outros problemas na Espaçonave Terra – Parte 1
12/05/2012 8 Comentários
Primeiro ato: Alguém faça o teste, um jovem de 23 anos com conta no Stumble versus um veterano de guerra com mais de 75 anos, qual dos dois conhece mais fatos aleatórios
A enceradeira tem esse nome por que o papel dela no universo é encerar o chão. Quando você conecta uma enceradeira na tomada e aperta o botão “liga ou desliga” dela, um disco na parte inferior começa a realizar movimentos circulares que lustram o chão. O cara que inventou a enceradeira colocou apenas esse movimento nela por que seu intuito devia ser, de fato, criar algo capaz de encerar o chão, e pronto. Quer dizer, você pode invertê-la e usar como toca discos, mas tal ação o faria digno de se tornar uma promessa a ser o novo Mr. Bean mais do que um gênio da música. Tirando isso, a enceradeira serve só pra encerar o chão. As pessoas enceram o chão para que ele fique limpo, já que sujeira no chão é uma coisa que pode causar doenças. Outras coisas que causam doenças: alimentos de procedência duvidosa, tomar banho e sair com cabelo molhado no vento, jornadas de trabalho estressantes.
Você não pode pedir para uma enceradeira lhe fazer um omelete por dois motivos muito simples: primeiro, ela não tem os instrumentos necessários para o manuseio dos ingredientes e ferramentas que produziriam um omelete. Talvez ela tenha acesso a esses ingredientes, mas não possui mãos para misturar eles, por exemplo. O segundo motivo é por que uma enceradeira também não tem um banco de dados capaz de processar a informação que a faria capaz de compreender e aplicar o processo de criação de um omelete. Isso também leva a concluir que ela tampouco seria capaz de aprender tal processo, visto que a única coisa que consta no banco de dados dela é esse movimento mecânico de girar a escova que encera o chão. Por isso, você pode trancar uma enceradeira em um quarto com todos os ingredientes e ferramentas para produzir um omelete por dez longos anos que ainda assim você nunca terá o tal omelete (1). Não existe um consenso sobre a quantidade de ovos correta para um bom omelete.
Entretanto, trancar um ser humano em uma sala nas mesmas condições o faria aprender a fazer um omelete em bem menos tempo. Isso acontece por que, ao contrário de uma enceradeira, o ser humano tem a capacidade de aprender coisas. A capacidade humana de aprender coisas é tão notável que é dito inclusive que é possível ensinar indivíduos que cometeram alguns crimes a se reajustar na sociedade como sendo pessoas de bom coração, embora isso não pareça dar muito certo da forma como tem sido feito nos últimos séculos.
O ser humano também tem muitas outras capacidades. Podemos citar: correr, pular, pular correndo, construir bombas, preparar argamassa, usar as bombas pra destruir a argamassa que preparou antes, encaminhar e-mails com apresentações em powerpoint com fundo musical do John Lennon para seus amigos. Entretanto, nunca existiu alguém que conseguisse realizar todas as coisas que um ser humano é capaz de fazer por que algumas levam tempo demais para aprender e acabamos morrendo antes disso. As pessoas morrem por muitos motivos, como por exemplo: ser mordido por tubarão, ser atingido por míssil, comer frutas venenosas, envolver-se com a máfia, atingir idades muito avançadas, terremotos. Cria-se então a dicotomia cruel porém maravilhosa que é a noção de que podemos fazer qualquer coisa, mas que temos que escolher fazer apenas o que está ao nosso alcance. A morte obriga-nos a escolher como será a nossa vida.
É de se supor que em tempos menos marcados por bombardeios de informação diária, fosse um pouco mais fácil definir o que estava e o que não estava ao alcance das pessoas. Aliás, isso se torna ainda mais provável levando em conta que em tais tempos também havia um número muito menor de pessoas. Ou seja, as duas grandes vantagens de ter nascido nos últimos 60 anos é que, primeiro, você pode ter acesso a textos de ótima qualidade em blogs sobre filosofia do design sem sair do conforto da sua casa e, segundo, você pode ter mais de 5 bilhões de amigos. Sendo mais específico e de acordo com os dados da ONU (2), desde o início desse ano já ultrapassamos a marca de 7 bilhões de almas humanas nesse planeta. Essa situação é mais bem explicável com a ajuda desse gráfico abaixo:
Alguns pontos interessantes: só chegamos ao primeiro bilhão em 1804. Isso aconteceu, conforme explica Carl Sagan em seu último livro, “Billions and Billions”, por que a população humana cresce em progressão geométrica, e não aritmética. De acordo com seus cálculos, bastam 50 anos para que a população dobre em seu número atual. Isso significa que em 2062 seremos… 14 bilhões de pessoas arrastando correntes na superfície desse planeta? Talvez. Outro fato curioso é que, após esse “boom” populacional, existe uma probabilidade desse crescimento estabilizar, ao invés de crescer desenfreadamente ad infinitum. Se isso acontecer mesmo, abre-se o pressuposto de que alguma força universal auto-reguladora deseja que a população humana deste pequeno planeta não ultrapasse os 8 bilhões. Sobre os insetos, já não podemos dizer o mesmo.
Que força seria capaz de tal feito? Natureza, é você? Vou dormir, por favor, acordem-me em um domingo quando já estivermos na marca dos 8 bilhões para ver o que estarão falando sobre isso no Fantástico. Mentira, não quero que vocês assistam Fantástico. Outras coisas que eu não quero que vocês assistam: CQC, o programa do Datena, toda a programação da Globo, o filme “The Wicker Man”.
Intervalo: Seria o perigo de ameaça alienígena uma invenção do Estado?
Preocupa-me o fato de que, se a Terra for alvo de uma invasão alienígena, provavelmente nossa única vantagem como defensores desse terreno seria a superioridade numérica, e não uma super-equipe de heróis e assassinos russos.
Segundo ato: Fenomenologicamente, praticar bungee-jumping é um hábito bastante aceitável.
Voltando ao assunto, enceradeiras. Depois que uma enceradeira quebra ou pára de funcionar por que está muito velha, os possíveis destinos que podem ser a elas dados por seus donos vai desde o latão de lixo que fica fora de casa até a reutilização feita por algum artista plástico que deseja criar algo com interpretações tão obscuras quanto as cavidades de suas axilas. Seja lá como for, uma enceradeira que não encera mais o chão é descartada de alguma forma. Ela perde a utilidade. Ela vira um item “rejeitado”. “Descartado”. “Execrado”. Tal destino triste e cruel acontece por que a enceradeira não aprendeu a fazer outras coisas nesse meio tempo entre sua criação e seu descarte.
O ser humano, pelo contrário, pode aprender muitas coisas antes de ser descartado. Na verdade, algumas correntes teóricas pregam que o ser humano é um ser criativo por natureza, ou seja, sua capacidade de criar coisas (inclusive modelos mentais) já vem embutida nele a partir do nascimento, como um carro que já vem com vidro elétrico. Outras coisas que já nascem com o ser humano: olhos, cérebro, pés, mãos. Tal e qual essas outras coisas, a capacidade criativa do homem também se desenvolve a medida que ele cresce e ela faz com que ele, ao contrário de sua amiga enceradeira, consiga aprender coisas além do que imaginava que poderia um dia aprender.
Cria-se então o termo “criatividade”, tão mal interpretado e subestimado. É muito comum, ainda mais se você carrega a nomeclatura “designer” antes do seu nome, ouvir de outras pessoas que nossa profissão só tem gente “criativa” e que elas gostariam muito de terem toda essa “criatividade” também. A boa (e velha) notícia é que não existe alguém não-criativo. O que existe são pessoas que, por uma série de fatores sobre os quais não falaremos nesse post, possuem essa capacidade mais desenvolvida do que em outras pessoas. Coisas da vida.
Obviamente, o ser humano não é uma máquina de aprender aleatoriedades. Ou pelo menos não deveria ser. Outro aspecto que já vem embutido em nossa “essência” (3) é a capacidade de sentir emoções. Trocando em miúdos, ao longo da vida descobrimos coisas que gostamos de fazer e coisas que não gostamos. A tendência é que aos poucos, as coisas que gostamos de fazer sejam feitas com mais frequência, e essa frequência acaba por empurrar tal tarefa alguns passos mais próxima da perfeição. Claro, é possível também ser expert em coisas que não gostamos nem um pouco de fazer, mas a forma como nossa sociedade comunica às pessoas que é válido que elas continuem sendo muito boas fazendo algo (vulgo dinheiro) causa motivação para que isso, no fim, seja mero detalhe.
A existência de cebolinhas em conserva para vender no mercado é a prova concreta de que esse espectro de emoções recorrente ao ser humano manifesta-se de formas muito esdrúxulas. Aqui entram em cena as outras seis bilhões, novecentas e noventa e nove milhões, novecentas e noventa e nove mil, novecentas e noventa e nove pessoas. Dentre elas, talvez uma, talvez várias, compartilhem os mesmos gostos esdrúxulos que você, caro leitor. A origem de tais gostos pode ainda ser alvo de polêmicas (4). É por isso que tais pessoas, por enquanto, não são importantes para esse nosso texto. Vamos falar da galera que gosta das coisas que nós não gostamos. Eles são bem importantes.
Intervalo: Investimentos financeiros para provar a possibilidade de uma meta-metáfora. Dou-lhe uma, dou-lhe duas…
Outras coisas cuja existência justifica a ampla abrangência do espectro das emoções: uvas passas, sertanejo universitário, torcidas organizadas. Programa do Ratinho, estequiometria, sorvete de melancia, Monty Python, Padre Marcelo Rossi, os dezessete filmes da franquia “Jogos Mortais”.
Terceiro e último ato: então quer dizer que os jornais repetem o horóscopo a cada três meses… faz todo sentido
“Se todos podemos aprender qualquer coisa, então por que ainda existem engenheiros?”. Parece que a situação dramática de muitas aventuras da Sessão da Tarde segue o protocolo: o cara que é bom em fazer armadilhas alia forças com o cara que é bom em imobilizar pessoas, mas nenhum dos dois têm dinheiro e por isso eles arranjam o terceiro membro do grupo no centro acadêmico de algum curso de direito de universidade federal e por aí vai. No fim o grupo conta com quinze pessoas e cada uma sabe exatamente o que fazer na situação certa. Estou criando isso do nada, mas essa situação é bastante identificável também na vida real. Além da criatividade e do lado emocional, dentre tantas outras coisas o ser humano também demonstra um forte senso de sociedade. “Sociedade” é o que acontece quando as pessoas estabelecem uma relação de proximidade em prol de um bem comum. A sociedade acontece também em alguns animais, e convenhamos que a enceradeira sozinha não é suficiente para limpar a casa.
Por favor, não desconectem a internet, não vou mais falar de enceradeiras.
A existência de pessoas que são extremamente boas fazendo coisas que você não consegue gostar é extremamente louvável (5). Por causa delas, grandes feitos puderam ser realizados pela humanidade. Isso demonstra que a criatividade acaba tornando-se muito mais do que um aspecto mental do ser humano: ela é um fator social poderosíssimo. Aliar habilidades com pessoas que suprem as que nos faltam é uma característica fundamental do sucesso. Outras características fundamentais: capital de giro, marketing boca-a-boca, apoio da família e um óculos escuro com armação dourada. No fim, o potencial criativo torna-se um elemento de construção da sociedade, e a sociedade torna-se um elemento de potencialização criativa. É um fator cíclico. Olha que bonito.
Perceber isso é aceitar que não importa o quanto sejamos bons em algo, sempre existirão coisas válidas a serem aprendidas esperando por nós nos livros da fileira de baixo da biblioteca. Clicar no botão “random article” da wikipédia pode ser uma aventura interessante, errar o caminho de casa também, puxar conversa com estranos na parada de ônibus igualmente, etc etc.
Esse post aborda de forma não muito profunda a relação da humanidade como um todo com a capacidade de cada indivíduo de criar e usar essa criatividade como fator social. No próximo capítulo, vamos acompanhar o comportamento sexual de alguns animais da amazo… brincadeira. No próximo capítulo, vamos descobrir como essa capacidade criativa sofreu uma distorção e deu lugar à essa corruptela que hoje serve como um dos fatores determinantes para essa estratificação injusta da tão promissora sociedade que poderíamos formar. Sintam-se convidados a contribuir com sugestões. Bis bald!
Notas:
1- Certa vez um grupo de cientistas australianos decidiu colocar à prova a conjectura de que um grupo de macacos trancados em uma sala por uma quantidade X de tempo seria capaz de escrever uma cópia de alguma obra de Shakespeare se em tal sala também estivesse um computador ligado. Após 5 horas, os cientistas abriram a sala e se depararam com um computador coberto de fezes, sem o mouse, com algumas teclas faltando e com três linhas da página do Microsoft Word (deixada propositalmente aberta) prenchidas com as letras “f” e “g” repetidas vezes.
2- É claro que é possível fazer esse cálculo,com base em estimativas e aumentos proporcionais. Para mais informações: http://www.npr.org/2011/10/31/141816460/visualizing-how-a-population-grows-to-7-billion
3- Um dos primeiros filósofos que chegou a dissertar sobre o significado do termo essência foi Aristóteles. Para ele, a definição da essência partia de sua contra-posição ao “ser”, que a compreende como “qualidade empírica das coisas”, ou seja, seus aspectos primários e imutáveis. Esse significado já é bom para interpretar o termo utilizado no texto, mas eu não gostaria de estabelecer nenhuma relação dualista do tipo “corpo versus espírito”. Pra mim é tudo muito integral.
4- A opinião deste autor é de que a origem é majoritariamente inconsciente, porém invocar Jung em dois textos seguidos seria sacanagem.
5- Motivos emocionais não são os únicos que nos impossibilitam de gostar ou de aprender algo. Podemos mencionar também fatores socioeconomicos, fatores de acessibilidade ou professores idiotas.












Interessantes tal abordagem do potencial criativo da sociedade como fator de gerações de novas aplicações e conhecimentos, tal artigo já é exemplo disso. Muito bom pensar nisso para contribuir com outros indivíduos.
… Interessante a nota 1, sobre os cientistas australianos… será que são os mesmos que li certa vez em um artigo, no qual eles teorizavam sobre qual a melhor forma de empurrar ovelhas? (… eles concluíram que a melhor forma era usar um declive, e coloca-los – as ovelhas – sobre rodinhas…)
A enceradeira é um objeto que me fascina. Tive a oportunidade de desenhar uma para a Arno, nos velhos tempos em que ela era requisitada pela classe média.
Ledo engano seu que ela servisse somente para encerar o assoalho…era também um excelente mecanismo para exercitar a musculatura geral das mulheres além do “women’s pride”!
Foi somente após sua extinção que surgiu aquela famosa franquia Curves, hoje frequentada por aquela e por outras classes!
Acho que v. precisa instruir-se mais sobre a história geral do design antes de escrever seus artigos….
Abraços
Olá olá, querida leitora Suzana!
Deveras perspicaz. Está fora do meu alcance tentar contra-argumentar, já que eu de fato nunca projetei uma enceradeira. Entretanto, devo apontar que uma melhora no tônus muscular é observável não apenas em usuários de enceradeiras, mas também em, podemos dizer, cozinheiros dos quatro cantos do mundo por causa do uso de simples colheres de pau, ou em lenhadores por causa do “molejo” empregado pelo movimento do pesado machado.
Por isso, na minha sincera opinião, creio que a pesquisa por tais fatos produza melhores frutos quando procurada em fontes como o seriado “Flying Circus” do Monty Phyton, ou o “Adventure Time”, e não no decurso obtuso da história do design!
Um abraço e obrigado pela participação.
Olá caro Bolivar!
Obrigada por sua rápida resposta. Concordo com você. Se estudarmos a historia do design pura e simplesmente não poderemos saber seus detalhes mais picantes e interessantes. Esses advêm do conhecimento geral de toda a história da humanidade, das biografias dos terrestres e suas peculiaridades.
Até breve…
Extremamente interessante! Vou continuar lendo!
Querido Escobar:
Tenho que ralhar com você novamente! V. não cumpriu com seu dever de casa! Neste seu artigo, v. escreve que a as pessoas enceram o chão para que ele fique limpo. Errado! As pessoas enceram o chão para que ele fique lustroso. Esse é um hábito que vem de longa data nos idos 1.850, iniciado nos Estados Unidos, quando surgiu a classe burguesa. Esta classe queria ver-se no espelho toda a hora, não bastava o espelho do quarto. Precisava ver-se em todos os lugares. Então pensaram no chão. Só que se esqueceram que outras partes inadequadas poderiam aparecer também. Ficaram muito preocupados. Aí entrou a moda. Os franceses que ditavam a moda resolveram lançar a moda de vestidos longos e resolveram a questão. Esta é a origem de tudo inclusive da enceradeira!
Abraços carinhosos de sua professora de história do design…
… então… antes da enceradeira os vestidos eram … curtos ?? ‘_’