quando se fixa um centro, não se avista a circunferência.
25/12/2012 3 Comentários

Será preciso, primeiro, partir-lhes as orelhas, para que aprendam a ouvir com os olhos? – Friedrich Nietzsche, Assim falou Zaratustra. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2007, p. 40.
Tem sido impossível arranjar tempo pra escrever porque estou me mudando para SP, mas antes que 2012 termine, quero registrar que eu AINDA acho que a confusão e o ruído (ao invés de clareza) podem ser bastante úteis no design.
A pergunta que marcou meu ano foi “por que não é preciso ter olhos para enxergar as coisas?”, quando eu explicava para alguém (não lembro quem) minha pesquisa de mestrado. A resposta foi algo como: veja, não é apenas uma questão de percepção, porque nem sempre existe um “eu” que enxerga as coisas. Até certo ponto, somos espectadores do que vemos ou somos a própria coisa vista, MAS existe um estado no qual a coisa percebida e quem a percebe se fundem, e isso já não é percepção, é uma experiência ficcional.
No fim, eu disse que a própria ideia de “enxergar” é uma armadilha, porque ninguém enxerga plenamente e, de maneira retórica, enxergar pode não passar de uma performance, uma tentativa de pronunciar certo “silêncio incômodo” que é feito mais de reação do que de ação. “Beccari, não complica, isso tá muito confuso!” – então, mas é disso que eu tô falando. De fato é difícil de explicar, mas essa inconsistência retórica é justamente o que nos permite enxergar melhor com os “olhos fechados”: eu SEI que meu interlocutor não vai entender boa parte do que eu digo, mas vai achar que faz algum sentido.
Isso marcou meu ano porque, quanto mais eu me esforçava para ser claro (em textos, aulas, vídeos, debates etc.), aparentemente mais eu me tornava confuso, contraditório e inconclusivo. Acontece que somente agora, ou mais uma vez (só que diferente), consigo enxergar que este dilema provém do meu próprio modo conspiratório de pensar: nunca entendo exatamente o que está acontecendo, mas sei que deve fazer algum sentido.
A chave reside neste “deve”, que marca a diferença mínima entre nada e coisa alguma, entre silêncio e ruído. Como sabia Heidegger, todo discurso responde ao silêncio, de modo que é muito trabalhoso criar silêncio – é quase como um oleiro modelando o vazio para fazer surgir um vaso.
Só que no âmbito do design, onde a dimensão visual prevalece, a antimatéria criadora não é o silêncio (à espera de ser quebrado pela palavra), mas o ruído, este murmúrio confuso entre barulho e silêncio, no qual ainda não há nenhuma distinção entre figura e fundo.
Com isso quero dizer que, se eu continuo exigindo certa concentração e força de vontade de meus leitores, na verdade é porque eu tendo a confiar bastante neles, ainda que essa relação de confiança possa não ser recíproca. O que eu tento fazer, tanto como pesquisador quanto como professor ou blogueiro, não é apenas levantar provocações confusas para exibir habilidades intelectuais, mas somente e sobretudo criar ruído – gerar desconforto para despertar e dar vazão à capacidade intelectual de meu interlocutor.
Sei que essa estratégia não é bem aceita por todos, principalmente o público de design. Mesmo assim, de modo ingênuo ou não, ainda confio nesse público. Pois a partir do momento em que eu não conseguir mais confiar nesse público, minha postura será muito mais clara e fácil de entender: a filosofia e o pensamento teórico são inúteis para o design, designers não precisam de conteúdo e talvez seja até ruim que exista gente tentando produzir questionamentos teóricos que não são do interesse dos designers.
E sabe, mesmo que eu já desconfie que talvez seja isso mesmo, sempre acreditei que o importante é aquilo que os designers pensam (quando pensam), não o que os teóricos do design acham que eles deveriam pensar. Não é apenas que designers não sabem ler e muitos nem querem aprender – o que é verdade –, o que acontece é que, paradoxalmente, qualquer texto superficial e didático tende a dificultar o pensamento dos designers ao invés de facilitar.
Com isso quero enfatizar que a produção teórica que eu conheço em design valoriza demais um pensamento claro, fechado e super fácil de entender, o que acaba sufocando uma discussão que os designers poderiam querer criar por si mesmos.
Designers não pensam de maneira sistemática e, portanto, não adianta falar de “conteúdo” sem falar de “formato”. Ou melhor: as reações provocadas (ruídos) por um questionamento teórico influenciam muito mais do que o assunto em si sobre o qual tratam tais questionamentos. Logo, transmitir um conteúdo de forma “direta e reta” (com tópicos e gráficos de auxílio) me parece muito arriscado no design porque tende a anular toda a potencialidade desse conteúdo.
[Um adendo: dito isso, todavia, eu realmente tenho me esforçado para ser mais claro e didático em minhas ideias. Sei que isso não é algo fácil e simples de se fazer, mas acho que a única razão de eu tentar fazer isso é porque, além de eu ganhar pra isso, tem sido mais divertido colocar as coisas em caixinhas bonitinhas antes de começar a bagunçar tudo de novo. Mesmo assim, não consigo apresentar ideias como sendo "certas" ou "importantes"; são apenas situações em que definir de maneira simples e direta parece ser algo interessante de se fazer.]
A questão é que eu tenho uma suspeita forte, embora nada posso provar, de que o fator determinante para que uma “filosofia do design” possa se desenvolver é a atitude dos designers frente a esta filosofia. Essa atitude se espalha de maneira viral, e ela pode vir de um teórico ou professor, mas muitas vezes vem de alguns estudantes que estão mais ligados – algo como “propagadores naturais” do ruído. Eu não deixei de ser estudante até agora e, somente por isso, acho que ainda tenho muito a contribuir criando e propagando ruído.
Os livros de filosofia com “mais conteúdo” são, pra mim, justamente aqueles que têm “menos a dizer” por serem confusos e inconclusivos (Nietzsche, Deleuze etc.), já que seus autores tinham essa vontade de estar abertos a deixar com que seus leitores levassem suas ideias adiante.
O problema no design é que, quanto mais um autor (ou qualquer pessoa que seja cheia de si o suficiente para achar que tem algo relevante a dizer) “sabe” qual é o conteúdo mais apropriado para os designers, menor é o poder desse autor de influenciar aquela atitude viral nos designers. Todo mundo sabe que eu adoro escrever e discutir assuntos cabeções, mas em sala de aula, por exemplo, minha atitude é mais de eu tentar ouvir e me empolgar quando algum aluno gera algum ruído que me parece “fértil”.
Acho que todo o meu aprendizado foi construído dessa forma: eu sempre queria “ousar”, mas só consegui ousar aprendendo a errar. Os erros em si nos solicitam silêncio, mas aprender a errar implica transformar o silêncio em ruído: entender que minha incapacidade de compreender algo também faz parte deste algo a ser compreendido.
[Uma pausa agora, por gentileza, para uma singela performance prosaica, isto é, anotações que fiz ao acaso.]
Assim que cheguei em São Paulo, eu vi. Mas não achei nada porque me perdi quando vi. Não tinha muito tempo para me concentrar nos detalhes, então eu ficava apenas olhando. Fomos a um desses grandes shoppings a céu aberto nos quais tudo é cor, gritaria e movimento e onde ninguém parece sentir calor. Mesmo com a falta de oxigênio no ar, eu respirava melhor junto com aquela gente toda gozando uma frágil sensação de <ainda> existirem. Talvez porque, embora nascido e crescido ali, eu ainda não exista ali. Ou talvez porque eu estava dormindo acordado, estado no qual não há nem sujeito observador e nem objeto observado, apenas o mundo, este sonho exuberante feito de múltiplas formas e influências. Que um dia acaba.
O ruído era absurdo por denunciar a ínfima inconstância de sua própria frequência, todos aqueles mínimos segundos que marcavam o fim e o começo absoluto de tudo até então. Os fragmentos pareciam remontar aquela frase de Pascal: “a natureza é uma esfera infinita cujo centro está em toda parte e a circunferência em parte alguma”. Porque começou a chover, e o guarda-chuva de dez reais absorvia as gotas de sons que ecoavam de certo abismo de memórias insistentes em misturar e reconstituir as mesmas cores que se apagavam.
Eu não queria sair de minha vida para que alguém entre nela, eu pensava que só cabia eu em mim. Mas também sabia que eu me encontraria neste lugar em que não seria mais eu mesmo, já que o fio a ser reatado nunca foi, na verdade, rompido. Em todo caso, eu não queria perder esse (re)começo por nada. Um começo é sempre inesquecível como são todas as coisas perdidas para sempre – porque é quando não compreender faz todo o sentido.
[Desculpa. O que eu estava dizendo?]
Claro que nossa compreensão é determinada por causas diversas, mas o ato de compreender implica determinar quais as causas que irão determinar nossa compreensão. E o efeito do ruído é paradoxalmente a causa de sua causa, o que na prática se traduz em uma tranquilidade que incomoda. Tranquilidade para que haja a confiança e a abertura necessárias ao desejo curioso de conhecer sem medo; incômodo que nos motiva a ouvir a ambiguidade daquele ponto em que o silêncio se decompõe em imagens.
Neste ponto, os olhos nos afastam da visibilidade. É aqui que se fundem o olhar e a coisa vista, gerando um ruído a partir do qual nos tornamos o meio por onde as coisas “aparecem” ao mesmo tempo em que as vemos e as fazemos aparecer. Assim, creio que a dificuldade (ruído) de compreensão e de se fazer compreender pode se tornar uma qualidade a ser preservada, uma forma de perseguir uma resposta impossível de ser alcançada porquanto sempre provisória e duvidosa.
Mas se é impossível de ser alcançada, qual o sentido de continuar atrás dela?
Ampliar nosso alcance intelectual, nossa sensibilidade a ruídos, um exercício inútil mas cujo esforço empregado (aquela desconfiança de que deve fazer algum sentido) é o único acesso ao impossível, ao desconhecido – como se cada desafio fosse o próprio caminho a ser trilhado, como se cada ruído destilasse um silêncio impronunciável.
Nesse final de 2012, enfim, gostaria de pedir a quem estiver disposto a escutar: por favor, estude o que você gosta de estudar, não porque seja importante para a faculdade ou para a profissão, mas porque é importante para você, para o teu intelecto. Compreender não é tão importante quanto continuar tentando compreender – o poder intelectual está precisamente nesta relação conspiratória de incompreensão parcial sobre as coisas.
Trata-se de uma abordagem que incomoda, não por ser simplesmente “confusa”, mas porque é mais difícil mesmo: ao invés de se adaptar ao conhecimento, fazer com que ele se adapte a você. Este é precisamente o sentido que vejo na filosofia em relação ao design: fazer VER o ruído sem prolongar nem interromper o silêncio, mas destilando-o e fecundando outros tipos de silêncio. Não se trata de ver algo que ninguém viu ainda, mas de tentar pensar o que ninguém pensou sobre algo que todos vêem a todo instante e em todo lugar. Em suma, enxergar o ruído com ouvidos perspicazes.
A send-off in style | Reggie Watts (2011)
“Acho que a arte do discurso dele está, no ponto de vista do receptor, em se perder e se achar na razão, talvez como num mosaico em construção acompanhado por uma lupa. Quero dizer que no final tudo faz um certo sentido e fica maneiro assim. Gosto dele mais pela forma de consumir suas ideias do que por elas mesmas, limpas no seu significado. Então, para mim, quanto mais louco, mistico e nebuloso, mais legal. Desde que, claro, se explique no final.” – comentário de Razrtrash no meu último vídeo p/ revista Leaf. É nóis ;]
[Por fim e não menos importante: nos últimos anos tive a sorte de ter sido orientado por alguns professores (em especial Stephania, Gloria e Rogério) que ampliaram meu alcance “auditivo” ao aprofundá-lo: afastando meu medo de não compreender conceitos complexos, guiando-me na busca por aquilo que mais gosto de fazer e, assim, ajudando-me a fazê-lo cada vez melhor. Aos poucos tenho buscado ampliar meu alcance por conta própria na medida em que eu tento, do mesmo modo que tentaram comigo, ampliar o alcance dos outros. Portanto, quero agradecer aos professores, amigos, alunos, leitores e ouvintes que este ano fizeram de meu aprendizado não um trabalho, mas uma permanente descoberta. Por terem me apoiado quando as coisas pareciam difíceis, por alegrarem-se a cada conquista que eu alcançava. Sobretudo por fazerem com que eu me sentisse uma pessoa de valor, por me convencerem de que eu posso ser muito mais do que eu imaginava. Obrigado.]







Depois de um relato tão lúcido quanto complexo, eu só tenho a dizer que, caralho, cara, parabéns. Acho que você, Ivan e todo o pessoal do Anticast e aqui do Filosofia têm feito uma puta diferença; e eu fiquei impressionado de ver que isso tudo existe há mais ou menos dois anos.
De minha parte, eu só posso agradecer, porque toda essa produção de vocês tem alterado bastante minha visão de design – e até das coisas – em um momento em que essa mudança vem sendo crucial. E eu só posso esperar que vocês continuem tendo condições de levar isso adiante durante muitos anos aí na frente e tentar colaborar de alguma maneira para isso.
Com relação ao comentário de Razrtrash: perfeito! Particularmente, me perco muito nos vídeos e em grande parte dos textos; e aí preciso voltar, reler, rever e aí tentar criar meu próprio sentido para grande parte das relações, porque, sim, deve fazer algum sentido.
Continuem com esse trabalho foda que vocês fazem; eu tenho certeza que vem causando bastante ruído por aí. E feliz ano novo!
Obrigado Eduardo! Fico muito contente que esteja apreciando nossos ruídos e, com isso, propagando-os também. Que tenhamos um ótimo 2013!
Para complementar, deixo abaixo um trecho que roubei do marcinho no blog dele (http://lessertruth.wordpress.com/), acho que tem tudo a ver.
parabpens pelo postt