Em que medida somos colonizados pela linguagem?

Esta questão foi levantada no meu post Saussure, língua, xadrez e gerou debates antes mesmo que eu tentasse respondê-la – tentativa que farei agora. Vejamos: o que disse no tal post, e que de modo algum é uma ideia original, foi o seguinte: dado que a língua tem como elementos irredutíveis os fonemas (no caso da linguagem falada) ou letras (no caso da linguagem escrita), e dado que os fonemas e as letras existem em número limitado, as combinações possíveis entre tais elementos são finitas, de tal modo que seria possível – como faz Borges em A Biblioteca de Babel – imaginar uma biblioteca na qual estivessem compiladas todas as combinações possíveis das letras do alfabeto. Ora, em tal biblioteca estariam, assim, todos os textos possíveis de serem escritos: este post, a bíblia, o texto ganhador do prêmio Jabuti do ano que vem etc. Ler mais deste artigo

Sobre a teoria linguística de Saussure

Em meu último post aqui no blog, levantei algumas questões introdutórias ligadas à linguagem, utilizando como referência principal a teoria da linguagem de Saussure. Um ponto que ficou em aberto foi o do quanto e de que formas o sujeito seria, de certo modo, colonizado pela linguagem. Eu apresentei então somente um aspecto da questão — que não pode de modo algum ser considerado uma resposta –  e pretendo refletir melhor sobre o assunto em um próximo post, inclusive mostrando como a teoria do Saussure de fato só trata de uma pequena área da esfera da linguagem, embora muitas de suas ideias sejam aplicáveis também em outros lugares, como mostrarão os estruturalistas. Antes de fazer isso, porém, achei que seria pertinente escrever uma exposição minimamente aprofundada de alguns aspectos da teoria do Saussure — é isso que farei no presente post. Utilizarei como guia principal o Curso de linguistica geral (CLG), compilação das notas dos alunos dos cursos de Saussure ministrados a partir de 1906 e que é o principal registro das teorias do linguista. A edição consultada do CLG foi: SAUSSURE, F. Curso de linguística geral. São Paulo: Cultrix, 2006 (disponível neste link). Leia mais…»

Saussure, língua, xadrez

xadrezImagine que você vai jogar uma partida de xadrez. Quando, após organizar o tabuleiro e se sentar em frente a seu oponente, você pega uma peça qualquer – a rainha, por exemplo – e move de uma casa para outra, você faz mais do que carregar um pedaço de madeira por alguns centímetros: você realiza uma jogada! (eu sei, é fantástico). Você já parou para refletir o que constitui esse ato misterioso de realizar uma jogada? Isto é, o que existe a mais na jogada além do ato de mudar de lugar um pedaço de madeira?

Se seguirmos os ensinamentos do linguista Ferdinand de Saussure, a resposta seria: a inserção do ato em um sistema de regras. A diferença é que realizar uma jogada é um ato “estruturado” por um sistema de regras (as regras do xadrez), enquanto carregar um pedaço de madeira por alguns centímetros é apenas um ato físico (na verdade, essa separação não é tão simples de fazer, mas vamos manter a reflexão em um nível simplificado por enquanto). Se não existissem regras de xadrez, não poderia existir jogada. Leia mais…»

Projetando focinheira para vampiros

twilight-saga-scene-cutPassei os últimos meses (e ainda continuo) em verdadeira maratona intelectual, tentando dar forma a minha pesquisa de doutorado sobre diferentes modos de enxergar as possibilidades e motivações para controle dos próprios desejos. Aproveitando o sucesso estrondoso da Saga Crepúsculo, começo tal pesquisa com uma leitura da saga.

Imagino que todos os leitores saibam – requisito mínimo de erudição pop – que um dos pontos centrais da história é a luta de alguns vampiros para controlar seus impulsos. Edward, o vampiro galã protagonista, passa a maior parte de Crepúsculo tentando controlar sua sede pelo sangue de Bella, sua amada. A cada momento, ele tem de lutar entre seu desejo vampiresco de matá-la com um chupão sanguinolento e seu humano, demasiado humano, amor romântico que o impele a protegê-la e a fruir de sua doce presença. Leia mais…»

Evento de Filosofia do Design na UFRJ (Rio de janeiro)

No dia 29 de novembro, das 12h às 14h, eu, Marcos Beccari, Ivan Mizanzuk, Ricardo Cunha Lima e Almir Mirabeau nos reuniremos em uma mesa redonda na EBA/UFRJ, no Rio de Janeiro, para conversarmos sobre como a filosofia pode nos ajudar a pensar sobre design.

Faz tempo que eu e o Beccari conversávamos sobre promover um evento do filosofia do design aqui no Rio e agora, finalmente, surgiu a oportunidade — uma ótima oportunidade, diga-se de passagem, considerando o time que conseguimos reunir para a conversa. Os convidados devem ser conhecidos pela maioria dos leitores aqui do blog por fazerem parte do Anticast. Para quem não conhece, sugiro conferir o site http://www.anticast.com.br (lá vocês podem encontrar também um mini-currículo dos convidados). Leia mais…»

Os sonhos [imagem e psicanálise : parte II]

Os sonhos são fenômenos realmente intrigantes.  Eis que, durante o sono, diversas imagens aparecem para nossa consciência. Imagens estas que podem se ligar em um todo coerente de maneira muito semelhante com o que ocorre em nossa vida desperta ou que podem aparecer em construções completamente incoerentes, que nos deixam bastante perplexos.

É difícil saber como começar a pensar sobre os sonhos. O sonho requer uma explicação do tipo “por que será que sonhamos”? Ou isso seria o mesmo que perguntar “por que será que percebemos coisas quando acordados (vemos, escutamos etc.)”? De todo modo, podemos ao menos perguntar: por que será que sonhamos aquilo que sonhamos? Qual a diferença entre nossa percepção no sonho e na vida desperta? Os sonhos possuem significados? Ou melhor, os sonhos podem ser interpretados?

Em A interpretação dos sonhos — normalmente considerada não apenas a primeira obra propriamente psicanalítica como também a magnum opus freudiana –, Freud aborda diversas das questões acima, focando nas últimas. A resposta de Freud é que sim, os sonhos possuem significados, embora tais significados não sejam aqueles que interpretações mágicas dizem revelar. Não se trata de uma espécie de premonição cifrada como no famoso sonho bíblico do Faraó interpretado por José, no qual sete vacas magras devoram sete vacas gordas [1], mas, como veremos, de um peculiar discurso do inconsciente. Antes de explicarmos melhor essa noção freudiana, entretanto, será importante refletirmos sobre as questões levantas acima. Vejamos: Leia mais…»

O inconsciente [Imagem e psicanálise : parte I]

O inconsciente é, sem dúvida, um dos conceitos mais importantes — se não o mais importante — da psicanálise. É crucial compreender logo de saída que não se trata, para Freud, apenas de dizer que não temos acesso a parte de nossa mente. Freud pensa o inconsciente como um sistema mental específico. O sistema inconsciente — representado pela sigla Ics, para ficar mais fácil diferenciá-lo do termo ordinário, usado como adjetivo — está em oposição ao sistema consciente/pré-consciente (Cs/Pcs), que é aquele nos quais circulam os pensamentos momentaneamente presentes na consciência ou facilmente acessíveis a ela — por isso chamados pré-conscientes, já que não são propriamente conscientes: só estão inconscientes momentaneamente, pois nada os impede de aparecerem para a consciência. Ou seja, se você não está pensando naquilo que você comeu no almoço neste exato momento, mas poderia pensar sobre isso agora que eu mencionei o assunto, então não diríamos que as ideias (estou usando o termo de maneira genérica, para não complicar o assunto) que compõem seu pensamento sobre seu almoço são conscientes, mas também não diríamos que são inconscientes, e sim pré-conscientes. A distinção entre consciente e pré-consciente não interessa muito a Freud, por isso ele costuma agrupar os dois na sigla Cs/Pcs. Leia mais…»

Imagem e psicanálise [prefácio]

De uma maneira geral, eu não diria que meu olhar sobre o design ou sobre a imagem é majoritariamente psicanalítico. É verdade que desde o mestrado tenho me interessado por psicanálise, mas sempre como um referencial auxiliar. Havia percebido que a psicanálise é um referencial extremamente interessante para pensarmos sobre as vinculações afetivas com imagens e objetos materiais. E, se encararmos o design como um mediador imagético de nossas relações com objetos e superfícies, fica claro que a psicanálise pode ser bastante interessante para se pensar o design.

Faço essa pequena apresentação para dizer que a psicanálise tem ocupado um lugar cada vez mais central no meu pensamento. Embora eu não tenha formação específica em psicanálise, desde o ano passado tenho realizado extensa pesquisa sobre o tema, lendo bastante Freud e Lacan e entrando na psicanálise sobretudo através de uma via filosófica. Estou preparando um curso de análise da imagem com foco em psicanálise. Assim, intensifiquei ainda mais minhas pesquisas psicanalíticas e queria aproveitar esse momento para começar uma série de posts aqui no blog sobre imagem e psicanálise. Como gostaria que os textos possam servir também como apoio às eventuais aulas, eles terão um formato mais didático e fechado do que meus outros posts. Leia mais…»

Percepção visual, memória e cadeira

Quando batemos o olho em uma coisa qualquer, em frações de segundo realizamos uma operação complexa que costumamos chamar de “percepção visual”. É algo tão corriqueiro que raramente nos perguntamos o que ocorre nesse tempo infinitesimal. Entretanto, uma vez que começamos a questionar essa tal “percepção”, as perguntas começam a se acumular…

Digamos que, em um dado ambiente, eu olho para uma cadeira parecida com a que aparece na figura ao lado. Eu vejo imediatamente uma cadeira. Mas o que é uma cadeira se não um objeto que serve para sentar? Ora, a função de “servir para sentar” não faz parte do objeto que vejo. Eu é que atribuo a ele esta função e, por isso, dou-lhe o nome de cadeira. Se é assim, entretanto, devo reconhecer que eu não vi, na verdade, uma cadeira. O que eu vi foi um objeto de madeira com quatro pernas e uma aparência específica ao qual, através de um ato classificatório, dei, posteriormente, o nome de cadeira. Entretanto, mesmo nessa nova formulação, o problema permanece: “objeto”, “pernas” e “madeira” são, mais uma vez, nomes dados a alguma coisa que aparece para mim e que requerem categorias específicas para existir. Em última instância, se eu seguir este raciocínio até o fim, terei que admitir que o que efetivamente vi foi apenas uma imagem singular ainda inclassificada. Entretanto, tal suposta “imagem singular inclassificada” não faz parte de minha experiência: quando olhei para a cadeira, ela já era cadeira, e não um objeto estranho que só depois virou cadeira para mim. Mas será que tudo isso faz alguma diferença? Algum leitor poderia perguntar neste ponto: mas será que não é irrelevante o fato de eu chamar a cadeira de cadeira? Eu vi, diria ele, o que quer que seja que estivesse na frente dos meus olhos naquele momento e depois classifiquei essa coisa como cadeira. Se fosse um objeto desconhecido, isso em nada afetaria minha maneira de percebê-lo, ele continuaria a ser o mesmo objeto, apenas eu não o consideraria uma cadeira por não atribuir a ele a função de “servir para sentar”. Será que podemos nos satisfazer com tal explicação? Leia mais…»

De onde saiu esse tal de Papai Noel?

A figura do Papai Noel sempre me despertou curiosidade. Por que exatamente no Natal, ou seja, no aniversário de Jesus Cristo, aparece uma figura tão estranha quanto um velho gordo que dirige um trenó puxado por renas voadoras, tem duendes como ajudantes e o hábito de descer as chaminés das casas para deixar presentes para as crianças? A hipótese mais óbvia que me vinha à mente era a de que, de alguma forma, Papai Noel era a versão moderna de alguma entidade pagã que acabou se ligando ao Natal ao longo de assimilações cristãs e seculares. Fui dar uma pesquisada para ver se minha intuição se confirmava…

Noël é Natal em francês, portanto, aqui no Brasil, o personagem já aparece diretamente ligado ao Natal. Mas o mesmo não ocorre nos Estados Unidos, lugar em que tal personagem ganha forma. Santa Claus, como é conhecido em inglês, seria uma americanização de São Nicolau (Saint Nicholas), cujo nome original é Sinter Klaas, nome este que teria sido americanizado para Santa Claus e, durante o século XIX, ligado à figura que hoje conhecemos. Essa é a história mais difundida. Daria até para dizer “oficial”, embora haja diversas versões sobre como teria se dado essa assimilação. Ler mais deste artigo

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