As quatro trincheiras de uma guerra sem chão
22/05/2012 6 Comentários
* texto originalmente publicado no Formas do Consumo.
MMA é a sigla para artes marciais mistas, modalidade esportiva que tem se tornado cada vez mais popular através do torneio UFC. Zumbis são criaturas fictícias que representam seres humanos mortos ou infectados, sedentos por cérebros saudáveis. Hipsters é a designação de uma subcultura que fetichiza a autenticidade por meio da negação da cultura mainstream. Por fim, “occupy” se refere aos recentes movimentos sociais de mobilizações e protestos urbanos que não demonstram um posicionamento político bem definido.
São muitas as relações possíveis entre esses quatro fenômenos contemporâneos, mas o “espírito de guerra” que os circunscreve é o que me parece mais sintomático. Embora tal aspecto humano e sua decorrente paisagem apocalíptica já estejam “eternizados” em diversos relatos mítico-religiosos – Babel, Troia, Atlântida etc. –, a aparente ausência atual de guerras “reais” pode estar sendo superada através de sua re-experiência sob a forma de consumo.
Os videogames mais rebeldes da década de 1990 – Street Figther, Mortal Kombat, Doom e Resident Evil – já esboçavam ocupações de rua, torneios mundiais e disseminações zumbi. Em paralelo, a crescente valorização ao bem-estar físico e mental – logo após a guerra do Vietnã, a contracultura e a revolução sexual – culminou numa tendência fármaco-terapêutica focada na eficácia e prevenção. Tornamo-nos reacionários in vitro.
Festejamos a morte das guerras construindo sobre seu cadáver uma constante batalha de “superação de si”, regada a suplementos nutricionais e mensagens de autoajuda.
Ao invés do prazer da gula, a alimentação funcional (dos complexos vitamínicos às doses de café e energético). Ao invés da amizade, a esportividade. Ao invés da conversa, o entretenimento (solitário ou coletivo). Ao invés da filosofia, a instrumentalização do pensamento. Ao invés do medo da morte, a tentativa de prolongar a vida, mas sem pensar sobre ela.
Um dos resultados imediatos dessa proteção ao bullying em favor de uma autoestima invulnerável concerne aos hipsters que, de tanto nadarem contra a maré, acabam gerando um paradoxo identitário retroativo: dizer “não sou hipster” é condição para se tornar um deles.
Dentro da mesma lógica, manter-se alheio a mobilizações de consciência social, solidariedade e humanismo não é motivo para se rechaçar alguém, mas, pior que isso, é para se sentir pena.
O consumo tornou-se uma forma de preencher a própria experiência de consumir: estar solteiro ou desempregado assemelha-se a estar doente; não consumir é o mesmo que estar morto. E a guerra marca simbolicamente essa dinâmica, com a diferença de que sentimos um aparente alívio de não carregar bandeira alguma, de não ter casa para voltar. Marchamos com afinco em direção à liberdade/felicidade, assombrados pela insegurança e solidão de não haver obstáculos a nossa frente.
Acontece que tal diagnóstico não se sustentaria sem a crença prévia, essa sim contagiosa, de que a guerra e todas suas mazelas são o mal em si, que nos tenta a todo instante. Ninguém se sente culpado por suas escolhas, somos sempre vítimas de um suposto jogo preestabelecido. Nenhum fumante vai dizer que fuma porque simplesmente quer fumar. Sabemos muito bem o que não queremos, mas não sabemos o que, de fato, queremos.
Mas se o que queremos já pode ser terceirizado por agências matrimoniais, basta torcermos por um time ou um lutador para que nossas vidas tenha sentido. Esquecemos que, antes de consumirmos objetos, ideias e valores, já estamos sendo consumidos pela vida, que insiste em não nos conceder o divórcio.
Reivindicamos por algum ideal de como a sociedade deveria ser, mas não conseguimos escolher como somos nessa sociedade. Não assumimos que cabe somente a nós a escolha de escolher.
O “espírito de guerra” pertence ao ser humano (não é algo externo a ele) e, portanto, é necessário que ele construa um sentido à guerra. Isso somente é possível, no entanto, se a guerra não for entendida como um enigma e sim como uma resposta a uma pergunta que não conhecemos. Nossa dificuldade hoje não é a de encontrar respostas (elas já estão à disposição de todos), mas a de formular as questões que lhes atribuam sentido.
Respostas eu tenho sobrando: os lutadores de MMA são tão violentos quanto os manifestantes “pacíficos” das ocupações nas ruas; hipsters são aqueles que acordaram de ressaca após uma invasão zumbi. Todos eles não estão destruindo nada, estão apenas ressentidos por um futuro sem guerras que não é exatamente como imaginavam. Mas a questão que me arrisco a propor é: isso tudo não seria o começo de algo ao invés do fim?







Marcos, sou Marcello Montore, editor da AgitProp: Revista Brasileira de Design (www.agitprop.com.br). Obrigado por manter nosso link em seu blog, porém notei que está quebrado pois falta o www. Desculpe usar este canal para me comunicar, mas não encontrei seu e-mail direto. Um abraço. Marcello
Opa, obrigado por avisar Marcello, já tá corrigido =]
abraços
Vai rolar algum post sobre o Filosofia do Design do nos.vc? Não deu pra eu ir, queria ver o que rolou.
Então, infelizmente não conseguimos gravar nada de vídeo/áudio. Mas foi bacana, tentaremos repetir a dose ;]
Lembrei dessa publicação hoje a noite. Enquanto estava vendo o trailer de um filme que vai estrear em breve, e então fui sendo levado pelas curiosas recomendações do youtube. Foi então que reparei que todos os contos de fadas infantis estão se transformando em verdadeiros épicos de guerra. Alice no País das Maravilhas foi apenas o início, estão para estrear João e o Pé de Feijão, e a Branca de Neve, ambos comandando exércitos. Na época da postagem achei muito pertinente o texto, mas agora já percebo que talvez não sejam apenas 4 trincheiras. Enfim, apenas queria dividir aqui o que me ocorreu.
Um abraço, e parabéns pelos textos.
Grande Herminio, tudo bem contigo meu caro? Quanto tempo, saudades. Massa sua observação, vejo essas novas versões do cinema, sobretudo essa proliferação dos super-heróis, como consequências claras de uma paz reinante (na superfície). Esse lance da guerra sem chão tem me chamado bastante a atenção, pretendo ainda fazer uma pesquisa mais aprofundada. Por enquanto, acrescento apenas uma citação de um antropólogo que tenho lido ultimamente:
“É claro que, até certo ponto, todas as sociedades estão em guerra consigo mesmas. Há sempre colisões entre interesses, facções, classes e coisas do tipo; além disso, sistemas sociais estão sempre baseados na busca de diferentes formas de valor, os quais empurram as pessoas em diferentes direções. Em sociedades igualitárias, as quais tendem a colocar uma enorme ênfase na criação e manutenção de consenso comunitário, isso parece, frequentemente, dar origem a um tipo igualmente elaborado de formação reativa, um mundo noturno habitado por monstros, bruxas e outras criaturas de terror. E são as sociedades mais pacíficas as que são também as mais assombradas – em suas construções imaginativas do cosmos – por espectros constantes de guerra perene. Os mundos invisíveis que os envolvem são, literalmente, campos de batalha. É como se o incessante trabalho de alcançar o consenso mascarasse uma violência interna constante – ou, talvez seja melhor dizer, é de fato o processo pelo qual tal violência interna é medida e contida – e é precisamente isso, e o emaranhado de contradição moral que daí resulta, que é a fonte primeira de criatividade social. Não são esses princípios conflitantes e impulsos contraditórios em si que são a realidade última da política, portanto; é o processo regulatório que os media.” – David Graeber (Fragmentos de uma antropologia anarquista. Porto Alegre: Deriva, 2011, p. 48-49).
Abraços =]