Da imagem literária ao design da escolha

Dentre as várias maneiras de se relacionar literatura e design, uma que me parece profícua é através da questão, amplamente explo-rada por Tom Mitchell (confira o post do Daniel a respeito), sobre o que “quer” uma imagem. Grosso modo, o que Mitchell nos ensina é que uma imagem é um engodo que quer nos atrair para o prazer estético, ela exige uma interpretação e empenha-se em nos “escan-dalizar” para que dela desviemos ou nela fixemos nosso olhar.

Por meio do viés literário (especialmente em Kafka e Kundera), contudo, suspeito que possa haver outra característica fundamental da imagem (e talvez mais pertinente para se pensar design): uma vez que ela nunca “ocorre agora”, mas está sempre já realizada e ao mesmo tempo sempre por vir, ela quer nos desvincular do fluxo temporal colocando-nos diante de nossas escolhas. Leia mais…»

Narcisismo ou o talento de rir por não haver talento algum

Quando aparentamos estar minimamente felizes ou infelizes em nossas timelines, o julgamento moral mais fácil é o de que estamos sofrendo cronicamente de falta de atenção. Claro que tal impressão pressupõe que existe uma forma mais nobre de satisfação emocional que não deveria ser exibida publica-mente. Ou ainda, na versão marxista: estamos consumindo um modelo de felicidade intercambiável e genérico que, enquanto mercadoria despojada de valor de uso, é alienante e não produz satisfação verdadeira.

Seja como for, mais legal seria questionar: a falta de atenção em si não pode ser motivo de satisfação? E mesmo que certas condutas emocionais possam funcionar como um tipo de estratégia predatória, isso seria suficiente para depreciarmos moralmente a ambição de parecer feliz? Não quero falar, pois, do que é ou deixa de ser felicidade, mas das nuances de uma possível celebração do eu narcisista na contemporaneidade. Interessa-nos, enquanto designers, compreender brevemente de que modo nossa vida emocional tem se transformado em conduta social por meio de objetos, imagens e rituais da atualidade. Leia mais…»

Dilemas do design I: o não-estar

* texto originalmente publicado na Revista Clichê.

Tudo o que atualmente se pretende marginal, irracional, revoltado, “anti-arte”, anti-design, etc., desde o pop ao psicodélico e à arte na rua, tudo isso obedece, quer queira quer não, à mesma economia do signo. Tudo isso é design. Nada escapa ao design: eis a sua fatalidade. – Jean Baudrillard em Para uma crítica da Economia: Política do signo (Rio de Janeiro: Elfos, 1995, p. 206).

Uma das maiores contradições do design, ao menos no Brasil, reside no fato de que a crescente propagação/repercussão da ideia de “design” parece ser inversamente proporcional à valorização da mesma. Mesmo com certa “regulamen-tação” pré-aprovada, o hipsterismo implícito em nossa postura profissional (não sou designer de sobrancelhas, o povo banalizou etc.) não passa de um placebo que, ao invés de gerar valor, apenas nos reduz a panelinhas descartáveis no mercado. Leia mais…»

Por um contemporâneo palintrópico

* texto originalmente publicado na Revista Clichê.

O problema do contemporâneo não é novidade e talvez nunca tenha sido propriamente contemporâneo. Sob o viés da história (“oficial”), desde o renascimento e a modernidade já nos preocupávamos com certa contemporaneidade – termo que não se resume a um tempo atual, mas se refere antes a um “estar junto” em tempos diferentes.

Por outro lado, no âmbito do design parece haver uma exigência de nos tornarmos contemporâneos de nosso tempo e de outros tempos através de produções que, por vezes, denunciam alguns delays históricos.  Leia mais…»

Prometheus Corporation

“Os matemáticos terão de transformar-se em poetas; os ciberneticistas, em filósofos da religião; os médicos, em compositores; e os trabalhadores da informática, em xamãs.” – Peter Sloterdijk, Regras para o parque humano: uma resposta à carta de Heidegger sobre o humanismo (São Paulo, Estação Liberdade, 2000, p. 365).

O que a espetacularização contemporânea do “eu”, regada a infecções zumbis e autoajudas espiritualistas, tem a ver com a popularização e a valorização do design?

Tudo parece acontecer no deslocamento e na sobreposição da representação do “eu” para a experiência de não haver mais um si mesmo. A noção de um “projeto” como capacidade de responder a elementos como desordem, contingências, instabilidades e infidelidades do meio/contexto cede lugar a um conjunto de experiências efêmeras que vai se desdobrando em outros conjuntos aparentemente mais coesos e impactantes. Leia mais…»

O que filosofia tem a ver com design?

* texto originalmente publicado na Revista Clichê.

A princípio, nada. É assunto chato de filósofos e suas teorias inúteis. Além do que mais, nunca acreditei numa “sabedoria” que supostamente nos ajude a “melhorar” quem somos e o que fazemos. Mas o que eu tenho percebido é que, quanto mais estudo filosofia, toda e qualquer sabedoria se torna menos importante do que a capacidade de entendê-las de uma forma que eu não conseguia antes.

Assim como a maioria das pessoas, sempre fui afetado por inconvenientes como injustiças, normas, fofocas, desentendimentos etc. Acontece que, a princípio, nenhuma dessas coisas existe. Leia mais…»

O enigma relativista

Quando se tenta pensar por conta própria e expor o que se pensa, a reação padrão é: mas você não está simplesmente encaixando as coisas em tuas próprias categorias, baseando-se numa visão parcial e limitada sobre o mundo?

Em qualquer circunstância, a resposta mais adequada seria: mas em que momento eu disse que não estou fazendo isso? Daí convém estabelecer um tipo provisório de acordo epistemológico: se algum de nós pensa que não está “encaixando” as coisas em categoria particulares, enxergando o mundo de forma imparcial, tal como ele é em “si mesmo”, então não há como continuar a conversa.

O interessante é que a indagação inicial remete a uma visão relativista ingênua (previamente auto-sabotada), uma vez que a grande dificuldade do relativismo consiste em levar em conta nossos próprios pressupostos, e não em tentar dissociar-se deles. Leia mais…»

quando se fixa um centro, não se avista a circunferência.

Será preciso, primeiro, partir-lhes as orelhas, para que aprendam a ouvir com os olhos? – Friedrich Nietzsche, Assim falou Zaratustra. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2007, p. 40.

Tem sido impossível arranjar tempo pra escrever porque estou me mudando para SP, mas antes que 2012 termine, quero registrar que eu AINDA acho que a confusão e o ruído (ao invés de clareza) podem ser bastante úteis no design.

A pergunta que marcou meu ano foi “por que não é preciso ter olhos para enxergar as coisas?”, quando eu explicava para alguém (não lembro quem) minha pesquisa de mestrado. A resposta foi algo como: veja, não é apenas uma questão de percepção, porque nem sempre existe um “eu” que enxerga as coisas. Leia mais…»

Design e tecnologia a partir de Heidegger

Semana passada tive a oportunidade de participar, ao lado de meu parceiro anticaster Ivan Mizanzuk, de um debate sobre design e tecnologia no Pavão 2012, semana acadêmica da ESDI. Devo agradecer ao Daniel, Ricardo e Almir pela receptividade e companhia, e esclarecer que não pude participar da mesa-redonda na UBA-UFRJ por puro azar, pois eu queria muito, muito mesmo, ter participado. Em todo caso, quero comentar sobre uma das questões levantadas na ESDI, uma pergunta que me pareceu representar a principal preocupação dos alunos que ali estavam: como a tecnologia (no sentido de domínio sobre a ferramenta, especialmente um software) influencia (ampliando ou limitando) o trabalho do designer? Leia mais…»

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