Acerca Marcos Beccari
Nascido em São Paulo/SP, Marcos Beccari é designer gráfico e mestre em Design pela UFPR e doutorando em Educação na USP. Interessa-se por Filosofia, Psicologia e Comunicação, o que o levou a pesquisar sobre Filosofia do Design e a encarar o design como articulação simbólica na mediação ficcional entre o sujeito e o real. Atualmente é professor de Design e Comunicação e coordena o blog Filosofia do Design, além de integrar o podcast AntiCast e colaborar com outros blogs/revistas de design e comunicação.

3 Respostas a haters gonna hate

  1. Talvez uma perspectiva interessante pra observarmos o preconceito seja pela neurologia mesmo. Nosso cérebro se adaptou a identificar padrões e encaixar as coisas em categorias, ou seja, tentar dar ordem ao caos de eventos sem sentido que é o mundo: a eterna luta arquetípica contra o dragão. E é aí que o preconceito vem como uma arma forte nessa batalha: é a imperatividade fisiológica de categorizar coisas.

    O preconceito é foda! Através dele é que conseguimos nos relacionar com experiências e pessoas novas, tentando encaixá-las em certas características pré-concebidas e pré-conhecidas por nós. O problema é, como sempre, levar isso a níveis extremos. Ora, o mundo é caos. Não vou falar como o preconceito pode ser prejudicial, porque acredito ser óbvio; entretanto, é importante frisar que se o preconceito servir como uma gambiarra para justamente poder negociar consigo mesmo, como você disse, ele faz valer todas essas centenas de milhares de anos de evolução.

    (Me ocorreu agora que a linguagem é preconceito, porque como você disse, cara, é impossível alguém nos entender completamente; o que me lembra aquele outro post teu da desterritorialização: a própria comunicação é um abismo intransponível. http://www.youtube.com/watch?v=hgXlHWF3_Go)

    E, sim, concordo com relação ao diálogo. Não me lembro quem falou isso primeiro, mas lembro de ter lido algo parecido em Freud: não se convence ninguém de nada através da razão. As paixões (no sentido humeano) são infinitamente mais poderosas do que a razão e, por isso, tentamos maquiar nossas decisões com racionalizações.

    Mas acredito que a maior valia de discussões e diálogos é juntar aqueles ínfimos pedacinhos de palavras, pontos de vista, discursos, para que elas lhe sirvam de adubo para sua criatividade. Tudo que você consome, cedo ou tarde, deve influenciar em sua produção.

    • Oi Eduardo, obrigado pelo comentário. Não entendi o que você quis dizer com o lance do preconceito fazer valer centenas de milhares de anos de evolução (até porque não acredito em evolução… acredito em Darwin e, portanto, não em uma evolução como “melhoramento” no decorrer de um mecanismo retroativo e aleatório). Em todo caso, embora eu nem tenha tocado nesse ponto, é verdade que o preconceito é problemático sob o ponto de vista moral (uma vez que a própria moral estabelecida é por definição um preconceito coletivo). Para esclarecer o que penso sobre isso, reproduzo abaixo (com modificações) um comentário que deixei num post do marcinho sobre moral e design.

      Veja caso do McDonalds na Índia: lá tem aquela moral religiosa das vacas sagradas etc., então o McDonalds garantiu aos indianos que ele deixaria de usar carne bovina. Certa vez comentei com um colega: cara, às vezes acho muito cínico este “respeito pela cultura que é diferente da nossa”, porque isso só indica um conflito de preconceitos escamoteado e talvez até reforçado com esta falsa aceitação. Tipo assim: eu sou o dono do McDonalds e aceito a religião indiana desde que os indianos aceitem o meu hamburger. Foda-se se eu uso carne bovina em TODO o resto do mundo, e foda-se se alguns indianos incendeiam mulheres viúvas assim que o marido delas morre. Ou seja, existe um acordo tácito entre preconceitos na medida em que (ou melhor, somente porque) o preconceito não é levado a sério: ele é entendido apenas como um preconceito banal, algo que poderia ser facilmente evitado ou contornado.

      Acho que a questão é mais complicada do que identificar padrões para lidarmos com o mundo de maneira utilitarista. Claro que a crença indiana não é algo banal, e não deve ser simples substituir o processo de uma rede mundial de lanchonetes em um país inteiro, mas o preconceito implícito infelizmente acaba se tornando banal por ser tão reforçado neste caso: a própria noção de “preconceito” se reduz a uma máquina racional supostamente neutra onde o McDonald se vê apenas cumprindo alguns deveres. Quer dizer, não vejo responsabilidade alguma aqui, somente uma injunção baseada numa estrutura normativa vazia que apenas enrijece velhos preconceitos.

      O preconceito, assim, é transformado em mercadoria por certa “ética das idenizações” que, por fingir que há sempre um culpado pelo meu preconceito, não colabora com a autonomia dos indivíduos. Em um processo judicial contra “danos morais”, por exemplo, a ideia do sujeito autônomo, livre e responsável torna-se uma ficção jurídica, cuja função é inventar um agente a quem possa ser atribuída a responsabilidade pelos preconceitos socialmente inaceitáveis (isto é, intoleráveis pelos meta-preconceitos). Tipo assim: estou deveras obeso e vou processar o McDonalds porque a comida vendida por eles comprometeu minha “qualidade de vida”. A responsabilidade não é minha, sou apenas uma vítima passiva das circunstâncias e, já que não tenho culpa por meu estado deplorável, vou procurar alguém que seja legalmente responsável por minha desgraça. Olha como sou autônomo! Ou ainda: meus AVÔS foram vítimas do holocausto, então vou exigir uma idenização financeira aos NETOS dos criminosos nazistas. Em suma, embora tudo tenha que ter um preço, o “dever moral” não é somente obter uma compensação de meu preconceito através de um preconceito anterior por parte dos supostos responsáveis – em última análise, essa compensação serve para privá-los da posição que os torna responsáveis. Todos querem ser autônomos, mas não responsáveis.

      Então, embora o meta-preconceito politicamente correto contra os preconceitos em geral pareça ser uma preocupação em torno de uma sociedade em que as pessoas sejam condicionadas a agir tanto em benefício individual quanto coletivo etc., acho que a real ênfase parece recair cada vez mais em pôr a culpa em agentes externos ou apenas nas circunstâncias (históricas, culturais, sociais). Nesse sentido, acho que a gambiarra do preconceito (negociar consigo mesmo e tudo mais) é o único caminho de auto-sabotagem moral e que, se a discussão sobre moral fosse levada a sério aqui, culminaria inevitavelmente na questão “qual a diferença entre um preconceito moral e um imoral?”, mas obviamente sem acabar nesse ponto, pois ainda restaria a possibilidade de um preconceito ser, em si mesmo, A-moral (diferente de imoral ou anti-moral).

      • Quis dizer evolução no sentido darwinista mesmo, sem o preconceito da palavra com a idéia de “melhoramento”. Pra evitar confusões, vamos adotar “adaptação”. Então, era biologicamente falando mesmo que quis dizer que nossa espécie teve o cérebro adaptado de modo que o preconceito nos ajudou a sobreviver e montar a sociedade em que vivemos. Eu poderia arriscar dizer que tentativa-e-erro é uma aplicação prática do preconceito. Mas não vamos por aí.

        O que eu quis dizer que valeu a pena esse tempo, é que, se bem empregado, o preconceito é um ótimo – se não o único – modo de tentar fazer sentido do caos que é o mundo. Porque, afinal de contas, é a partir daquilo que conhecemos que podemos conhecer e criar coisas novas. E o preconceito nos ajuda a lidar com as informações. Por isso eu até gosto de dizer “Aquela banda X é Y misturado com Z”, por exemplo.

        Mas, certo, essa abordagem é muito mais metafísica, porque eu começo a borrar a linha entre conhecimento, preconceito e crença.

        No mais, concordo plenamente contigo, cara. Foda demais essa análise de autonomia e responsabilidade. Isso me faz pensar que as pessoas querem ser igualmente livres, mas não entendem que a liberdade só é plena com inteira responsabilidade.

        Só acho que não é possível deixar de ter preconceitos; e, bom ou ruim, acho natural haver esse tipo de paradoxo absurdo, como o da McDonald’s. E, sei lá, acho que é melhor resolver com hipocrisia do que com guerra.

        A auto-sabotagem é sempre bem-vinda, ao meu ver. Mas levemos, mesmo que de brincadeira, a moral a sério. Eu acredito que o preconceito seja, sim, amoral. É como a faca ou a arma: o preconceito pode ser usado tanto de forma moral quanto imoral. Agora, dizer quais são morais e imorais, talvez seja papel das paixões e não da razão. Só que aí a gente cai em um problema que eu acredito estarmos vivendo hoje: a subjetividade reinando por cima da comunidade. Enfim, já caguei regra demais aqui. Mais para um próximo comentário, hahaha

Deixar uma resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

WordPress.com Logo

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Log Out / Modificar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Log Out / Modificar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Log Out / Modificar )

Connecting to %s

Seguir

Get every new post delivered to your Inbox.

Junte-se a 129 outros seguidores