Design e tecnologia a partir de Heidegger
03/12/2012 Deixe o seu comentário
Semana passada tive a oportunidade de participar, ao lado de meu parceiro anticaster Ivan Mizanzuk, de um debate sobre design e tecnologia no Pavão 2012, semana acadêmica da ESDI. Devo agradecer ao Daniel, Ricardo e Almir pela receptividade e companhia, e esclarecer que não pude participar da mesa-redonda na UBA-UFRJ por puro azar, pois eu queria muito, muito mesmo, ter participado. Em todo caso, quero comentar sobre uma das questões levantadas na ESDI, uma pergunta que me pareceu representar a principal preocupação dos alunos que ali estavam: como a tecnologia (no sentido de domínio sobre a ferramenta, especialmente um software) influencia (ampliando ou limitando) o trabalho do designer?
Lembro que minha resposta foi algo sobre uma relação um tanto traiçoeira: se o software gráfico não for substituível para o designer, é o designer que se torna um elemento substituível para o software. Mas acho interessante reformular essa pergunta de modo a ampliá-la e aprofundá-la: quais as implicações do design na tecnologia, e desta naquele, quando se busca se comunicar e se expressar? Que tipo de experiência é esta construída pelo design e pela tecnologia? São situações de conflito, de convergência ou de rejeição?

Nike de Samotrácia (Vitória Alada) em um selo postal grego
Suspeito que o design interfere na tecnologia somente porque esta interfere nele, de modo concorrente e antagônico, mas também complementar. Se entendermos como “articulação simbólica” (conforme o faço em minha dissertação) todos esses projetos que desenham certo fluxo de um mundo partilhado, nossa interação com objetos ou sua recusa, implicando por vezes a instauração de subjetividades em meio a dispositivos históricos e sociais de nossa cultura ocidental, notaremos que todos os processos e criações que envolvem design intimam, provocam e induzem processos tecnológicos que, por sua vez, também terão de articular, simbólica e concretamente, a relação do homem com o entorno. Nesse sentido, design e tecnologia se aproximam, partilham do mesmo palco, e requerem uma postura por parte dos designers que os compreenda de forma mais ampla.
Mas ao invés de propor certa articulação simbólico-tecnológica (quem sabe um dia), pretendo apenas introduzir uma possível abordagem para o tema vigente. Para Heidegger (em minha opinião, o grande filósofo do século XX), a tecnologia seria uma forma de “revelação da existência” que expressa um modo de ser no mundo. Claro que, para entendermos essa noção de forma mais clara, teríamos que retomar a questão da técnica em Heidegger, entre muitas outras. No entanto, creio que a “vontade de evento” seja um bom ponto de partida para localizarmos a tecnologia no âmbito do design na medida em que, em meu entendimento, essa ideia reflete a radicalidade do sentido de “projetar” como contingência de um vínculo tecnológico construído por cima de uma lacuna existencial (e nunca uma apreensão direta da mesma).
Vontade de evento é basicamente uma cumplicidade “impossível” entre dois discursos mutuamente opostos: a Vontade como aspecto fundamental da autoafirmação subjetiva moderna, e o Evento enquanto abertura que indica que deixamos para trás a violência imponente da autoafirmação subjetiva. Interessante é que tal conceito torna indistinta e menos arbitrária a linha divisória entre as duas fases “oficiais” de Heidegger: o deciosionismo (decisão autêntica do Dasein individual de assumir heroicamente o próprio destino, o ser-para-a-morte) e a receptividade passiva (decisão comunal fundada na aceitação humilde do imperativo destinal do ser).
Essa coincidência de opostos poderia ser ilustrada pela ética zen-budista dos lutadores de MMA que legitima a mais violenta e autodisciplinada conduta de combate através da autorrenúncia total e da reatividade passiva das decisões. Quer dizer, em última análise, toda e qualquer luta heroica estaria fadada a fracassar, de modo que a verdadeira grandeza não deveria se opor à atitude do “deixar-estar”, de aceitação em relação aos fatos, mas, ao contrário, envolveria sempre uma derrota trágica: as possibilidades existenciais autênticas não se referem ao que se faz, mas a como se faz em relação a uma herança comunal sobre o ser-para-a-morte.
A Essência, porém, dessa última [a resolução aberta do Evento] reside no fato de a existência humana des-cobrir-se à iluminação do ser e de modo algum na potencialização do “agir”. [...] A referência ao Ser, porém, é o deixar. Que todo querer se deva fundar num deixar é algo que causa estranheza ao intelecto (HEIDEGGER, M. Introdução à Metafísica. 3. ed. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1987, p. 50).
Não seria, de modo análogo, o “projetar” uma atitude fundada em um não-projetar, como uma reação previamente aceita com base em certo destino tecnológico? Confesso que acho divertido falar sobre Heidegger porque, a partir de sua linguagem, consigo justificar a minha: é como se Heidegger soubesse muito bem o que queria dizer e até pudesse dizê-lo direta e explicitamente, mas, por pura abertura retórica, ele preferisse expressar-se com dizeres obscuros que acabam parecendo cômicos.
Pois a grande questão de Heidegger concerne à ideia de finitude como chave da dimensão transcendental do homem, isto é, entender que a própria impossibilidade do ser humano de perceber diretamente a realidade (em termos kantianos, a impossibilidade da intuição intelectual), o que reflete seu próprio fracasso de existir plenamente, é que constitui sua abertura ao mundo e ao seu horizonte de significado.
Em primeira instância, nós todos fomos lançados numa situação passiva e esmagadora: a existência em si. A partir de então, estamos sempre a caminho de vir-a-ser algo, mas sempre frustrados por nunca conseguirmos ser nada além de quase-mortos. E ao invés de nos limitar, essa finitude é o que permite a mundanidade humana, ou seja, o surgimento de nosso universo de sentido: somente aceitamos algo como “algo”, as coisas somente aparecem de maneira inteligível, atuantes no mundo, incluídas num horizonte de significado, porque não as apreendemos diretamente, mas as projetamos com base em nossa própria finitude.
Nesse sentido, mesmo a noção de infinidade só pode surgir como projeto da finitude, como uma espécie de caminho que só existe num horizonte finito. É assim que devemos compreender a hermenêutica do ser histórico em Heidegger: nossa condição de seres lançados num horizonte histórico contingente, mas insuperável porquanto finito, implica a postura incondicional de que não importa o que decidimos, o que importa é a fidelidade à nossa escolha, assumindo-a como totalmente nossa.
Sob tal perspectiva, é possível entendermos o design como um tipo de estratégia dentro dessa ontologia da existência provisória, como uma abertura retórica (análoga à linguagem obscura e cômica de Heidegger) de assumir determinada tecnologia (um modo de ser no mundo) como um fracasso “só seu”.
Que tipo de fracasso? Arrisco traçar, a partir daqui, uma analogia entre o destino comunal do Dasein individual, a ferida tecno-funcionalista no design e o nazismo de Heidegger. Como mencionei acima, primeiro temos um Heidegger que descreve a essência humana como uma batalha heroica já-perdida (a tentativa humana de impor uma ordem projetada à existência esmagadora) e, depois, um segundo Heidegger que reformula a essência humana como um humilde meio existencial, um signo de “aqui”, de desvelamento do ser.
A diferença reside na possibilidade mais íntima de um ser-para-a-morte individual – a morte autêntica é unicamente minha, não partilhada, só eu posso morrer por mim – reverberar numa comunidade que exibe a mesma atitude: ao se confrontar com um passado concreto (horizonte histórico contingente), o Dasein (ser-lançado-no-mundo) passa a poder escolher um herói e repetir seus atos num destino assumido em comum, servindo como meio (e não mais como fim) do ser.
Ou seja, a morte autêntica individual cede lugar a uma morte sacrificial que fundamenta uma comunidade. Nos termos de Baudrillard, poderíamos dizer que a dimensão do signo passa pela morte do sujeito “funcional” (dimensão simbólica), o que nos permitiria deduzir que a pulsão insaciável da produtividade moderna não é tecnológica, mas econômica – se Heidegger deixa claro que a tecnologia moderna não se dá apenas empiricamente, creio que ela se justifica em seu próprio ambiente, numa dinâmica de mercado (geração de mais-valia) que condena a produção tecnológica atual ao princípio de auto-revelação permanente.
Em outras palavras, enxergo essa transformação das “forças anônimas” do mercado como uma reatualização tecnológica da antiga versão do Destino: se na modernidade a tecnologia parecia um caprichoso e bem calculado projeto socioeconômico (o que se explicita nas propostas da Bauhaus e Escola de Ulm), atualmente esse mesmo processo apresenta-se como resultado coletivo de pessoas que o recebem como um Destino estrangeiro (que não lhes pertence). A partir do momento em que a “função” é cultuada para agenciar sistemática e progressivamente a tecnologia – em relação a um devir, a um tempo e espaço exterior como verdade ontológica –, rompe-se o agenciamento projetual no sentido de anular o sujeito de enunciação.
Eis a ferida tecno-funcionalista do design: todo agenciamento de valor é programado, todo propósito é substituído por um código numa sobrecodificação sígnica dos enunciados, culminando num pseudo-sujeito de enunciação que, de tanto focar-se no futuro, imobiliza-se num tempo que não lhe pertence.
Por isso Heidegger insiste, em suas últimas obras, que quem acredita numa verdade ontológica erra necessariamente a nível ôntico. Com isso, de maneira análoga à ferida tecno-funcionalista do design, Heidegger procura demonstrar que o nazismo não passa do resultado extremo, percebido como forâneo, da busca ontológica de uma filosofia subjetivista que sustenta a atual ética humanista. Convém aqui lembrarmos que, em suas primeiras obras, Heidegger acreditava que a filosofia poderia assumir diretamente a condução das ciências específicas, como se tais ciências tivessem conhecimento de seus fundamentos ontológicos e agissem com base nesses fundamentos. Diga-se de passagem, trata-se do mesmo erro implícito no projeto da Philosophy of Design, uma proposta do final da década de 1990 segundo a qual as teorias do design poderiam formar uma unidade metateórica a partir de seus fundamentos ontológicos.
Não demorou muito para Heidegger enxergar que as ciências “não pensam” e reconhecer que, longe de ser uma limitação, essa seria sua força, a razão pela qual elas são tão produtivas. Disso decorre que o sentido de sua famosa inversão retórica de que “a essência da vitória é a vitória da própria essência” é que não importam as vitórias militares “ônticas”, mas sim a força e a capacidade do povo alemão de enfrentar e suportar uma luta comunal no interior de seu próprio ser. Não significa que para vencer “ontologicamente” é necessário perder “onticamente”, mas apenas que a tenacidade ontológica (o deixar-estar) é o que nos dá a verdadeira força para perseverar numa guerra ôntica interminável.
Significa ressuscitar, trazer à vida novamente uma situação-limite (antiga versão do Destino) de perder-se ou de reconstituir-se frente à morte ou ao nada, à massificação tecnológica, à obsolescência programada. Se a essência humana, seguindo a inversão retórica heideggeriana, é a humanização da própria essência, talvez a essência do design nada tenha a ver com o design enquanto ente ôntico, mas seja antes o design da própria essência. Sob este viés, a tecnologia talvez seja um “fracasso ôntico” partilhado com a espécie humana e, ao mesmo tempo, uma das coisas que nos diferencie ontologicamente, enquanto designers (fracasso ontológico), em relação aos outros com quem convivemos.
Devemos entender que, aqui, tecnologia não significa apenas mero aparato de produção e consumo, mas um modus operandi direcionado à subelevação e à recriação do costumeiro, de modo que o ser-para-a-morte possa ser constantemente reestruturado. Em termos projetuais, o design reestrutura a tecnologia somente enquanto é reestruturado por ela, o que nunca implica uma imitação malfeita do que veio antes – ao contrário, a tecnologia é sempre outra e, no entanto, sempre a mesma.
Ok, se você chegou até aqui, tentarei traduzir o que estou querendo dizer.
Não suponho que o simples fato de havermos nascido como membros da espécie humana nos garanta que sejamos designers – aliás, tampouco nos garante que nos desempenhemos humanamente. Enquanto processo, o design é um potencial (entre outros) que nos permite construir a nós mesmos a partir de determinados mecanismos comunais, dentre os quais a tecnologia – um recurso que o grupo humano possui para promover a autoconstrução de seus membros.
O fracasso é que nossa existência é posta inicialmente, enquanto o que somos é proposto à posteriori, como um projeto irrealizável porquanto finito.
Mas ao invés de nos limitar, esse potencial de design implica a faculdade de escolher livremente dos fins ordinariamente contingentes. Do mesmo modo que o design não se realiza como algo inato e essencialmente bom ou mau, a tecnologia não deve ser entendida como um conhecimento instrumental voltada somente a relações de poder e de dominação. O que acontece é que a voz do design procurar despertar ressonâncias na tecnologia existente, mas ele só pode encontrar ressonâncias na medida em que estiver disposto a aceitá-la.
Portanto, o design não domina, empresta ou se ajusta a esta ou aquela “tecnologia” (no sentido coloquial de ferramenta), mas desperta, revela e provoca diversas tecnologias (no sentido de modos-de-ser no mundo), tentando trazê-las para fora. Pois a tecnologia em si não possui suas próprias verdades, mas é capaz de dar à luz a certas ideias justamente por não pensar por si mesma.
Claro que, neste mesmo raciocínio, a tecnologia é capaz de domesticar, de alienar, de perpetuar relações de poder e potencializar discriminações diversas. Mas ela é também capaz, sobretudo por meio do design, de relativizar e amenizar o efeito perverso dos agenciamentos pré-programados que se propagam nas relações interpessoais.
Como isso poderia ser feito? Dando vazão à potência retórica do design que se inscreve na relação das pessoas com a tecnologia. Significa recusar a decisão sem aceitação tanto quanto a aceitação sem decisão, a contemplação sem ação e a ação sem contemplação. Trabalhar a pedra do mármore para libertar a escultura que adormece em seu interior, retirar do silêncio do instrumento a música que já está contida nele. Enfim, reestruturar e reinventar o que se projeta na medida em que se projeta e na medida em que não há nada a ser projetado.
Heidegger sobre Karl Marx e a mudança do mundo (1969).






