O crítico de arte Reinaldo Azevedo: uma tentativa de entender seus comentários sobre Oscar Niemeyer

Sobre o assunto Niemeyer, postaram-se dúzias de comentários, elogios e críticas nas redes sociais. A crítica mais divulgada e comentada, sem dúvida alguma, foi a de Reinaldo Azevedo. Parei apenas hoje para ler os textos do comentarista sobre o assunto, e, ao que me parece, talvez seja interessante olhar mais profundamente o que este afirma, tentar entender seu ponto e, só depois, fazer algum julgamento sobre. Os textos em questão são esses, e vou tentar me esforçar para entender o que Reinaldo escreve.

Texto 1 - Morre Oscar Niemeyer, metade gênio e metade idiota – link
Texto 2 - Niemeyer e os zurros dos 100% idiotas – link
Texto 3 - Niemeyer, a obra e o pensamento. Ou ainda: Por que ser “poeta da curva” é superior a ser “poeta da linha reta”? – link - 

São, acredito, os principais. Enfim, tentemos entender o que o autor quer com seus textos. Me parece ser o ponto principal uma crítica à postura política do falecido arquiteto, dissociada de sua obra, coisa que ele reafirma com alguma insistência:

- “Um homem não é sua obra(Texto 1);
- “O que fiz ontem, no primeiro texto, foi escrever uma pequena introdução e anunciar que repetia aquele texto. Qualquer pessoa que o tenha lido sabe que fiz um elogio à obra de Niemeyer. Mais do que isso: sustentei que a qualidade do trabalho de um homem e a qualidade de seu pensamento nem sempre andam juntas, são proporcionais ou têm o mesmo sentido(Texto 3);
- “De fato, trata-se um de um artigo elogioso ao trabalho do arquiteto, não o contrário(Texto 2);
- “Fiz com ele, aliás, o que os comunistas não costumam fazer com seus adversários políticos: reconhecer a grandeza da obra, independentemente das escolhas ideológicas do autor. Niemeyer pode ter sido tudo – inclusive o arquiteto de primeira grandeza –, menos o “poeta” humanista que está sendo exaltado nas reportagens de TV(Texto 2);
- “Niemeyer como expressão humanista? Não mesmo! Tinha, sim – e também acho besteira negá-lo –, um talento imenso, que transcendeu sua indigência política(Texto 2);
- “Na verdade, fiz um elogio ao Niemeyer arquiteto, não o contrário. E deplorei uma vez mais sua ideologia, que justificava os piores facínoras(Texto 2);

Etc etc etc. Digo isso para mostrar que o ponto do autor está claro, e que sua discordância com o arquiteto, segundo ele insiste, é “meramente” política, e não artística. Cita, inclusive, diversos outros exemplos onde o autor contesta a ideologia de artistas, mas admira e venera suas obras: Louis-Ferdinand Céline, Graciliano Ramos, Churchill, Ezra Pound (Texto 1).

Um outro parágrafo onde ele quase justifica seu posicionamento é esse:

“Os meus amigos sabem o que penso: artistas jamais deveriam se ocupar de política — não em sua arte. Não acredito em obra engajada, a não ser naquela que expressa melancolia, desespero e saudosismo. A boa arte política é sempre reacionária, voltada para o passado. Artistas que se dobram a utopias finalistas se transformam em prosélitos. Desconheço se Churchill escreveu algum verso ou disse algo relevante sobre a condição humana. Mas, em política, foi o maior entre os, chamemo-lo ainda assim, contemporâneos. Cada coisa em seu lugar. É típico do obscurantismo e da burrice — fascista ou leninista — satanizar a obra deixada por um artista por conta do seu alinhamento ideológico. Seria como censurar Churchill porque mau poeta” (Texto 1).

Ok, aceito que ele pense dessa maneira (afinal, não há outra coisa a fazer senão aceitar), mas critico fortemente essa posição, pois acredito incongruente e descabida, simplista e enormemente reducionista, e escrevo aqui justamente porque acredito ser uma posição relativamente comum e apreciada. Me parece que, para Reinaldo Azevedo, a arte existe num distanciamento entre a realidade e o conteúdo artístico, distanciamento talvez entre vivência do artista e conteúdo de sua obra. Apresenta como exceção apenas a arte que chama reacionária - “A boa arte política é sempre reacionária, voltada para o passado. Artistas que se dobram a utopias finalistas se transformam em prosélitos“.

Estranho esse posicionamento, e gostaria de entender melhor o que Reinaldo trata por política, pois eu não sei se consigo desvincular qualquer prática de determinado conteúdo político – ou, se outro termo também cabe bem aqui, esse termo é ideológico.

Todo ato humano precisa justamente dessa figura, o homem, e todo homem balisa-se sobre uma série de premissas suas que considero ser uma espécie de “estrutura” moral. Assim, toda ação possui uma motivação última por detrás dela. Exemplo clássico: o religioso que faz o bem para ir para o céu. Outro: a professora de história que fala do descobrimento do Brasil possui, nesses termos, um pensamento histórico eurocêntrico. Mais um: o militante que pixa um muro para rebeldemente apresentar seu posicionamento, mesmo que de forma anônima. Outro ainda: o designer que faz um projeto de embalagem de salgadinho sedutorzíssimo a crianças. E este: o vegetariano militante a favor dos animais que compra verduras de grandes produtores, e não orgânicos.  E um último: o artista que usa de ironia numa obra para falar de arte.

Para mim, está mais do que claro que há sempre um framework sobre os quais as pessoas trabalham. Quando há ainda gente que bate em gays na rua, é porque esse indivíduo realmente vê algum valor nisso (valor conflitado com os valores do coitado que apanhou), e se há quem se rebele contra isso em forma de arte, igualmente. Se Vidas Secas (romance elogiado por Reinaldo Azevedo) retrata baleia muito mais racional que seus donos, não é a “pura realidade do sertão” que leva o artista a fazê-lo, mas sim o desejo deste de expressar de maneira alegórica a animalização daqueles no contraste com o animal de fato, e que fica mais patente ainda quando os personagens vão para a cidade e o conflito gerado pelo contexto (a cidade como centro social e humanizado em detrimento do desalentador sertão).

O pai de um amigo meu falou-me certa vez que, na época da ditadura, seus amigos achavam ruim que ele fizesse e cantasse músicas de amor, que não tinham qualquer conteúdo político. A posição dele, entretanto, reflete um pensamento a respeito da política e do amor como necessárias ao contexto social, e não uma vida monotemática como os outros queriam. Um assunto que teoricamente se mantém no nível do “conservador” como o Amor é, necessariamente, envolvido em um ambiente ideológico por aquele que trata do assunto. Aquilo que o Beccari falou algumas vezes do ato de revelar e esconder sobre o design e sobre a “vida” em geral, acontece igualmente na comunicação sem que queiramos: falar de amor ou design em determinado contexto implica em não precisarmos definí-los constantemente, já que há uma espécie de “dicionário” comum, enquanto em outros far-se-ia necessário dizer o que se pensa de ambos (como, sei lá, numa tese de doutorado). Para nós, as coisas já possuem um sentido imbuído e nem sempre nos lembramos do que está escondido, daí a palavra (ou até mesmo situação) assumem um sentido quase naturalizado.

O antropólogo Clifford Geertz tem uma fala interessante nesse sentido:

The battlefield image of society as a claso of interests thinly disguised as a clash of principles turns attention away from the role that ideologies play in defining (or obscuring) social categories, sabilizing (or upsetting) social norms, strengthening (or weakening) social consensus, relieving (or exacerbationg) social tensions” (Geertz, Ideology as a Cultural System)

Esse trecho é interessante para entendermos que quando Reinaldo Azevedo afirma que “a boa arte política é sempre reacionária, voltada para o passado”, seu juízo expõe um posicionamento igualmente reacionário, de manutenção de determinada ideologia encontrada nesse tipo de arte – ela chama-se reacionária justamente porque não se coloca contra valores do passado ou do presente, e enaltece aquilo considerado como “valores universais” e por isso não encontra resistência entre a maioria das pessoas. Assim, diferentemente do que ele tenta fazer-se entender, esse tipo de arte é tão política quanto aquilo que ele chama de política, a única diferença é que a segunda trabalha sobre o conflito de valores, e não a manutenção deles.

E como um último ponto, a maneira que ele trata a obra de Niemeyer como descolada de seu conteúdo ideológico é bastante infantil e ignorante quanto ao assunto “arquitetura”.

Já defendi algumas vezes em conversas por aí que toda frase ou ação deve ser julgada pelos seus próprios méritos, e não pela imagem que a pessoa que a expressa possui. Isso está relacionado ao Reductio ad Hitlerum. Isso é bastante comum nas redes sociais, que quando alguém fala algo que assemelha-se à opinião de Hitler sobre o assunto, esse alguém é chamado de nazista. Ora, se eu disser: sorvete de chocolate é demais, e se por acaso Hitler tivesse dito o mesmo, há alguma relação de identidade de ideias entre eu e Hitler? Não necessariamente. Há uma autonomia daquilo que é dito em relação à imagem da pessoa que o fala, e que pode ser tratado independente dela. Apesar de tudo ter um fundo ideológico, algumas coisas têm um fundo ideológico bem menor, como o caso do sorvete. Se fosse algo mais grave, como “o estado deve ser laico“, a premissa se mantém: essa frase deve ser avaliada pelos próprios méritos dela, e não pela imagem de quem a proferiu. Mas há algo importante: faz parte da frase o contexto no qual foi proferida. O contexto não é a pessoa de Hitler necessariamente, mas seu fundo ideológico, o qual Hitler apoiava e praticava.

Catedral de Brasília – Oscar Niemeyer

Digo isso pois a obra de Niemeyer só pode ser analisada dentro de seu contexto, e seria muito ingênio não identificar na catedral de Brasília algo relacionado ao comunismo: o arquiteto opôs-se à tradicional hierarquia das catedrais, com suas simetrias bilaterais que “elevavam” o olhar do homem ao céu, e o diminuíam para que vivenciasse a humildade necessária a todos. Pelo contrário, Niemeyer projeta um edifício com simetria radial na vista superior e cujo desenho faz-se pela repetição de um padrão ao redor de um círculo, que é uma forma fechada. Não há diferenças de pesos ou de importância, senão um pensamento de igualdade.

Enfim, o texto não pretendeu atacar a figura do homem, apesar de enxergar certa má fé em algumas coisas que ele diz, pois não perceber essas coisas que acima afirmei seria estranho para alguém na posição dele.

Acerca Eduardo Camillo K. Ferreira
Graduado em Design pela FAUUSP. Editor do Design em Artigos, colunista no Filosofia do Design e no Design Simples, editor da Revista Ciano, e sócio fundador da Mínimo Design.

2 Respostas a O crítico de arte Reinaldo Azevedo: uma tentativa de entender seus comentários sobre Oscar Niemeyer

  1. Pam diz:

    Bacana Edu!
    Eu depois que li os textos dia desses estava justamente indignada mais com a parte sobre a arte do que com o resto, nada do que ele disse (que de fato o que pegou mal foi chamar uma pessoa que acabou de falecer de metade idiota) soa tão idiota quanto esse trecho. Afinal fiquei me perguntando o que esse sujeito acha que é arte, o que é bonito e só? Triste alguém pensar assim, até porque pra mim ele se colocou justamente do lado do que ele tanto condena nos textos sobre os comunistas/ditaduras que perseguiram os artistas. Afinal se esses artistas perseguidos assim o foram é porque muito provavelmente na obra desses havia muito de política, afinal o que ameaça a esses governos é a mensagem que o artista pode espalhar. Nada mais ditatorial do que dizer que a arte deve ser apolítica ou apenas questionar o passado, a arte que se cala e apenas agrada o olhar, enfim, enfim…
    E de fato mais estúpido ainda quando fala sobre essa separação entre obra e pensamento. Quando veio a enxurrada de homenagens ouvi uma onde o Ferreira Gullar falava sobre a relação com o Niemeyer, e o jornalista insistia que ele falasse sobre a relação da obra com o comunismo, e ele falava que era uma bogagem. Claro que é questionável pra quem ou em quais situações Niemeyer aceitou projetar suas obras em relação à sua posição política, mas se como o Ferreira Gullar afirma que ele queria exercitar a boa arquitetura e isso ia além da posição política – e apesar de na fau parecer que não, claramente a boa arquitetura varia de pessoa pra pessoa, e contexto pra contexto (quando por exemplo se critica a escolha de fazer Brasília e implantar um modelo em favor dos carros, quantos urbanistas ganharam a oportunidade de implantar de fato uma cidade? e hoje nós sabemos que o carro é um equívoco, mas na época era possível saber? e o modernismo mesmo, ah de se convir que querer que as pessoas vivam em parques é uma idéia bonita), mas concordo com você, se de fato não eram declaradamente comunistas sua obra, claro que dá pra ver suas preocupações expressas na arquitetura.
    Bom, sei lá, fato é que o Reinaldo Azevedo é um tremendo paspalho e nem sei porque eu me dei ao trabalho de ler ele… (ai edu, tô com preguiça de continuar abs)

  2. Vou colar aqui uma resposta que dei a uma conversa no facebook, porque pode ser que mais gente tenha a mesma impressão do texto:

    ” E é bom saber que meu texto ficou confuso, posso prestar atenção nessas coisas para a próxima vez. Mas sobre a aparente contradição, acho que vou tentar esclarecer o que acho.

    A primeira parte do texto é apenas para dizer: uma pessoa não produz nada dissociado de sua própria ideologia. Em especial artistas.

    A segunda parte, quando falo da leitura da obra, essa sim pode ser dissociada (ainda mais porque não conhecemos a ideologia de todas as pessoas que produziram tudo ao nosso redor). No entanto, em leituras mais atentas e aprofundadas, é importante levar em conta o contexto, senão a ideia pode não corresponder àquilo que a pessoa imaginou. Podemos, por exemplo, discutir a frase “o estado deve ser laico” por ela mesma, apenas com isso como informação. No entanto, se foi Hitler ou se foi Dalai Lama que disseram (não sei se esse ultimo disse isso, mas mais a título de ilustração), é possível daí saber melhor qual o intuito de cada um deles em dizer isso. No primeiro poderia ser artifício a promover seu pensamento totalitário, enquanto no segundo poderia ser promover a liberdade do homem sem interferência do estado nisso. São coisas bem diferentes que apenas o contexto pode promover, e aqui não se está julgando a ideia pela imagem da pessoa (a imagem destrutiva de Hitler e a imagem construtiva de Dalai Lama – mesmo meu exemplo parecendo meio caricato justamente por apoiar-se nessas imagens).

    E eu acredito igualmente nisso que você afirma, E. (nome do interlocutor), de conseguimos separar o trabalho da crença. Mas isso também já é um pensamento ideológico da mesma maneira: para nós, os outros não precisam sofrer as consequencias daquilo que acreditamos. Me parece que é possível mudar as coisas sem precisar de um tipo de militância 24h por dia em tudo que fazemos. E isso é minha ideologia. Reinaldo tem a dele, e Niemeyer tinha a dele, e é esse contexto que melhor explica suas ações, e não comparados ao que pensamos. Por isso mesmo me propus no começo do texto a tentar entender o que o Reinaldo Azevedo tinha dito, C.S. (nome de outro interlocutor), e não de cara chutar o pau da barraca e xingar ele.”

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