design sem nome

* texto originalmente publicado no Design Aqui.

“Remember, remember, the 5th of November
The gunpowder, treason and plot;
I know of no reason, why the gunpowder treason
Should ever be forgot.”

Gosto da ideia de comemorar o “dia do designer” em 5 de novembro, não tanto pelo nascimento de Aloísio Magalhães, mas pela coincidência com a celebração da Conspiração da Pólvora, especificamente da “noite das fogueiras” em memória a Guy Fawkes (se você é designer, você sabe ou deveria saber do que estou falando). Pois a coincidência aqui é bastante precisa: ela nos faz lembrar que as verdadeiras utopias, ao contrário daquelas que ainda vigoram no design (Bauhaus e Ulm), foram criadas para serem provisórias.

A visão de mundo que circunscreve a revolução industrial é aquela que exalta a razão humana e a capacidade (trabalho) do homem de usá-la para moldar o mundo à sua maneira, seguindo a crença de um “progresso” que nos levaria a uma sociedade igualitária, justa e feliz.

Embora continue importunando-nos até hoje, essa utopia (que justifica certa sensação de superioridade de nossa profissão) não é apenas provisória, mas foi paradoxalmente fundada em certa ferida narcísica: além de cada indivíduo ser um mero grão de pó insignificante em meio a um universo infinito, nós sabemos disso, e saber disso faz toda a diferença. Essa noção de grandeza (domínio tecnológico) como consciência de miséria é tipicamente moderna.

Acontece que, no design, assim como em qualquer profissão que se considera útil para a sociedade, parece que as ideias chegam atrasadas, como um tipo de delay: enquanto Walter Gropius, já no século XX, cultuava o designer como sujeito pensante e criativo – postura humanista que caracterizava o pensamento do Renascimento –, a filosofia já havia reduzido o sujeito a um vazio imaterial (Kant), retirando-lhe seu lugar privilegiado na existência. Mas a questão é: quem disse que a compreensão é necessária para se realizar uma ideia?

Este é precisamente o questionamento fundamental que aparece em V for Vendetta e que, retomando o espírito da “noite das fogueiras”, deveríamos fazer a cada 5 de novembro. A graphic novel de Alan Moore apresenta uma população complacente frente a um Estado totalitário, sendo o protagonista apenas o signo de uma ideia já perdida naquele contexto: a de desaparecimento, fuga ou desterritorialização (noções discutidas à exaustão por Foucault, Baudrillard e Deleuze). Trata-se de uma ideia parcialmente inconsciente e parcialmente consciente que, de forma cada vez mais sintomática, influencia mais pessoas do que qualquer ideal de progresso ou revolução social: a invisibilidade ou nomadismo.

A história nunca conseguiu “mapear” muita coisa dos nômades – que não são migrantes ou viajantes, apenas sem-território – simplesmente porque eles não têm nem passado nem futuro. Em vários aspectos, eles são invisíveis: estão o tempo todo partindo, evadindo, passando – não de maneira passiva, mas desconstruindo territórios.

Ao invés de pensarem em revolução, seguem um sutil devir-revolucionário, uma fuga que não é exatamente viajar, nem mesmo sair do lugar, mas traçar linhas de fuga, de sobrevivência marginal e clandestina. Aquilo que Fitzgerald chamaria de linha de ruptura, quando dizemos que nada mudou e, no entanto, tudo mudou, só que de maneira irrastreável porque o passado deixou de existir.

Onde o design entra nisso? Ao tornar visível uma configuração/aparência previamente abstrata, o design em si torna-se nômade, sem nome, mero signo de uma ideia provisória.

Não se trata de um projeto com princípio e um fim bem definidos. Trata-se da linha do meio, aquela linha de tensão que só pode ser apreendida enquanto ela é traçada e recomeçada. Ao invés de mera modificação territorial, esboçamos desvios e impulsos que não são, contudo, menos precisos ou efetivos na medida em que chegam a dirigir processos irreversíveis.

É neste pondo que o delay no design se inverteria: podemos pular a etapa kantiana de um vazio imaterial e ir direto ao fluxo imperceptível, feito de gestos e afetos, de algo ou alguém que se movimenta com tanta precisão que diríamos que permanece imóvel.

Assim como numa “conspiração da pólvora”, essa fuga nômade significa muito mais do que a banalidade de um escapismo mundano, pois se concentra numa espontânea, ainda que breve, auto-organização epifânica: um retorno indistinguível de um passo adiante.

Acredito, ou ao menos gostaria de propor, que o nômade não é um tipo especial de designer, mas que todo design é um tipo especial de nomadismo e, portanto, um “lugar” e “tempo” privilegiado para que o movimento de uma ideia aconteça de maneira invisível, sem que ninguém perceba de imediato.

E espero que a cada “dia do designer” reapareça essa ruptura que não se pretende revolucionária ou eufórica, mas como utopia provisória, como uma conspiração secreta a ser silenciosamente recomeçada.

“… if you’re looking for the guilty, you need only look into a mirror”

About these ads

Acerca Marcos Beccari
Nascido em São Paulo/SP, Marcos Beccari é designer gráfico e mestre em Design pela UFPR e doutorando em Educação na USP. Interessa-se por Filosofia, Psicologia e Comunicação, o que o levou a pesquisar sobre Filosofia do Design e a encarar o design como articulação simbólica na mediação ficcional entre o sujeito e o real. Atualmente é professor de Design e Comunicação e coordena o blog Filosofia do Design, além de integrar o podcast AntiCast e colaborar com outros blogs/revistas de design e comunicação.

2 Respostas a design sem nome

  1. Seria, então, o lugar do designer não ter lugar?

    O que me intriga é que as culturas nômades possuem uma identidade muito forte, embora não se valham da territorialidade. Mas isso só mostra como os nômades são culturalmente mais estáveis, – e porque não – evoluídos do que as sociedades territoriais; coisa que não acontece no design. A pergunta que fica é: é possível criar uma identidade desterritorializada?

    Para que possamos aceitar que não temos princípio e fim definidos, temos que passar por algumas fases de formação de identidade. E acho que aí que complica: não creio que seja possível pular o vazio imaterial; talvez precisemos, primeiro, passar por ele.

    Agora que você falou que a desterritorialização era um traço marcante na obra, me peguei pensando que V nunca defendeu a ideia de uma Inglaterra. Mas acredito que o anarquismo – que é uma veia clara da obra – também seria a favor dessa desterritorialização (palavra grande da porra).

    • Oi Eduardo, eu não diria que o “lugar do designer” é não ter lugar, isso seria um artifício sofista muito fácil de ser rebatido. Diria apenas que o lugar do designer é sempre transitório. E não acho que culturas nômades tenham uma identidade forte, ao menos identidade enquanto unidade de diferenciação. Lembrando também que não estou falando de populações étnicas migratórias, como turcos ou ciganos (esses grupos são localizáveis historicamente por processos de deportação). Não, um nômade não é somente alguém aparentemente sem identidade histórica e cultural, mas na verdade um fantasma de identidades múltiplas que se insere de modo imperceptível na “regulação de práticas identificatórias”, mostrando assim o caráter provisório das normas socioculturais e sua historicidade. Acredito que, atualmente, ao invés da permanente reafirmação de uma “identidade” instituída enquanto ordenamento natural, estamos cada vez mais rodeados de uma multidão de práticas que traduzem identidades incompletas, incorretas, incômodas, que assombram e penetram os espaços delimitados por fronteiras.

      Portanto, a ideia que tento passar acima não é a de construir uma identidade desterritorializada, mas algo bem diferente: desterritorializar identidades. Trata-se de uma proposta anarquista bem atual, defendida especialmente por Hakim Bey, influência direta de Alan Moore. Mas para que não seja uma ideia meramente autodestrutiva (como o anarquismo clássico de Bakunin et. al.), é necessário sim pular o vazio imaterial kantiano. Não é formação nem esvaziamento de identidade, apenas uma fuga indistinguível de uma partida (nas palavras de V, “o trem que chega é o mesmo trem da partida”). É nesse sentido de “tornar ambíguo” que devemos desterritorializar o design: o que somos nada mais é do que passageiros de identidades fictícias, construídas em condutas mais ou menos ordenadas, cujas práticas não cessam de apontar para as falhas, os abismos identitários contidos na própria dinâmica de construir identidades.

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