Neoliberalismo econômico e outros problemas na Espaçonave Terra – Parte 2

Se ninguém visse o sol nascendo, ele nasceria do mesmo jeito? Aliás, se ninguém visse o sol nascendo, alguem conseguiria ver alguma outra coisa? (foto por L. Miyake, via flickr)

Primeiro ato: Alguém faça o teste: escolham algumas expressões aleatórias que ouvimos diariamente (“calorias”, “fumo passivo” ou “terrorismo”) e pesquisem se a primeira aparição delas no mundo foi proferida da boca de um cientista ou de um publicitário.

Segurem essa, subjetivistas: o sol nasce de novo todas as vezes depois que ele se põe. É engraçado constatar que isso pode ser afirmado com uma certeza absoluta, pois provavelmente não existe alguém no mundo que assista o sol se pondo pensando “pronto, agora já era, agora é só lágrimas, adeus”. O sol sempre nasce de novo por que isso é um fato cuja observação gerou uma certeza, digamos, cientificamente comprovada. A ciência começou a funcionar mais ou menos assim. Não sabemos ainda por quê o sol nasce sempre ou que forças fazem o sol nascer sempre, o que sabemos é que de fato, com 100% de chances, ele vai surgir de novo no horizonte amanhã por volta das 6 horas da manhã. Portanto, terminem logo de imprimir esse jornal, escondam depressa todo o ouro, corram para as colinas e continuem fazendo todas as coisas que devem ser feitas logo antes das 6 da manhã.

Essa proto-ciência da observação e constatação foi uma das premissas básicas do surgimento do pensamento filosófico, cujos registros iniciais de que dispomos, ocidentalmente falando, estão escritos em letras gregas. O homem viu o sol se pondo e nascendo novamente mais do que trinta vezes, e pensou, provavelmente por pressão da sua esposa: “se nascer de novo mais UMA vez eu paro de me preocupar com isso e volto a trabalhar”. Criou-se a primeira noção de fato comprovado. Doravante, a criatura que viesse encher o saco por que tinha medo que o sol não nascesse mais seria submetida aos violentos métodos educacionais dos primórdios do neolítico.

O homem estabeleceu então um padrão. A natureza enfiou por entre nossos genes a assustadora capacidade de identificar padrões em meio ao caos do universo. A habilidade de reconhecer padrões, aliada ao ato da observação, foi a fagulha de esperança do surgimento do racionalismo científico.

O primeiro efeito colateral dessa então capacidade foi o impulso a adotar, portanto, um posição sobre o fato que se havia constatado. A ideia de adotar posições advém da catarse inicial do “eu existo e minha existência tem um fim”. Se nada posso fazer sobre o sol que nasce e se põe forever and ever, então pelo menos uma opinião em relação à isso eu preciso ter pra contar pro pessoal do bar mais tarde. Logo, o homem viu que o ato de posicionar-se em relação à algo, comportando-se tal e qual um fenômeno recorrente da natureza, merecia ser visualizado dentro de um padrão também.

“ueeeee??”

E parece que foi aí que a bagunça começou.

Estou criando uma linha lógica de raciocínio que obviamente exclui o surgimento de diversas outras estruturas cognitivas e conscientes do ser humanos, mas o ponto é esse: a adoção de posições em relação aos fenômenos da natureza (vulgo “filosofia”) evoluiu dialeticamente para os diversos campos de conhecimento que hoje visam investigar a mesmíssima natureza em diferentes níveis e dimensões alcançáveis pelo aparato tecnológico humano. Incialmente, registros arqueológicos fazem-nos acreditar que os povos antigos adotaram uma posição bastante espiritual (1) em relação ao sol. Hoje, a informação de que ele não passa de uma gigantesca bola de hélio e hidrogênio explodindo a oito minutos-luz da nossa cara é acessível facilmente via wikipedia. Talvez o sol ainda seja grande motivo de significância para muitas pessoas, e tal e qual sua beleza e grandiosidade ainda são capazes de gerar estupor, entretanto, nossa posição em relação a ele, como humanidade, decresceu de “o senhor absoluto que governa a vida” para “mais uma dentre tantas outras estrelas. E nem tão grande assim. E use esse fator 50 antes de sair na rua ao meio-dia”.

Esse conflito de posições levou o homem a um meta-questionamento: como saber se o meu método de se posicionar em relação às coisas é certo? Como saber se minhas certezas não são só minhas? Eu quero dizer, será que o sol vai nascer amanhã de novo… mesmo?

Em dado momento, o simples método de observação e identificação de padrões passou a não mais ser tão poderoso quanto outras formas (2) de tirar conclusões sobre os fenômenos do universo, ou passou a apresentar lacunas que precisavam ser preenchidas com métodos explicativos mais eficazes. Pelo menos nessa galáxia existe um planeta no qual a raça mais inteligente não parece ter evoluído em conjunto na arte de pensar a respeito das coisas que a cerca.

Saltando da época das origens do pensamento filosófico para a idade média (3), a posição adotada em relação à um peculiar conceito humano foi um dos nortes de particamente todas as teorias econômicas que hoje são objeto de estudo e debate mundo afora: o conceito de “culpa” e “punição”. O paradigma ocidental adotado durante grande parte do medievo em relação à culpa era extremamente atrelado à divindades metafísicas. Mesmo com o surgimento dos primeiros estudos ditos humanistas na época do renascimento, a questão religiosa ainda era bastante atrelada aos conceitos explorados pelos estudiosos naquele momento do tempo. A igreja católica exerceu influência nessa área ao pregar a existência de uma divindade absoluta que punha-se acima dos homens e comandava-os de acordo com pressupostos como bondade, caridade e obediência.

Curiosamente, a presença desse “espírito supremo” (vulgo “Deus”) gerava base para posicionamentos filosóficos igualmente divinos para questões bastante humanas. Até hoje existem fortes discussões acerca da existência ou não de livre arbítrio (4), por exemplo, mas nesse ponto, a figura divina ocupava um claro posto de “governante” sobre as ações dos homens. E é aqui que entra o personagem principal do capítulo de hoje: Immanuel Kant.

Intervalo: ainda sobre uma possibilidade de invasão alienígena
Vamos supor que, após décadas de monitoramento, eles descubram que realizamos um evento global a cada quatro anos envolvendo esportes e, ao invés de um ataque violento, apenas convidem-nos para a mais decisiva partida de ping-pong dessa dimensão?

Segundo ato: pare de reclamar. Graças à sua limitação humana, você está lendo isso letra por letra, e não pixel por pixel.

Existe alguma forma de sabedoria no mundo tão inegável que nenhum homem poderia jamais duvidá-la?

Kant nasceu em 1724, na Alemanha, e se tornou famoso não apenas por que fazia caminhadas todos os dias religiosamente nos mesmo horário (a ponto de seus vizinhos ajustarem o relógio quando o viam passando), mas também por que focou sua abordagem filosófica não mais nos objetos vistos pelo homem, mas sim na forma como homem via os tais objetos. Ele é considerado um marco na história da filosofia e um dos mais influentes pensadores da era moderna.

O responsável por popularizar a expressão “pensando com seus botões”

Sua teoria é vista como única e encarada de fato como uma filosofia “pura”: Kant percebeu que o papel da filosofia, muito além do que entender a realidade, era investigar também a realidade de quem a observa – no caso, os seres humanos. Quando Descartes falou que “penso, logo existo”, Kant o rebateu, mais tarde, dizendo que na verdade, o que torna o homem real não é o seu pensamento, mas sim os pensamentos sobre aquilo que ele está pensando, e assim por diante, dando à filosofia não mais o papel meramente investigativo acerca da natureza das coisas, mas sim um papel de constante reflexão acerca inclusive das mais profundas certezas que o ser humano pode vir a ter sobre si mesmo e as coisas que o cercam.

Obviamente, para a igreja, cujos dogmas ainda exerciam fortes influências na forma de pensar das pessoas da europa Moderna, isso caiu como uma bela vassourada na cabeça. Em sua mais renomada obra, Crítica da Razão Pura, Kant segue seu raciocínio no que se refere às instituições religiosas, alegando que o homem deve buscar uma “emancipação de sua própria imaturidade”. Isso significa, basicamente, que a necessidade de uma instituição religiosa já não deveria mais existir, e que ela, na verdade, mais atrapalhava do que ajudava na hora do homem estabelecer “relações” com suas crenças divinas. Nessa estrutura meta-teórica da mente, o homem deveria não mais ser um “escravo” de conceitos pré-concebidos externamente e que deveria não mais buscar a “liberdade” no meta fisicismo, mas sim dentro de sua própria cabeça. Isso faria sentido por que o homem interpreta o mundo de acordo com suas limitações: nós vemos apenas aquilo que conseguimos interpretar, e um homem vestido de branco segurando uma Bíblia acabava limitando mais ainda essa nossa visão.

Essa forma de pensar surgiu como uma nova interpretação da ideia de punição e livre-arbítrio. O homem tornara-se indiscutivelmente responsável pelos próprios atos. As amarras religiosas que ultrapassaram a idade média então estavam finalmente desatadas, as ideias de ética e moral já poderiam ver-se separadas de uma base religiosa e o conceito de secularismo, que já desde a Grécia antiga ganhava forma, passou a cada vez mais adquirir adeptos por entre os pensadores (5). O conceito de “culpa” e “punição” era revisitado: o que é ser “culpado”? Se o homem é responsável pelas suas ações, quais são os fatores que definem a forma certa de julgá-la? Isso cai diretamente na forma de encarar a realidade em si, não mais divinamente influenciada, mas sim naturalmente determinada em um universo não regido por forças maniqueístas, mas sim puramente probabilístico.

Resumindo, Kant mandou muito bem nessa e eu só expliquei tudo isso por que tal “evolução” filosófica de pensamento foi um fator-chave que determinou as estruturas sociais nas quais hoje você, nobre leitor (ou não) designer (ou não) está inserido. Nesse texto, vimos como Kant contribuiu de maneira singular para a evolução de conceitos como “livre-arbítrio”, “punição” e “pensar com seus botões”. Isso tanto o fez famoso no universo como foi também suficiente para colocá-lo na lista negra da Igreja (juntamente com nomes atualmente conhecidos como Bill Gates, Walt Disney e Compadre Washington).

No próximo e último capítulo dessa jornada misteriosa, vamos usar os conceitos de criatividade e punição para entender o que um homem chamado Buckminster Fuller estava tentando dizer.

Notas:

1- Vide a numerosa turma de deuses solares adorados por civilizações antigas. Ao projetar no sol um peso espiritual, ficava evidente a importância a ele dada pelos homens. O homem arcaico tende a divinizar seus stakeholders.

2- A tendência a atribuir valores sobrenaturais às coisas surge antes da tendência a questionar sua casualidade natural no cérebro humano, e existe uma razão evolutiva pra isso. Aliás, isso não torna nem um nem outro certos ou errados.

3- Obviamente, quando fala-se em “idade média”, estamos falando do ocidente. Em lugares como a China ou civilizações pré-colombianas, não foi igual.

4- Não vamos cair no abismo das discussões existenciais agora. Como diria Vonnegut no seu “Matadouro 5″, “já passei por 33 planetas e li relatos de outros 100 e aqui na Terra é o único lugar no qual encontrei qualquer menção à esse tal de livre-arbítrio”.

5- Entende-se por secularismo a separação entre a religião e as demais instituições como governo, ensino ou economia. O conceito tem suas raízes na filosofia grega, de fato, mas tem diversos adeptos posteriores (Locke, Spinoza, Bertrand Russell) e  pensar dessa forma significa admitir que as decisões do homem deveriam não ser embasadas pela religião.

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Acerca Bolívar Escobar
Bolívar Escobar (21) nasceu em Erechim, no Rio Grande do Sul, e atualmente vive em Curitiba. Está prestes a se formar em design gráfico pela UFPR. Não é especialista em nada. Mais palavras suas podem ser encontradas no www.jojoca.tumblr.com e em seu Twitter (@bolivarescobar).

4 Respostas a Neoliberalismo econômico e outros problemas na Espaçonave Terra – Parte 2

  1. Salve Bolívar! Bem bacana o texto, sobretudo o modo pelo qual você introduz Kant, bastante didático e objetivo. Sem falar em seu estilo descontraído de escrita, sempre muito bem-vindo. Quero apenas acrescentar minha reles opinião sobre Kant.

    A princípio, e sendo bem direto, não acho que ele tenha sido tão importante assim. No fundo, tenho a impressão que Kant era tão religioso quanto Descartes. Não tenho nada contra ele ser religioso, mas ele simplesmente inventou aquela desculpa esfarrapada do “empirismo transcendental” que, no fim das contas, simplesmente reitera o objetivismo racional de potencialidades (gestos, afetos e percepções diversas) “puras” e impessoais. Com isso, temos apenas uma nova versão da oposição ancestral entre realismo e idealismo: o campo “puro” da virtualidade é efeito dos corpos que interagem ou, ao contrário, os próprios corpos materializam-se a partir desse campo de virtualidade? Os pós-kantianos, tipo Schelling, parecem ter concluído a segunda opção.

    Em Deleuze, trata-se da mesma oposição entre a “Lógica do sentido” contra “O anti-Édipo”: no primeiro livro, o fluxo do “puro” devir seria efeito imaterial (nem ativo nem passivo) do intrincamento de causas materiais corporais; no segundo livro, as próprias entidades corporais seriam produto do puro fluxo do devir do sentido. Particularmente, creio que outros filósofos como Heidegger, Merleau-Ponty ou Bergson, cada qual à sua maneira, foram mais “revolucionários” que Kant ao declararem o seguinte: o fato primordial é o fluxo puro da experiência em si, não atribuível a nenhum sujeito em particular, não subjetivo nem objetivo – sujeito e objeto, como todas as entidades fixas, são apenas “coagulações” provenientes desse fluxo.

    Agora sobre o criticismo meta-racional de Kant, considero-o a raiz de todos os males da filosofia contemporânea. Veja como os estudos culturais (de Frankfurt à Bourdieu) seguem uma lógica kantiana: todo objeto ou fenômeno histórico, independentemente do que se entenda como fenômeno ou objeto, é resultante das práticas simbólicas/performativas contingentes (este é o novo nome para “categorias universais”). Mesmo as correntes mais contemporâneas que dizem que não existe uma ordem simbólica universal, que toda ordem simbólica é resultado de práticas sociais fluidas, também elevam precisamente essas “práticas sociais” a esse tipo de “a priori”. Aqui obviamente entra minha posição dogmática: o relativismo dos estudos culturais é não somente antiquado filosoficamente, como é também uma postura improdutiva. Assim como o criticismo de Kant, tal antropologismo não consegue dar conta dele mesmo porque é filosoficamente inconsistente.

    Creio que a grande contribuição de Kant para a filosofia é sua própria inconsistência, um tipo de exemplo a não ser seguido. O próprio relativismo (cultural, linguístico ou subjetivista) pressupõe uma impossibilidade central e é constitutivamente sustentado por ela. O que devemos fazer frente a isso, creio eu, não é afirmar ou negar tal impossibilidade, mas apenas deixá-la em aberto (o que não é nada simples). Significa aceitar que aquilo que todas as épocas, povos e indivíduos têm em comum não é uma categoria ou uma prática simbólica constante (anistórica), mas existe algo (dizer que não significa cair na mesma armadilha relativista/universal). Em minha opinião, este algo é a própria impossibilidade de nos reconhecermos uns aos outros enquanto seres minimamente parecidos, sendo a tentativa de responder a um mesmo impasse a verdadeira categoria, vazia “a priori”, a partir da qual desenvolvemos diferentes maneiras de entender a realidade.

    Resumindo: Kant dizia que havia algo “a priori”, os pós-modernos dizem que não há nada “a priori” (caindo na mesma armadilha kantiana). Acho que existe sim um a priori: um fluxo de negatividade ou impossibilidade que desfaz, destrói ou causa o fracasso de qualquer estrutura filosófica determinante (algo muito próximo da concepção de Lacan ou Clément Rosset sobre o “real”).

    Perdoe-me a intromissão, juro que é apenas um complemento!
    grande abraço

    • Bolívar Escobar diz:

      Meu deus, fecho computador pra dormir e quando abro de novo o Beccari deixou a carta do Achamento em forma de comentário depois do meu post.

      Bom, antes de tudo, o autor do qual eu tirei maior parte das informações sobre Kant foi Georges Pascal, no seu “O Pensamento de Kant” (devia ter colocado nos créditos pra galera não achar que fui tirando da cartola). O filósofo tinha sim seu lado religioso, mas é fato que, enquanto escrevia teorias que pudessem sustentar por um lado esse aspecto, por outro ele sagazmente cutucava e mandava SMS pro Papa com coisas do tipo “estou mijando nas doutrinas que voces pregam”. Eu defendo a importância dele dentro da filosofia – bem como em outras áreas, a teoria mais aceita sobre formação de planetas hoje ainda é a de Kant-Laplace.

      Talvez o erro (meu e da torcida do Flamengo) é citar o filósofo X ou o filósofo Y pra defender alguma ideia pontual, que é o que pretendo fazer no próximo post, mas meu jeito de escrever é o do anjinho que fica soprando “explica melhor isso” no meu ouvido o tempo todo, por isso dediquei esse post praticamente pra falar disso.

      Essa inconsistência filosófica que ele deixou como legado é o exemplo maior do “algo além” que sempre devemos nos propor a procurar quando buscamos entender a natureza das coisas (querendo ou não, o meta-questionamento que parte disso é o mal que vem para o bem, na minha reles opinião também! hehe)

  2. daniela diz:

    gostei do texto,pausa estratégica, tempo bom pro meu lento raciocínio, sugiro, ler esse texto esperar uns 3 dias pra voltar e tentar compreender alguma coisa que o bonitinho e perfomático Beccari despejou.

  3. Devo reiterar que também gostei do texto. E obviamente não há como negar a importância de Kant na filosofia, mas é possível dizer que tal importância foi mais no campo hermenêutico e não no ontológico. Foi esta a leitura que Heidegger (da primeira fase) fez de Kant: todos os filósofos anteriores a Kant deveriam ser relidos a partir do “filtro transcendental” kantiano (o tal do meta-questionamento). Por exemplo: na concepção do cogito cartesiano e mesmo na descrição aristotélica da estrutura ontológica humana, sob o filtro kantiano, a questão não é exatamente o que significa “ser” ou “existir” em termos ontológicos categóricos, mas de que maneira, ao experimentarmos algo como vivo (um animal tem vida, uma pedra não), aplicamos certos critérios que já trazemos conosco. Esta é a abordagem hermenêutica, ou aquele “mal que vem para o bem” quando buscamos entender a natureza das coisas.

    O que eu quis frizar no comentário anterior é que esse meta-questionamento criticista tem se tornado uma das maiores armadilhas sob a forma de um sofismo linguístico pós-moderno. Claro que os marxistas diriam que Kant não foi longe o bastante por não considerar a dimensão social, enquanto que os fenomenológicos diriam que a noção kantiana de presença e atualidade ainda é muito limitada (um a priori que nunca se realiza). Eis o problema: até essas críticas são “engolidas” pelo criticismo kantiano. Isso acaba limitando a potencialidade de Kant para explicar um raciocínio pontual, do qual ele nem se preocupava.

    Como isso acontece exatamente? Geralmente, de duas maneiras: por um lado, dizendo que o aspecto meta-crítico de Kant abriga pré-supostos filosóficos muito determinados, servindo mais como analogia semântica do que como instrumento metodológico e, por outro lado, dizendo que categorias metafísica nunca são absolutamente determináveis, mesmo com os conceitos aos quais elas são sistematicamente associadas. A armadilha opera, em primeiro lugar, porque a crítica ao meta-questionamento parece cada vez mais “transcendental” e, em segundo lugar, porque o valor categórico-universal é precisamente constitutivo da meta-crítica kantiana, pela qual se pretendia compreender o deslocamento semântico (hermenêutico) que se opera da disseminação dos fenômenos “puros” à percepção e julgamento dos fenômenos “práticos”. Sim, estou denunciando certa insuficiência teórica de Kant, uma completa heresia contra o Deus da filosofia. O que não impede, entretanto, de nos apropriarmos, de modo hermenêutico, da concepção kantiana sobre a percepção geral das coisas, investigando inclusive de que modo seus próprios argumentos são particulares, conflitantes, secundários, inscritos ou suplementares.

    Sendo bem claro: não vejo problema algum em se apropriar do raciocínio kantiano para explicar uma ideia qualquer (como a dinâmica do Big Brother), o problema é quando essa ideia qualquer acaba apenas redescrevendo o raciocínio kantiano, e não o contrário. O texto acima não passa nem perto dessa armadilha, ou seja, repito que esse adendo não passa de um adendo mesmo, um complemento descartável. Ou, sendo mais sincero, um ranço traumático de meu primeiro contato com a filosofia na faculdade, quando um professor gordão me mandou ler os tratados de Kant antes de me explicar o que é filosofia. O texto do Bolívar continua sendo muito bom.

    Abraços

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