Dilemas do Design VI – valor e avaliação

* texto originalmente publicado na Revista Clichê.

“O segredo da maestria é que não há mestre.” – Georges Gusdorf, Professores para quê? (São Paulo, Martins Fontes, p. 318).

Imagine que você é um professor de design editorial e nenhum de seus alunos sabe o que significa “kerning”. Exceto um, que inclusive trabalha nessa área já faz uns dez anos. A princípio, você teria duas opções: (1) começar do básico e fingir que aquele aluno não existe, nota 10 pra ele e pronto; (2) avaliar cada aluno de acordo com seu próprio “esforço”, isto é, do quanto cada aluno progride dentro de seu “nível” individual. Leia mais…»

Livro “Existe Design? Indagações filosóficas em três vozes”

Três vozes, quatro perguntas, doze ensaios que propõem horizontes de respostas. É através deste formato que os autores deste livro nos convidam a refletir filosoficamente sobre o design. Em meio aos ensaios, a um só tempo densos e saborosos, vemos surgir três perspectivas complementares do design. São diferentes formas de encarar sua existência, suas diversas utilidades e inutilidades, suas dimensões morais e estéticas, seus percursos históricos e teóricos, suas características e potências específicas. Um livro para designers intelectualmente inquietos e para amantes do pensamento interessados em design.
[texto da 4ª capa do livro]

Texto de divulgação: Existe design? Esta é a pergunta que intitula o novo livro da editora 2ab, publicação inaugural da série Filosofia do Design. Pode ser que a pergunta pareça tola – e talvez seja, até mesmo tolice pura. Por sorte, há quem não se detenha frente a perguntas assim. Afinal, são justamente estas que não admitem respostas prontas e chacoalham a poeira do senso comum. É este o objetivo do livro “Existe design?: indagações filosóficas em três vozes”. Trata-se de um livro escrito especialmente para o leitor que não foge das perguntas tolas.  Leia mais…»

Do livre afeto não arbitrável

Negar o livre-arbítrio é entendido, no senso comum, como negar liberdade. Ainda que fosse uma simples questão de resistência contra um suposto determinismo mecânico e fatalista do universo, nunca sabemos se essa resistência já faz parte de tal mecanismo fatal. Contudo, não é só disso que se trata. As pessoas entendem livre-arbítrio como exercício pleno de liberdade, o que implica (conscientemente ou não) partir da premissa de que, sem a intencionalidade do livre-arbítrio, seremos sempre escravos de nossas “pulsões animais” – enfim, aquela separação agostiniana mente-corpo recalcada na civilização moderna.

Logo, entender o livre-arbítrio como sinônimo de liberdade significa considerar-se naturalmente aprisionado: acredita-se que nossas pulsões irracionais são destrutivas (pois nosso corpo é vil) e que, no entanto, por algum motivo (Deus ou coisa do gênero), nós temos a dádiva do livre-arbítrio (a dádiva da mente), que não nos deixa à mercê de nossas vontades e desejos mais perversos. E mesmo dentro dessa concepção judaico-cristã, livre-arbítrio ainda parece ser mais uma questão de controle (das pulsões) do que de liberdade. Leia mais…»

Dilemas do Design V: corporativismo

* texto originalmente publicado na Revista Clichê.

“O design como conhecemos hoje só existe porque jovens de 20 a 30 anos se sujeitam a trabalhar como escravos para empresas que os usam como ferramentas.” – Charles Watson.

Muitos críticos sustentam que o indivíduo de hoje, diante de um suposto enfraquecimento dos tradicionais laços de identidade (família, trabalho, religião, panelinha etc.), tem abandonado o sentimento de identidade coletiva em proveito de condutas narcisistas e hedonistas. É uma leitura plausível, mas simplifica questões prementes, sobre as quais ainda pretendo discorrer em ensaios mais longos, fora dessa série dos dilemas do design. Leia mais…»

A essência incompleta das coisas ou por que a incompletude é tudo que existe

* texto originalmente publicado na edição 42 da revista abcDesign. Ilustrações minhas neste post.

Em termos filosóficos, pensar sobre uma possível “essência” das coisas está fora de moda há muito tempo. Mesmo que, por exemplo, a essência do design pareça residir numa necessidade a ser sanada, o contraponto mais simples seria dizer que essa necessidade é também projetada, no sentido de ser uma tentativa prévia de explicar as coisas quando algo sai terrivelmente errado.

Talvez esta seja a única essência que aparentemente ainda permanece em voga a nível cotidiano: as coisas tendem a dar errado. Leia mais…»

Dilemas do Design IV: sinal x significado

* texto originalmente publicado na Revista Clichê.

Encerrei meu último post tentando explicitar que a relação binária do sinal x significado não nos esclarece como e por que um objeto ou uma imagem indica estritamente alguma coisa ou alguma ideia (ao invés de outra coisa ou outra ideia). Mas me parece que, em última instância, essa indicação nunca é totalmente estrita e, somente por isso, o design é possível.

Por exemplo: quando compramos um instrumento musical (um violão, uma flauta), conseguimos executar seus diversos mecanismos porque o designer que projetou tal instrumento baseou-se em funções que suspostamente já conhecemos (se fôssemos músicos), em ideias que já possuímos, em uma linguagem comum e em valores preestabelecidos.

Porém, na medida em que utilizamos este novo instrumento, nossa relação com ele pode adquirir um significado diferente daquele com o qual estávamos habituados a ter com outros instrumentos, sendo que desta nova relação podem surgir novas formas de composição musical. Leia mais…»

Debate FdD: por que os pilotos kamikazes usavam capacete?

Debate FdD é uma série de “posts coletivos” (em paralelo ao debates homônimos lançados em nosso facebook e tumblr) e este post é nossa primeira tentativa. A ideia é a seguinte: alguém lança uma questão e cada colaborador aqui do blog escreve brevemente o que pensa a respeito. Essa primeira pergunta eu roubei descaradamente do braincast 55, mas o ideal seria que você, leitor, nos enviasse suas próprias perguntas (deixe nos comentários). Agora vamos ao assunto do dia: segurança do trabalho!

Bolívar Escobar: Lembram daquele relato do kamikaze que sobreviveu ao seu vôo quase final porque caiu na água? Onde foi que vi isso? Seu depoimento era algo como “estou vivo, que vergonha”. Leia mais…»

Dilemas do design III: o ainda-não-ser

* texto originalmente publicado na Revista Clichê.

No último post mencionei o caráter de “ainda-não-ser” do design e terminei dizendo que, para driblar esta incoerência da ação projetada, buscamos por certos “padrões” projetuais. O pressuposto implícito em tais padrões é o de que, assim como um produto de design, o usuário seria previsível dentro de um contexto inevitável.

Se por um lado isso pode ser traduzido como uma forma de imposição de um comportamento padrão (manipulação midiática etc.), por outro, também pode significar a reinvenção do próprio conceito de “usuário”, induzindo a rupturas de comportamentos-padrão. Leia mais…»

Dilemas do design II: dualismos

dualismos* texto originalmente publicado na Revista Clichê.

Todo projeto é uma forma camuflada de escravidão? – Emil Cioran

O profissional de design representa SIM um dos protagonistas da contemporaneidade na medida em que ele atua no seio de um processo (dentre muitos outros) de produção-distribuição-consumo que se estabeleceu, no decorrer das últimas décadas, como força motriz social. Uma perspectiva otimista consideraria o design, neste contexto, como novo ponto de encontro e convergência de uma miríade disciplinar que fundamentaria a reflexão intelectual e informaria a uma práxis cultural crítica e inovadora. Se for o caso, e obviamente quero crer que sim, o embasamento necessário ao exercício da “profissão design” estaria seguindo um trajeto contínuo de inter-relações dos vários campos do saber e tipos de sensibilidades. Projetar, planejar, gerenciar e produzir seriam condutas que superariam a mera reprodução, repetição e utilização das técnicas (mesmo das mais atuais). Leia mais…»

Da imagem literária ao design da escolha

Dentre as várias maneiras de se relacionar literatura e design, uma que me parece profícua é através da questão, amplamente explo-rada por Tom Mitchell (confira o post do Daniel a respeito), sobre o que “quer” uma imagem. Grosso modo, o que Mitchell nos ensina é que uma imagem é um engodo que quer nos atrair para o prazer estético, ela exige uma interpretação e empenha-se em nos “escan-dalizar” para que dela desviemos ou nela fixemos nosso olhar.

Por meio do viés literário (especialmente em Kafka e Kundera), contudo, suspeito que possa haver outra característica fundamental da imagem (e talvez mais pertinente para se pensar design): uma vez que ela nunca “ocorre agora”, mas está sempre já realizada e ao mesmo tempo sempre por vir, ela quer nos desvincular do fluxo temporal colocando-nos diante de nossas escolhas. Leia mais…»

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