a potencialidade do impossível

* texto originalmente publicado no Design Aqui.

Geralmente eu evito definir o que é Filosofia do Design porque, no fim das contas, é uma ideia quase autoexplicativa. Ao menos seria assim compreendida, sem dificuldades, caso fosse mais vivenciada e menos rechaçada por discursos do tipo “fale menos e faça mais”. Aliás, podemos partir deste ponto: qual seria a atitude mais espontânea frente ao desafio que é compreender as coisas, falar ou fazer? Alguém pode dizer que, ainda que “nem sempre”, é algo muito mais profundo e obscuro: pensar.

Mas se confrontarmos, por meio da filosofia (entre outras coisas), a dimensão mais radical do pensamento, podemos recorrer a Heidegger, por exemplo, e dizer muito literalmente que o pensamento é sempre uma revelação pela fala – uma formulação do que teve de acontecer para que o mundo se abrisse a nós como experiência de significado.

Com isso já se pode notar que o pensamento, assim como a fala e o fazer, nem sempre é uma dimensão “suprema”. Pois a filosofia, em meu entendimento, não nos permite apenas analisar a realidade intelectual, mas antes a possibilidade intelectual. Neste ponto, sinto um tipo de afinidade espontânea entre a filosofia e o design, sobretudo através do conceito de “potencialidade”.

Potencial significa algo que ainda-não-é, mas que tende-a-ser. Um objeto de design, assim como qualquer coisa feita/falada/pensada, somente é o que é porque antes podia ser isto.

Seguindo o raciocínio, podemos entender o ato de projetar como uma potencialidade sendo realizada, sempre nesse “estado gerúndio”, com o poder de se tornar realidade. Poder é este processo dinâmico que admite aumento e diminuição – algo pode mais ou pode menos, tem poder maior ou menor – e do qual a realidade é o núcleo realizado. Não-poder, por sua vez, é a proibição deste processo, algo que diz que ele não deve realizar-se (poder e dever, portanto, são conceitos ligados entre si).

Mas a grande questão é: como surge a potencialidade das coisas? Um designer diria que seu projeto surge a partir de uma necessidade. Contudo, a necessidade é também projetada, no sentido de ser uma tentativa de explicar as coisas quando algo sai terrivelmente errado. Esse erro não é apenas algo que não deveria/poderia acontecer, mas simplesmente uma falha primordial – não no sentido de ter acontecido antes, mas de ser uma grande ausência que sempre nos falta, uma experiência autodestrutiva e impossível de ser “consertada”.

Creio que a potencialidade das coisas surge deste erro incestuoso, aquilo que poderia ser chamado de “amor”, mas que aqui seria mais adequado se for entendido como “criação”. É para lidar com esse erro inevitável, para domesticá-lo, que pensamos, falamos e projetamos coisas. Ou seja, as coisas surgem por uma questão de erro, de vazio, de nada – quase aquilo que Heidegger tenta pensar ao dizer que o nada nadifica: a potência do nada em seu progresso rumo à realização, a pressão do não-ser na direção do ser.

A própria ideia de Filosofia do Design pode ser entendida como um modo de conviver com esse tipo de falha no design: não há problema nem solução, apenas algumas coisas surgindo enquanto outras coisas desaparecem. Não se trata de uma simples história de causa e consequência, mas de um vazio radical como força motriz da potencialidade do ser. Também não é um tipo de desejo alienado que se estrutura, numa lógica freudiana, em torno de um vazio traumático primordial (a ausência da mãe etc.).

Não, a atitude mais espontânea é assumir o erro e afirmá-lo até o fim. Quase como uma gambiarra, um blefe com o universo que nos cerca, um tipo de truque que consiste em contrariar o que parece ser inevitável ao aceitá-lo e confirmá-lo.

Talvez design poderia ser assim definido filosoficamente: to get at what will happen (alcançar aquilo que se quer realizar e que, por isso, se realizará). Apropriando-me de Flusser, escrevi em inglês porque, embora o conceito de poder falte na língua inglesa (I may do, I can do, I’m able to do, I’m allowed to do não significam literalmente “eu posso fazer”), o verbo get, cuja tradução é imprecisa no português, parece abranger tanto a região do possível como a do realizado.

Com isso quero enfatizar que, em termos filosóficos, o design me parece uma atitude extremamente ambiciosa: formular novas condições de possibilidade por meio da condição de impossibilidade. As coisas estão lá fora, é estúpido porque só existe isso. Designers não se contentam com isso porque se recusam a compreender desta forma. Por isso eu disse no início que filosofia do design é quase autoexplicativa: a possibilidade de compreendê-la somente existe porque, se você chegou até aqui, você já a compreendeu.

Ainda que não seja tudo, mas um ou outro pequeno detalhe que, inclusive, foi muito mais compreendido do que eu poderia compreender. E ainda que a impossibilidade não tenha muito sentido por ser o meio e não o princípio nem o fim, ela é o nosso frágil dever de realizar conspirações – uma forma de amar, um vício impossível.

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Acerca Marcos Beccari
Nascido em São Paulo/SP, Marcos Beccari é designer gráfico e mestre em Design pela UFPR e doutorando em Educação na USP. Interessa-se por Filosofia, Psicologia e Comunicação, o que o levou a pesquisar sobre Filosofia do Design e a encarar o design como articulação simbólica na mediação ficcional entre o sujeito e o real. Atualmente é professor de Design e Comunicação e coordena o blog Filosofia do Design, além de integrar o podcast AntiCast e colaborar com outros blogs/revistas de design e comunicação.

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