Projetando focinheira para vampiros
03/02/2013 Deixe o seu comentário
Passei os últimos meses (e ainda continuo) em verdadeira maratona intelectual, tentando dar forma a minha pesquisa de doutorado sobre diferentes modos de enxergar as possibilidades e motivações para controle dos próprios desejos. Aproveitando o sucesso estrondoso da Saga Crepúsculo, começo tal pesquisa com uma leitura da saga.
Imagino que todos os leitores saibam – requisito mínimo de erudição pop – que um dos pontos centrais da história é a luta de alguns vampiros para controlar seus impulsos. Edward, o vampiro galã protagonista, passa a maior parte de Crepúsculo tentando controlar sua sede pelo sangue de Bella, sua amada. A cada momento, ele tem de lutar entre seu desejo vampiresco de matá-la com um chupão sanguinolento e seu humano, demasiado humano, amor romântico que o impele a protegê-la e a fruir de sua doce presença.
Embora o autocontrole seja especialmente difícil com Bella, Edward não o exerce apenas aí. Ele faz parte de uma “família” de vampiros (os Cullen) que decidiu se abster de sorver sangue humano. Os membros da família Cullen se comparam a vegetarianos – uma vez que o sangue humano seria como a “carne” dos vampiros –, mas o tipo de controle que eles têm que exercer sobre si mesmos para não chupar sangue humano é muito mais próximo do que seria para nós um controle sexual ou de agressividade. Isso porque a mera percepção de sangue pode embriagar um vampiro a ponto de deixá-lo fora de si. Como Edward explica para Bella em Crepúsculo (filme): “quando nós [vampiros] provamos [ou até mesmo quando sentimos o aroma de] sangue humano, uma espécie de frenesi começa. É quase impossível parar”.
Em um momento de devaneio, fiquei imaginando o que aconteceria se os ricos vampiros da família Cullen requisitassem auxílio profissional de um designer para que este concebesse algo que ajudasse os vampiros vegetarianos a controlar sua sede.
Para dar uma ajuda aos hipotéticos designers de plantão, comecei a pensar em soluções projetuais que já teriam sido oferecidas para problemas semelhantes. Mas… o que seria um problema semelhante? Bem, aqueles que, como eu, nunca experimentaram nada parecido com a ira de Aquiles ou com o frenesi de batalha do herói celta Cuchulainn, provavelmente só pensam em uma experiência que se assemelha àquela descrita por Edward. É só durante momentos de extrema excitação sexual que poderíamos copiar a descrição do vampiro: “uma espécie de frenesi começa. É quase impossível parar”.
Sim, a sede dos vampiros é muito semelhante à excitação humana. Com efeito, não parece muito fora de propósito pensar que boa parte do sucesso da saga Crepúsculo se deve à tensão que se instala na relação entre Bella e Edward – tensão que retoma uma outra, muito semelhante, que poderia existir na época em que uma moça de boa família tinha que casar virgem. Havia sempre o perigo de um namorado perder o controle nos jogos eróticos pré-nupciais e morder o pescoço, quero dizer – bem, vocês entenderam – da garota.

Para evitar esse tipo de coisa, havia quem usasse – por vontade própria ou imposição alheia – esse aparato um tanto grotesco conhecido como cinto de castidade (tanto na versão masculina quanto na feminina). Ao que parece, a invenção começou a ser utilizada por volta do século XV e se tornou relativamente difundida no século XIX, voltando a cair na obscuridade no século XX, embora ainda existam diversos modelos à venda nas sex shops (existe inclusive um site dedicado exclusivamente à venda de cinto de castidade masculino). Os cintos aparentemente eram usados majoritariamente com objetivos distintos do mencionado acima, embora ninguém saiba dizer ao certo quais. De todo modo, um que é muito bem documentado – e parece ser a razão da popularidade do aparato no século XIX – é inibir a masturbação dos jovens. Não apenas a moral dominante via tal prática como sinal de corrupção da jovem alma, incapaz de resistir ao chamado dos prazeres, como acreditava-se (opinião endossada pelo saber médico da época) que a masturbação causava todo tipo de problemas (queda de cabelos, perda de memória, cegueira, loucura, tuberculose etc.).

Mas, é claro, o cinto de castidade é apenas o aparato mais grosseiro de restrição sexual. De uma maneira menos direta, existiam diversos outras formas de utilizar certos aparatos para inibir práticas sexuais. Como nos mostra Foucault, no volume 1 de sua História da sexualidade, podemos enxergar até a arquitetura de um colégio do século XIX como sendo projetado, em parte, com tal fim em mente.
O espaço da sala, a forma das mesas, o arranjo dos pátios de recreio, a distribuição dos dormitórios (com ou sem separações, com ou sem cortina), os regulamentos elaborados para a vigilância do recolhimento e do sono, tudo fala da maneira mais prolixa da sexualidade das crianças (FOUCAULT, M. História da sexualidade 1: a vontade de saber. Rio de Janeiro: Graal, 1988, p. 34).
Foucault percebe ainda que tal tipo de arquitetura, assim como o cinto de castidade, faz parte de uma rede discursiva mais ampla que, em última instância, valoriza o sexo (como forma de explicação para diversas coisas, por exemplo) tanto quanto inibe diversas de suas práticas. Isto é, o fato de se querer proibi-lo tão desesperadamente e de dar tamanha importância ao assunto em tantas situações (o exemplo mais grotesco sendo, sem dúvida, a cruzada contra a masturbação) mostra que a repressão sexual é parte de uma rede mais ampla que incita a se dar gigantesca importância ao sexo ao mesmo tempo em que reprime suas práticas. Seguindo em uma análise como esta, observaríamos que o design está sempre inserido em um complexo campo discursivo e é somente neste campo que o design pode existir como design. Mas vou deixar para outra ocasião uma reflexão mais aprofundada sobre este tema…






