O que filosofia tem a ver com design?

* texto originalmente publicado na Revista Clichê.

A princípio, nada. É assunto chato de filósofos e suas teorias inúteis. Além do que mais, nunca acreditei numa “sabedoria” que supostamente nos ajude a “melhorar” quem somos e o que fazemos. Mas o que eu tenho percebido é que, quanto mais estudo filosofia, toda e qualquer sabedoria se torna menos importante do que a capacidade de entendê-las de uma forma que eu não conseguia antes.

Assim como a maioria das pessoas, sempre fui afetado por inconvenientes como injustiças, normas, fofocas, desentendimentos etc. Acontece que, a princípio, nenhuma dessas coisas existe. Elas simplesmente não existem porque são coisas tão previsíveis quanto a própria objeção que essa afirmação provoca. A própria noção de que existe uma “reação” ao que eu acabei de dizer já configura uma experiência inexistente porque ela ultrapassa a experiência vivenciada imediata e diretamente (o conteúdo do que eu disse).

Na maior parte do tempo, no entanto, são essas coisas as que mais nos afetam. E na medida em que nos afetam, elas se tornam mais reais do que aquilo que existe. Então os objetos que nos cercam, os produtos que consumimos e as marcas que nos atraem deixam de ser meramente reais e se tornam uma forma indireta de realizar nossos afetos.

Esta inversão é uma forma de se entender o design. Claro que existem outras formas, mas isso ilustra como a filosofia nos permite negociar nosso próprio entendimento sobre as coisas por meio de ideias (e não somente palavras e conceitos) que não tínhamos antes. E o que eu desconfio, na intenção de propor, é que cada ação de design testemunha um pensamento filosófico na medida em que pensamentos filosóficos são eles próprios processos de design.

Espero que este breve devaneio tenha funcionado como um convite não apenas ao meu blog e aos meus vídeos, mas antes ao aprofundamento filosófico no design. Um convite sempre em aberto porquanto ainda sejam imprevisíveis os frutos que dele resultam.

[Este post, cujo questionamento provém do último evento promovido por meu colega Daniel B. Portugal (no qual infelizmente não pude estar presente), é uma introdução à minha nova coluna quinzenal, sobre Filosofia do Design, no blog da Revista Clichê.]

Bate-papo com o Prof. Dr. Rogério de Almeida (FE-USP) sobre filosofia e design.

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Acerca Marcos Beccari
Nascido em São Paulo/SP, Marcos Beccari é designer gráfico e mestre em Design pela UFPR e doutorando em Educação na USP. Interessa-se por Filosofia, Psicologia e Comunicação, o que o levou a pesquisar sobre Filosofia do Design e a encarar o design como articulação simbólica na mediação ficcional entre o sujeito e o real. Atualmente é professor de Design e Comunicação e coordena o blog Filosofia do Design, além de integrar o podcast AntiCast e colaborar com outros blogs/revistas de design e comunicação.

2 Respostas a O que filosofia tem a ver com design?

  1. Não sei se é válido neste caso, mas num trecho de uma entrevista, Peter Sloterdijk relaciona de certa forma design com filosofia, vou postar a parte em que ele cita essa relação e deixo o link da entrevista na integra.

    Entrevistador: – Mas esse filósofo também precisa saber desenvolver ideias, ou não?

    Sloterdijk – Ele não faz outra coisa. Filósofos são produtores de conceitos, é esse o seu ofício. Eles vivem numa oficina onde se leva adiante o desenvolvimento de concepções que já existem. E essa é a relação interna com a atividade de designer. Pois design jamais significa inventar algo do zero, mas sim repensar mais uma vez objetos já existentes radicalmente – a partir das moléculas, por assim dizer –, de modo que sua aparência possa se transformar de novo. Embora o princípio da utilização, como tal, pareça ter chegado ao grau definitivo de desenvolvimento.

    Aparentemente, a maioria dos conceitos num vocabulário genérico já existe há muito. Mas olhando-se um conceito de perto e o reprocessando, é possível dar seguimento à sua construção. Esse tipo de trabalho tem que estar sendo sempre recomeçado. Por isso, vivemos na era do design e do trabalho conceitual: a permanente reinvenção do mundo, partindo do princípio de que ele já existe e ainda assim não basta. De modo que sempre temos uma razão para começar tudo de novo.”

    integra da entrevista http://www.ihu.unisinos.br/noticias/43189–filosofos-sao-produtores-de-conceitos-diz-peter-sloterdijk

    E parabéns pelo blog.

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