considerações sobre design emocional

[Esta não é uma resposta definitiva, mas espero que satisfatória a todos que me perguntam por que considero esse assunto tão chato.] 

Emoções costumam ser entendidas cientificamente como obstáculos ao nosso acesso à realidade, como algo que nos confunde, que distorce nossa percepção das coisas. Assim, Donald Norman merece certo crédito em seu “design emocional”: sob o viés da psicologia cognitiva, ele procura demonstrar que quando nossas emoções alcançam nossas capacidades cognitivas, estamos gerando um pensamento de design, concluindo que todo indivíduo capaz de “perceber com emoção” é potencialmente um designer. Bonito, mas não concordo.

Porque, paradoxalmente, se nossas emoções precisam alcançar este nível cognitivo para fazermos design, não seríamos mais designers humanos – no máximo designers mecânicos, privados de emoções humanas. O motivo é simples: classificar as emoções como fazem as ciências cognitivas significa fingir que elas não existem.

Para Norman, nossas emoções se escondem por detrás da capacidade cognitiva, como se estivessem presas num nível “animal primitivo”. O que ele não percebe é que essa própria lacuna entre a capacidade cognitiva e a emocional já funciona como uma via “emocional”, de onde se originam sentimentos marcadamente humanos – da angústia (ao invés do simples medo) ao amor e à melancolia. Mesmo o reconhecimento cognitivista de que as emoções físicas (dor, prazer etc.) não provêm de sentimentos interiores, mas os geram, bate de frente com outro pressuposto cognitivista: o de que os sentimentos humanos só surgem quando o “animal humano” perde seu ancoramento emocional nos instintos biológicos.

O raciocínio é que quando um ser humano não está cognitivamente consciente de sua atitude perante um objeto, sua resposta emocional já trapaceou esta atitude. Ou seja, emoções e sentimentos ainda são vistos como obstáculos, mesmo que “criativos”, ao nosso acesso à realidade. Em claro contraste, Lacan determina a angústia como único afeto que garante nosso acesso ao real. A ideia é que o real gera o sentimento de horror em sua experiência de aversão à vida em seu aspecto mais puro (a vida não-morta, incompleta), o que se “encaixa” com o sentimento de angústia proveniente do confronto com o Vazio que forma o núcleo do sujeito.

O fato é que, enquanto Norman entende design como uma espécie de atitude darwiniana de adaptação progressiva do homem ao seu ambiente, a lição básica enfatizada por Lacan concerne à des-adaptação, à adaptação fundamental do homem ao seu ambiente. Por conseguinte, os sentimentos sinalizam um tipo de “descolamento” humano de sua imersão num entorno, seguindo certa pulsão que ignora as demandas de adaptação.

Parece-me que essa estrutura de autossabotagem, de um comportamento alheio à atitude utilitária de sobrevivência, indica um mínimo de liberdade, podendo culminar no design em sua concepção habitual de projeto. Um designer, nesse sentido, representa um indivíduo que não é mais totalmente determinado nem pelo entorno nem por suas emoções, pois considera a si e o entorno como possibilidades únicas em um ciclo de emoções autônomas a partir das quais esta ou aquela combinação formal possa ser elaborada.

Indo um pouco mais além, proponho que design emocional poderia ser um tipo de ruptura com o projetar convencional – não um corte muito brusco, mas que se desvie das re-adaptações que o ameaçam.

Se a mídia tem nos convidado a celebrar cegamente “os bons momentos da vida”, com a adaptação espúria entre mercadoria e espetáculo – o famoso não-evento da representação pura –, o design emocional poderia atuar como uma versão “emo” do design em resposta cínica a tamanha obscenidade. Um design de espetáculos apocalípticos tão alegres quanto impregnados de tragédia, que celebre a vida ao nos lembrar a todo instante da morte – algo como “sejamos felizes, já que tudo vai de mal a pior”.

Brincadeiras à parte, quero dizer que não existe design puramente emocional. Pois cada emoção se constitui, tanto quanto o entorno do qual ela nos descola, de uma bruma de imagens virtuais em curso de atualização (de se tornarem reais). A esfera do design compreende simultaneamente o virtual e sua atualização, sem que possa haver um limite adaptativo assinalável entre os dois. O produto de design, objeto da atualização, cai fora do plano emocional como um fruto que se desprende da árvore – e ao ser consumido/utilizado, acaba por reatualizar, ao invés de readaptar, outras emoções que o reportam novamente ao plano emocional e que, incessantemente, reconvertem objetos em sujeitos. Portanto, design e emoção se complementam para nos colocar de frente à realidade ao desadaptar-nos dela.

Subject and object: The reality is incomplete – Slavoj Žižek at the Birkbeck Institute (2011)

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Acerca Marcos Beccari
Nascido em São Paulo/SP, Marcos Beccari é designer gráfico e mestre em Design pela UFPR e doutorando em Educação na USP. Interessa-se por Filosofia, Psicologia e Comunicação, o que o levou a pesquisar sobre Filosofia do Design e a encarar o design como articulação simbólica na mediação ficcional entre o sujeito e o real. Atualmente é professor de Design e Comunicação e coordena o blog Filosofia do Design, além de integrar o podcast AntiCast e colaborar com outros blogs/revistas de design e comunicação.

2 Respostas a considerações sobre design emocional

  1. meu comentário sobre o Donald Norman te estimulou a escrever sobre o assunto? Pois é, essa concepção cognitivista das emoções (e de toda a mente) é totalmente furada. Mas a própria categoria de “emoção” é meio problemática. Costumamos usar afetos, sentimentos, emoções e paixões mais ou menos como sinônimos, e entendê-los como qualquer coisa que apareça para a mente e que não é nem pensamento nem vontade (Schopenhauer observa isso em algum momento de O mundo como vontade e como representação, em relação ao termo “sentimento”). Ou seja, é uma categoria muito ampla para um tratamento delicado do tema.

    Eu estou lendo um livro muito bom sobre a criação da categoria de “emoção” (que só aparece no seu significado atual no século XVIII) – From passions to emotions – e como ela está ligada à busca de uma “visão científica” da mente.

    Uma discussão atual sobre as emoções e que acaba repercutindo em teorias como a do Norman diz respeito ao caráter “cognitivo” ou “não-cognitivo” das emoções. Isso é, em que medida a emoção envolve também um pensamento mais ou menos voluntário (sendo uma espécie de julgamento) e em que medida ela se impõe a nós simplesmente? Tem um grupo de autores que argumenta que ela seria “cognitiva” e argumentam que tradicionalmente a emoção foi vista como algo que se impõe a nós e que deveria ser combatido. Bastaria dizer, nesse sentido, que o grande objetivo ético dos estoicos era a apatia, isto é, o estado espiritual isento de paixões. Entretanto, Dixon argumenta que a categoria de paixão não pode ser vertida por emoção assim sem mais nem menos. Com efeito, seria um erro crasso, por exemplo, dizer que Platão combate todo tipo de emoção – basta ler o Fedro para ver como ele exalta o amor e diz que há dois tipos de “loucura”, uma delas maravilhosa pois é engendrada pelos deuses e pelas musas – e nessa categoria incluem-se amor, transes proféticos e sentimentos estéticos (outra categoria que não dá para usar assim sem considerações, mas deixemos pra lá).

    Enfim, digo tudo isso para concordar com sua proposta de que não dá para opor emoção e razão de uma maneira tosca. A gama de sentimentos humanos é muito complexa e se relaciona com os pensamentos e desejos (eles próprios às vezes chamados de emoções ou sentimentos) de maneiras sutis e multifacetadas.

    • Sim, foi o seu comentário sobre o Norman que me inspirou! rsrs mas eu já tava querendo escrever essa crítica, só que sempre me dava preguiça… então eu decidi fazê-la sem muito cuidado com o tema da “emoção” (que de fato é amplo, problemática e tudo mais) para evitar um texto gigante. Bacana a dica do livro, vou procurar. Tenho aprendido bastante sobre esses cognitivistas, por incrível que pareça, no “A visão em paralaxe” do Zizek… eu quase recorri a ele pra falar sobre desejo (pra contrastar com as emoções), mas deixei pra uma próxima. Enfim, valeu pela ótima contribuição Daniel! Abs

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