sete questões

Pensar sobre design não deve se resumir a pensar relações profissionais de designers: Essas relações não existem sem um contexto. O projetar informa (é mais um dos processos que informam) esse mundo contemporâneo, e na medida em que existe uma escolha mais ou menos política de fazer o design ser paradigmático (tanto como forma de aumentar o preço do serviço quanto como uma justificativa da economia como criadora de felicidade, via “inovação”) as armadilhas de um tipo de pensamento que se limitasse à relações com clientes vão se tornar cada vez mais aparentes. Quero portanto deslocar a atenção para algumas questões interessantes hoje.

1: Matemática, ou a programabilidade

O rápido desenvolvimento do computador nas últimas décadas gerou todo tipo de efeitos não-óbvios. O primeiro deles é que com a miniaturização dos componentes é possível adicionar um computador a praticamente qualquer coisa física onde se possa imaginar um uso para algum tipo de computar. E computar é uma forma de inserir nessas coisas físicas uma qualidade matemática. O que isso gera?

Essa “parte matemática” tende a começar como uma simples adição, sem interferir com a natureza do objeto original. Esse processo é mais facilmente visível na internet. Estamos entendendo a internet como uma mistura de textos (livros, revistas) e programabilidade. A princípio, a internet se baseava em textos estáticos, mas com o passar do tempo a programabilidade do conteúdo se mostrou um potencial muito maior, de forma que cada acesso à uma página gera um novo “olhar” sobre aquele conteúdo, tornando a troca de informações muito mais dinâmica e poderosa.

Da mesma forma, é possível que desenvolvimentos semelhantes existam quando adicionamos programabilidade à outras coisas. Um exemplo interessante é o dinheiro, que vem sendo não só substituído por cartões eletrônicos, mas esses próprios cartões já incorporam chips. E embora as consequências de cada uma das inovações seja sempre benéfica, não há garantia de que o conjunto delas seja, já que cada uma delas altera o mundo em que vivemos, que é exatamente o contexto do design. Nos resta uma aceleração do processo que tende a aumentar a complexidade e diminuir o controle.

2. Crise de Hollywood

Essa aceleração é muitas vezes difícil de compreender. Por exemplo: O aumento da capacidade de produção deveria trazer uma maior variedade na indústria de entretenimento. Exatamente o contrário se passa, na medida em que as enormes quantidades de dinheiro aplicadas nos filmes geram a necessidade de garantir o investimento, e assim produzir filmes com retorno seguro. Mas aversão ao risco impede liberdade de criação. Por isso os filmes da indústria norte-americana se tornam cada vez menos interessantes. Um processo extremamente parecido aconteceu na Atari, que inicialmente criava jogos a partir dos mecanismos eletrônicos mais divertidos, mas que depois de se tornar uma grande empresa passou a basear todos os jogos em franchisings de sucesso mesmo se eles não sugerissem um bom jogo. A empresa faliu. Da mesma forma, Hollywood hoje depende enormemente dos personagens de quadrinhos. Isso simplesmente não faz sentido.

Isso chama atenção para a enorme importância que o Branding tem assumido no design contemporâneo. De forma paralela, esse enfoque tenta tornar as marcas o mais impactantes possível. Aumenta-se (por assim dizer) o volume da mensagem. E isso tende a diminuir a proporção entre sinal e ruído: Exatamente porque todas as marcas são tão reconhecíveis nenhuma delas é muito importante para as pessoas. {Curiosamente isso parece ir totalmente ao contrário do ideal de “simplificação da informação” que guiava a estética de Max Bense.}

A competição por força de mensagens gera um tipo de “corrida armamentista” do volume das mensagens, em que todos tem sempre que aumentar o volume, ou então ficar apagado em relação aos seus concorrentes. Como a Rainha Vermelha da Alice, “é preciso correr bastante para conseguir ficar no mesmo lugar”. Mas o resultado final pode não ser bom para ninguém.

3. Celebritização

A mesma dinâmica parece acontecer também num contexto mais íntimo, na medida em que as pessoas orientam seus relacionamentos numa busca de celebridade. Nossa sociedade constrói a fama como um tipo de liberdade. A fama parece permitir que alguém faça tudo o que desejar, mesmo que ela também tenha um efeito de impedir que a pessoa saia na rua tranquilamente. Ou seja, não é apenas um aumento de liberdade, mas uma relação diferente com ela, com vantagens e desvantagens.

No entanto, exatamente esse tipo de relacionamento orienta a presença mediada dos “twitters” hoje. A presença ampliada por mecanismos de internet torna muito sutil o limite entre contato pessoal e divulgação em massa (ou seja, SPAM). Embora para cada mensagem individual se trata apenas de uma conversa, como outra qualquer, no longo prazo a ferramenta usada tende a aglutinar essa vontade de comunicar-se num processo de “gerenciar uma presença”. E é possível que aos poucos essa atitude acabe envolvendo a vida afetiva das pessoas. Como se passa isso tudo?

A atenção à experiência do usuário parece tentar fazer exatamente o contrário. À primeira vista trata-se de uma valorização da subjetividade. Mas aparentemente isso nos leva à uma situação de “excessivamente meta”, em que acessar os parâmetros da comunicação, ao invés de facilitar o entendimento, acaba esvaziando os pontos de referência.

4. Urbanização

Recentemente a população do planeta se tornou predominantemente urbana, ou seja mais da metade dos seres humanos vivem em cidades. Esse é mais um dos dados desse contexto que tende a se inter-relacionar com todas essas outras questões.

Ao mesmo tempo, essa situação também tende a exacerbar a competição entre seres humanos, já que o tempo necessário para construir relacionamentos recíprocos não existe. E isso acelera e potencializa o gerenciamento de presença e a celebritização. Torna-se necessário buscar constantemente vantagens contra seus semelhantes para se sobressair entre muitas pessoas que tentam utilizar os mesmos recursos. Essa é certamente uma situação em que a criatividade é incentivada, e o resultado geral tende a ser mais do que a soma das partes, mas ainda assim a competição é violenta. A enorme quantidade de pessoas nos coloca numa situação de “hora do rush eterna”, em que estou constantemente na presença de pessoas que nunca vi antes e das quais não sei nada. Essa situação exige um comportamento mais genérico, que de certa forma ignora as características individuais dessas pessoas e as trata como seres abstratos, distantes.

A quantidade de pessoas tende também a trazer à tona as diferenças entre as várias escalas dos projetos. Uma caneta é um objeto pequeno, mas se existem bilhões delas, como isso afeta seu impacto? A internet dá ainda um outro sentido à essas diferenças de escala, usando o eixo da abstração.

5. Combustível

Durante todo o século XX a produção de petróleo aumentou ano a ano, mas em 2008 atingiu um pico e tende a diminuir. Isso já causou enormes consequências econômicas, que tendem a se aprofundar. Por exemplo, o preço de viajar tende a se tornar cada vez menos acessível, a produção local a ser cada vez mais competitiva, e em geral todos os derivados de petróleo tendem a se tornar cada vez mais caros. Alguns desses efeitos podem acontecer num prazo mais longo, mas é possível que outros se concretizem mais cedo.

Como isso afeta uma ideologia de design que tende a ver as formas típicas do plástico injetado como uma qualidade?

Particularmente, na cultura material contemporânea os eletrodomésticos são parte fundamental do cotidiano. Se o gasto energético de tais objetos se tornar inviável, isso pode significar uma mudança na vida tão profunda quanto a que ocorreu quando esses objetos foram incorporados às residências na primeira metade do século passado. Essa mudança envolveu não apenas diferentes formas de agir, mas a ideologia que dizia quais formas de viver seriam boas ou ruins, o que é desejável ou não. Como um projeto se adapta à uma mudança tão básica?

A questão não é apenas a quantidade de energia, mas sua concentração. Aquecer água com energia solar é razoavelmente fácil, mas derreter metais praticamente impossível. Novos arranjos de energia baseados nessas relações pode ser mais difícil do que simplesmente diminuir o gasto.

6. Guerrilha

Uma das consequências do fim do petróleo é o aumento do preço das commodities, explicado pelo combustível usado em diversos dos sistemas de produção contemporâneos. Mas a escassez de alimentos tem uma enorme tendência a gerar guerras.

Os últimos conflitos armados revelaram uma realidade estranha: A simples preponderância de força tem se mostrado muito pouco capaz de realizar objetivos estratégicos. De fato, já na década de 60 os armamentos atômicos se tornaram tão poderosos que simplesmente não fazia mais sentido aumentar sua potência. Mas exatamente por isso eles são inutilizáveis, e de certa forma inúteis (embora esse é um significado algo curioso para utilidade). Exércitos extremamente poderosos tem se mostrado incapazes de forçar a vontade de seus estados contra nações miseráveis, em que o inimigo não é claramente organizado mas uma ameaça difusa. Aí os valores ideológicos e culturais do povo atacado são os verdadeiros dilemas insolúveis.

Num contexto como esse, o ideal de tecnologia apropriada de Papanek se mostra bem mais complicado do que pode parecer à primeira vista. Por exemplo, levar tecnologias simples para áreas em grande necessidade pode ser visto como uma forma de propaganda política, e o uso de equipamentos de guerra avançados serão vistos como a própria razão para resistir.

O contexto de uma guerra de baixa tecnologia vira de ponta à cabeça a ideia de “função”, na medida em que mostra quão supérfluos podem ser produtos que num contexto de mercado parecem importantes.

7. Complexidade

De uma forma ou de outra, todas essas questões acabam relacionadas com o dilema da complexidade.

No mundo acadêmico existem hoje várias correntes estudando a complexidade ao mesmo tempo, cada uma utilizando definições mais ou menos diferentes e abordando problemas diversos. Se trata de um assunto “cabeludo”, em que nenhuma solução é completamente satisfatória, e mesmo o que poderia ser considerado uma solução depende de como se está “problematizando” a questão. Nem mesmo se trata de um “problema” antes de alguém se envolver, e cada pessoa que se envolve gera uma nova perspectiva quanto à interconexão dos elementos.

Por isso uma visão abrangente de qualquer projeto tende a tornar explícitas as tensões políticas envolvidas. A intenção ostensivamente técnica do design, de se mostrar como uma ferramenta necessária, como um serviço de retorno garantido, tem como efeito colateral uma certa aversão a incertezas políticas. Somos levados a enquadrar questões de projeto como problemas, tentando expelir essa incerteza para alguma outra instância “menos projetual”. Mas no fundo o design se beneficia de uma abordagem política: Gerenciar a incerteza melhora o projeto.

Talvez justamente por isso, nenhuma dessas questões pede uma resposta, como se fosse questão de prova. Pelo contrário. Elas mostram como é (ainda) importante pensar. E pensar. E pensar mais um pouco.


Essas ideias foram ajuntadas para o evento “Filosofia do Design: Uma subversão do olhar”, que aconteceu em São Paulo no dia 26 de maio de 2012. A discussão foi bem interessante. Segue abaixo um tipo de resumo chave do que rolou lá. Como vocês podem ver, foi tudo muito básico e bem fácil de entender. Poucas citações ;-)

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Acerca Marcio Rocha Pereira
1 - I like to be criticized 2 - I take my time 3 - I do take it seriously

2 Respostas a sete questões

  1. Mandou bem, meu caro! =D
    P.S.: é impressão minha ou você realmente colocou “pós-modernidade” entre as tags? rsrs
    P.S.2: essas imagens ficam trocando o tempo todo mesmo? Meu deus, 2012 tá acabando..

  2. Bolívar Escobar diz:

    Hehe! Essa de analisar os pequenos fatos amplamente e medir as consequências deles acerca de determinado assunto me lembram muito as matérias do Cracked, que te jogam argumentos como “a crença no inferno é um dos fatores que sustenta a economia moderna” ou “o uso de anticoncepcionais está causando desequilíbrio ambiental”. Jóia :)

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