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28/01/2013 1 Comentário

“Os matemáticos terão de transformar-se em poetas; os ciberneticistas, em filósofos da religião; os médicos, em compositores; e os trabalhadores da informática, em xamãs.” – Peter Sloterdijk, Regras para o parque humano: uma resposta à carta de Heidegger sobre o humanismo (São Paulo, Estação Liberdade, 2000, p. 365).
O que a espetacularização contemporânea do “eu”, regada a infecções zumbis e autoajudas espiritualistas, tem a ver com a popularização e a valorização do design?
Tudo parece acontecer no deslocamento e na sobreposição da representação do “eu” para a experiência de não haver mais um si mesmo. A noção de um “projeto” como capacidade de responder a elementos como desordem, contingências, instabilidades e infidelidades do meio/contexto cede lugar a um conjunto de experiências efêmeras que vai se desdobrando em outros conjuntos aparentemente mais coesos e impactantes.
Nossa velha discussão sobre forma x função, por exemplo, endossada pela dicotomia interpretação x verdade (em voga desde a virada linguística), tem sido cada vez mais jogada para escanteio por ocasião de duas tendências “pós-modernas”: ou renunciamos totalmente à dimensão (funcional) da “verdade”, restringindo-nos à inter-relação (formal) das múltiplas interpretações possíveis; ou nos esforçamos para discernir uma dimensão da verdade fora da interpretação, uma função fora da forma.
Em outras palavras, a autodissolução do “eu” e/ou a síntese gnóstica new age.
1. Cinquenta tons de cinza
O que eu quero dizer pode ser esclarecido, de modo notadamente descontextualizado, por meio da alegoria da caverna de Platão. Uma das interpretações mais comuns é a de que percebemos a realidade sob um ponto de vista limitado ou distorcido, confundindo falsas imagens com as coisas reais.
O problema dessa interpretação é que ela nos coloca na posição de um suposto observador externo que, em sua perspectiva neutra, poderia distinguir a realidade verdadeira da percepção errada e distorcida.
Ora, se a metáfora implica que todos nós sejamos essas pessoas da caverna, tal posição já estaria, por certo, mergulhada numa espécie de meta-caverna.
Interpretações “pós-modernas” para tal alegoria, no entanto, parecem seguir por um caminho inverso. Parte-se da ideia de que a caverna representa a própria expectativa de que existe uma “realidade verdadeira” fora dela. Ou ainda que o sujeito observador é ele próprio uma sombra na parede, o efeito duvidoso de um longo processo de destilar e extrair pistas das pequenas inconsistências da fonte central de luz – como o gato do filme Matrix, que passa duas vezes pela soleira da porta indicando alguma falha no funcionamento da Matrix.
Quer dizer, ou acreditamos que há infinitos níveis da caverna, podendo até concluir que não existe nada além de cavernas, ou mantemos a imagem de uma mesma e única caverna, com a condição de que não haja ninguém (nenhum sujeito observador) dentro dela. Não há nada fora ou não há nada dentro.
Por via das dúvidas, o design parece apostar na possibilidade de que haja algo entre, na interface, chegando por vezes a propor que não exista nada além de paredes que separam o dentro do fora.
2. Crepúsculo
Devemos insistir, o que também implica reinterpretar, na necessidade de uma filosofia para o design das cavernas. Não se trata de propor um design filosófico ou uma filosofia designística. Trata-se de fazer filosofia como um designer, de ser “designer em filosofia”.
Em entrevista recente (compartilhada por nosso leitor Arthur Siscoutto em meu último post), o filósofo contemporâneo alemão Peter Sloterdijk afirma que a atual marginalidade dos filósofos, numa época em que catástrofes fomentam certo imperativo de “despertar”, aproxima-se cada vez mais do trabalho dos designers – não obstante, Sloterdijk também atua como reitor da Escola Superior de Design em Karlsruhe.
Pois design jamais significa inventar algo do zero, mas sim repensar mais uma vez objetos já existentes radicalmente – a partir das moléculas, por assim dizer –, de modo que sua aparência possa se transformar de novo. [...] Esse tipo de trabalho tem que estar sendo sempre recomeçado. Por isso, vivemos na era do design e do trabalho conceitual: a permanente reinvenção do mundo, partindo do princípio de que ele já existe e ainda assim não basta. De modo que sempre temos uma razão para começar tudo de novo. [Peter Sloterdijk, 2011]
De acordo com Sloterdijk, mudanças paradigmáticas não passam de reconciliações entre o novo e o velho num processo civilizatório, de reconstrução do real: a caverna como modelo de lar ou abrigo, construída justamente para (re)separarmos o lado de dentro do de fora e, assim, sabermos que o lado de fora é hostil e perigoso.
Quando resultados científicos, por exemplo, confrontam nossas crenças tradicionais, procuramos encontrar um modo de reintegrar divergências e contradições, como se houvesse sempre algum detalhe que reconectaria os pontos e que ainda não descobrimos. Portanto, o “despertar” não é sair da caverna, mas reconstruí-la quando há essa demanda de expandir nosso universo de sentido sem abolir as antigas ideias.
Caso essa tarefa de mediação – ou mesmo de design, como coloca o autor – venha a falhar, ficaríamos presos num dilema cavernístico: ou a recusa reacionária de aceitar novos parâmetros ou a perda dilaceradora do próprio domínio do sentido.
Este talvez seja o frágil muro sobre o qual estaríamos tentando nos equilibrar hoje: tudo desapareceu e, ao mesmo tempo, tudo está preservado, catalogado, guardado para um futuro extinto.
3. Harry Potter
Cabe ao designer o desafio de não apenas agenciar enunciados a partir de enunciados já agenciados, mas fazê-los funcionar em conjunto, fazê-los enunciarem-se e agenciarem-se por conta própria, como uma simbiose que faça germinar a semente do “quanto maior o conhecimento, menor a compreensão”.
Na contramão de um romantismo industrial que ainda insiste em cultuar a homogeneidade/padronização, cada vez que uma mesma “função” se repete no design, surge uma possibilidade formal diferente e assim por diante.
Para lidarmos com isso, devemos ser mais audaciosos que a própria filosofia: os enunciados devem escapar de seus termos e do conjunto de seus termos, para fora de tudo o que poderia ser determinado filosoficamente como atributo ou “ser”, como luz real ou sombra projetada.
Ao invés de determinar diretamente o que estamos projetando, qual é o uso adequado, o que significa este produto ou aquele logotipo etc., convém começar fazendo a inferência “errada”, de tal modo que o sentido equivalente só apareça por meio da diferença entre as interpretações habitualmente reproduzidas, como um design que fundamentalmente acontece na margem das lacunas interpretativas.
4. The walking dead
A incompletude interpretativa é a diferença mínima que marca a não coincidência do eu consigo mesmo. Sendo o eu uma interpretação fatalmente distorcida do olhar do outro sobre mim mesmo, como eu agiria numa situação de catástrofe? Ou melhor: será que eu agiria como (eu espero que) o outro espera que eu agisse?
A possível não coincidência entre as respostas parece virtualizar as paredes de uma caverna “pós-moderna”. Mas quem é que nunca perguntou a si mesmo se, afinal, existe um eu esperado pelos outros? Se ainda existe alguma possibilidade de eu em meio a tantas outras sombras projetadas? De fato, é difícil enxergar as mediações. É preciso ser criativo, é preciso ser designer, é preciso guardar um segredo.
E o que seria da filosofia sem a arte de inventar segredos? Os grandes filósofos sempre foram, secretamente, outra coisa que não filósofos propriamente. Produz-se filosofia na margem de qualquer atividade, nos acontecimentos que não se deixam esgotar pelos fatos, nas especulações que não se fixam em princípios.
Necessário é sair da filosofia, fazer não importa o quê para poder finalmente produzi-la a partir das margens, onde o design efetivamente acontece. Trata-se da experiência de uma catástrofe apocalíptica, que é também a experiência de guardar um segredo, sabendo que o grande segredo é quando já não há nada a esconder.
Análise do filósofo Vladimir Safatle sobre a filmografia marginal de David Cronemberg para o CPFL Cultura (2012)
Leitura complementar: A cautious Prometheus? A few steps toward a Philosophy of Design (with special attention to Peter Sloterdijk) – artigo em inglês de Bruno Latour.








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Vladimir Safatle comenta o cineasta Cronenbergh.