improvisação
13/11/2012 1 Comentário
Thomas Edison não escolheu a lâmpada. Ele criou a lâmpada. Apesar de que ele fez uma lista de todos os possíveis materiais para um filamento e testou pentelhamente um por um. Apesar de que ele sabia o que ele queria fazer muito antes de ter conseguido. Apesar de que a lâmpada era uma coisa que todo mundo meio que sabia que devia ser possível de algum jeito. Mas ainda assim escolhemos chamar essa ação de “invenção”. Claro, também poderíamos ter chamado de “abacaxi”. Mas vamos assumir temporariamente o (mal) pressuposto de que a palavra importa. Por que não se trata de uma escolha? E por que isso importa?
Como nos mostra Barry Schwartz (no video do último post), a fixação que nossa cultura tem com “escolhas” vem de um recalque mais profundo com a “liberdade”. Como nos mostra David Graeber (num livro que vocês não podem ler senão passarão a achar todas as minhas ideias requentadas), essa fixação do ser-livre só aparece numa sociedade em que muitos são não-livres, ou escravos ou escravos do salário ou algo do gênero.
Ou seja, simplificando até ficar simplório, achar que uma marca de roupa a mais “aumenta a nossa liberdade” é o mesmo erro de um alguém preso à escravidão por dívida (chamada de Sistema de Barracão), obrigado a comprar tudo na loja que também pertence ao patrão e que cobra tão caro que sua dívida só aumenta, mas ainda acredita que se abrissem uma outra loja isso aumentaria sua liberdade. Nunca ocorre à esse escravo que ele podia também não comprar, que a vida dele podia estar encaixada em uma outra sociedade menos bizarra.
O grande problema não é a escravidão em si, mas que essa seja internalizada. Inclusive um escravo africano que era príncipe numa tribo dizimada por metralhadoras teria uma situação mais digna, pois a violência de sua condição nunca foi dissimulada ou justificada. (Nota: Esse escravo ex-príncipe é uma lenda, via de regra a escravidão africana era coisa bem mais sórdida que o bom e velho matar-pilhar-destruir…)
Minha (absurda e ridícula e ultrajante e fumada e pedante e intelectualóide) hipótese é que o comportamento escolhitivo é uma internalização da falta de liberdade.
A criatividade, quer ela passe por uma escolha ou não, é fundamentalmente um desrespeito às coisas como elas são. Luz = querosene. Fsck-se! Vou inventar a lâmpada.
Para criar é preciso destruir. Ideia velha e batida, que se eu precisasse chutar diria que veio de Nietszche, mas que foi abraçada por diversas correntes decisivamente não nietszcheanas. Mas quero aqui invocar conotação menos paz & amor que “destruição criativa” e congêneres.
Quando falo que criatividade tem um elemento de violência tente imaginar um Huno enfiando uma espada na cabeça de um civilizado, tentando cortar de um só golpe até a virilha, espalhando miolos ensanguentados em todo redor, produzindo órfãos, e de preferência gargalhando durante o ato.
Um Huno babando furioso é uma das poucas coisas no mundo que realmente te deixa sem opções. Uma é morrer e a outra é fugir o mais rápido possível. Qualquer variação no caminho de fuga é apenas erro de cálculo da rota mais curta, não liberdade de escolha.
Qualquer outra contingência da vida é mais ambígua que isso. Você sempre pode responder “I’d rather not!“, sempre há um outro caminho (quem me contou foi o Keymaker), sempre se pode mandar um surrealismo ¡girassóis!, e de fato responder de forma totalmente randômica e descorrelacionada deveria ser o normal, já que afinal requer menos esforço, se lembramos que memória requer ATP. #ImSoMetaEvenThisAcronym
Ou seja, à princípio não parece existir razão para tomar o comportamento escolhitivo como natural, simples ou dado. Mas nós o fazemos mesmo assim. A razão, claro, são os Hunos. Quem você esperava?
Mais precisamente, a vida cotidiana no mundo contemporâneo é saturada de violência. Pode-se preferir não lembrar, mas a razão pela qual escolhemos não pegar um chocolate nas Americanas e ir embora é que sabemos que um Huno vestido de terno preto apareceria rapidinho para reduzir nossa “liberdade de escolha”.
Um projeto que multiplica opções (mil cores para a sua capa protetora de iPhone!) mas diminui vivências, diminui nosso ethos (compre música só na Apple Store), é um produto que internaliza os Hunos.
THE MISFIT ECONOMY from invisible sessions on Vimeo.
PS.: Claro, se você faz Krav-Maga o lance do Huno babante funciona diferente, mas preferi simplificar.
PS2.: Esse post é uma tentativa de explicar a confusão do post anterior. Acho que deve ter confundido mais. Achincalhamentos seriam bem vindos.









Inventio, inventionis; “encontrar”, “descobrir”. Do mesmo modo que θεωρία, a nossa “teoria”, significava “olhar para, ver, observar”.
É claro que a etimologia não resolve os nossos problemas mas ao menos pode mostrar as origens do conceito.
Ao ler esse texto — uma ode à liberdade criativa ou o reconhecimento da criação como exercício ferrenho da liberdade — o que me veio à mente foi uma idéia que sinto ser mais ou comum nas grandes religiões e que, na falta de uma citação, descrevo como “liberdade é o dever de escolher o melhor”.
A definição pode parecer uma simples regra moral mas não lhe falta lógica quando vista de dentro do cristianismo: se somos livres e escolhemos o pior significa que nos afastamos de Deus, do Bom, Belo e Verdadeiro, da Via e da Vida, ou seja, nos deixamos escravizar por coisas mais baixas, das quais O Mundo, o Diabo e a Carne são os três principais inimigos.*
Assim “inventar” e “teorizar” são exercícios da liberdade contanto descubram e vejam O que Existe, O que É. Do contrário tornam-se formas requintadas de escravização auto-imposta.
E aí eu é quem arrisco a teoria de que os reflexos que hoje vemos no comportamento dos consumidores — o “comportamento escolhitivo” — têm causas muito anteriores às econômicas: no mundo onde tudo tem o mesmo valor, que religião é discutida na clave do gosto, que não existe verdade, resta aos seres humanos escolher, mais e mais, sempre mudando de escolha em busca do próximo prazer. E vamos escolhendo um produto depois do outro, uma idéia depois da outra, uma mulher depois da outra, um deus depois do outro; a cada “depois” um elo se anexa às correntes que chamamos “liberdade”.
*- Estes símbolos, que há pouco eram de uso corrente, que todos conheciam e utilizavam como ferramentas para ver e processar a experiência, como armaduras contra o erro abstratista, já não são ensinados como o foram. Tenho motivos para acreditar que o estado de coisas descrito no texto está relacionado à decadência da educação religiosa e literária, à tendência de ver o mundo através de palavras vazias, das quais “liberdade” é das mais utilizadas.