Real, existente e ficcional
15/12/2012 3 Comentários
Você está em casa, com seus pais, vendo frivolidades na internet, e aí chega sua mãe, com uma foto em mãos. É um bebê. “Olhe, meu filho, como você era!” Você não lembra dessa foto, porque era muito novo; você sequer se reconhece. Então, é mesmo você? Qual a relação entre aquela imagem bidimensional do bebê e você, respirando nesse exato momento?

Abreviando algumas discussões muito ontológicas, eu poderia afirmar que, para cada sujeito, aquilo que não é conhecido, não existe. Por outro lado, a relação contrária não é tão simples. Eu não posso dizer que tudo aquilo que é conhecido, de fato existe. Desse outro ponto de vista, temos que se algo é conhecido, ele não precisa ser real para existir.
Sim, eu estou efetivamente adotando um conceito de realidade como o mundo físico, tangível, para uma sociedade. Sem muitas delongas, conceito simples, que você adota em uma conversa de bar com seus amigos mesmo. Em outras palavras, se há um copo com água na minha frente e dele posso bebê-la, não faz sentido que discutamos a existência dele.
Em qual cenário isso nos deixa? De modo geral, é um pouco pertubador. Um exemplo interessante – que eu já vi que Beccari gosta muito de usar – é o 11 de setembro de 2001: não importa se o atentado foi real – ou seja, que terroristas sequestraram o avião e bateram na torre; o que realmente importa é que ele existiu. Não há dúvidas que as torres caíram e aconteceu a Guerra do Iraque.
Mas, então, o que nos faz compreender que o atentado existiu, se não temos certeza de que ele foi real? É exatamente a mesma coisa que responde qual a relação entre você e a imagem bidimensional que sua mãe te mostrou com tanto carinho e nostalgia: o enredo.
Só recapitulando: o enredo precisa ser conhecido para existir, mas não precisa ser real.
Há outra coisa interessante sobre os enredos: eles são tudo que nós somos capazes de apreender. A razão disso é a mesma da inexistência da verdade absoluta: não é possível compreender um evento de maneira pura, ou seja, eliminando o sujeito que o observa ou presencia. Descartes tentou formular essa hipótese, e chegou à figura de Deus, cuja autópsia já foi feita por Nietzsche.
Vamos tentar conceituar os enredos. Toda comunicação é uma forma de história, e são, portanto, enredos. Eles precisam ser criados; portanto, subentendem um sujeito. Eles podem se localizar em algum lugar de um contínuo que vai da ficção à realidade. É impossível, entretanto, que um enredo seja completamente uma das duas coisas, pois,
o sujeito vai estar inserido em uma sociedade real, portanto nunca será inteiramente ficcional – já que não se cria ex nihilo;
o sujeito nunca vai atingir o fato puro, como já dissemos.
Então, nós podemos atribuir algum grau de ficcionalidade e de verdade aos enredos. Isso, somado à abordagem, é o que gera as classificações dos enredos que nos cercam: diálogos, acontecimentos jornalísticos, historiografia, romances de ficção, de não-ficção, fantasia, ficção científica, fábulas, etc. Mas o que é fundamental nos enredos é que eles são tentativas de entender o mundo.
Do meu ponto de vista, isso evidencia um importante aspecto do nosso zeitgeist: primeiro, porque estamos na era da informação. Ela é nossa moeda de troca: e ela pode ser forjada, manipulada, criada. Todos criam seu enredo no Facebook, porque todos escolhem que fotos, momentos e sentimentos expor lá. Essa é uma das razões que eu acho A Sociedade do Espetáculo tão interessante: ela explicita a relação das imagens e entre as imagens, sobretudo, consumidas.
Além disso, não acredito que seja à toa o crescimento exponencial do mercado de entretenimento, em especial o consumo de histórias de fantasia.
Essa perspectiva é o background de algo que eu gostaria de formular, para tratar o design como narrativa, que vou tentar conceituar em um próximo post.









Estou a muito tentando compreender isso, mas meu campo discursivo é o poético. Você se deu bem nesse post. Parabéns
(C)atar
debulhar
a imagem
das coisas
tecer
destecer
o real
e ao final
nem um grão
para contar
a história
N.S.L.
Obrigado, Norma!
Admiro muito quem consegue se expressar através da poética. Acho que o seu comentário expande de forma muito subjetiva tudo isso! Muito bom!
Fala Eduardo! a alguns dias atrás (2012) participei no debate da RLab (SP) falando sobre o futuro do Design (e outros baratos da pros-ficção).
Durante a discussão, fiquei intrigado em perceber que a construção da Realidade (uma malha que interlaça o que entendemos da Relalidade Objetiva com a Relidade Subjetiva) ainda não é um tema muito conversado pelos congregados do Design.
E ai me surgiu uma pergunta “Para qual realidade os Designer estão realmente projetando?”
[Vejo que a maior dificuldade de lidarmos com isso ainda passa pela situação de lidarmos com problemas tipo "&", ao invés de tratá-los como revamp do estilo de vida "ou" da decada de 80 - "Design - Ilumina o caminho para ser trilhado & (ou) Trilha caminhos nunca dantes iluminado"]
Aguardarei a continuação do seu post! Abraço