terminologias e sotaques

menininha lendo FoucaultFrente a um texto qualquer (vamos usar de exemplo-cobaia aqui o Flores do Mal, que Baudellaire escreveu na Paris do fim dos 1800s) posso atacá-lo de muitas formas. Posso me focar nos significados literais das palavras, ou posso me prender às conotações, ou ainda posso tentar ouvir somente os sons e os ritmos transformando a poesia numa espécie de percussão. Mas essas são só possibilidades, entre outras, e ainda mais, entre uma série de possibilidades que não posso listar de antemão. Marshall Berman (em Tudo o que é sólido desmancha no ar) adota o excêntrico procedimento de usar uma análise urbanística da Paris daquela época para informar e interpretar os poemas de Baudellaire. As estratégias de leitura de um texto são múltiplas, instáveis e vão progressivamente se acumulando cada vez mais.

Inclusive algumas estratégias prospectivas revelam no texto significados que o autor não sabe que colocou lá.

Não podemos julgar as estratégias por nada além do seu resultado. Mas isso tem consequências estranhas: Uma delas é que simplesmente não existem formas certas ou erradas de ler. Toda leitura é uma tentativa, e apenas uma tentativa. Ler mais deste artigo

repressão (vadias redux)

Anteontem o espetáculo Hasard do ERROgrupo foi interrompido pela polícia, que alegava que os atores iriam ficar pelados, uma autuação por pré-crime. Minority Report na vida real, caso alguém ainda não tivesse percebido que vivemos numa estranha ficção.

Ceci n’est pas une Líder (por: Ricardo Wolffenbüttel / Agência RBS)

Na estranha ficção que por alguma razão chamamos de realidade, o corpo é uma coisa perigosa. É um segredo a ser mantido sob estrito controle. Muito curioso, já que afinal a experiência corporal, essa de ter um corpo e ser um corpo, de certa forma é a primeira de nossas vidas. Também não se trata de uma pura demonização do corpo, afinal o corpo em si não é transgressivo, ou mais precisamente no fundo é impossível abdicar do corpo. Trata-se de uma forma de jogar com o corpo, de um complexo e arriscado jogo, do qual não deveríamos nos manter ingênuos.

E há várias formas diferentes de ser ingênuo quanto ao assunto. É simplismo, por exemplo, dizer que o impulso sexual exige ser controlado, como se fosse um tipo de bomba atômica que assim que liberado destruiria mundos. Mas também é simplismo acreditar que a simples validação do impulso sexual resolve todos os problemas, como na mensagem da Marcha das Vadias de que “a mulher deve estar no controle da sua própria vida sexual”.

Nossa relação com o corpo é complexa, no sentido de ser uma miríade de tensões num balanço delicado. É muito fácil pegar apenas uma parte dessa bagunça e transformar numa história simples. Mas quase sempre essas histórias simples são um jogo cujas regras não nos permitem ganhar. Ler mais deste artigo

E o Xico?

Bem no começo da facul li (no livro do Lobach se não me engano no Heskett, mas alguém pegou emprestado e não devolveu o meu, então não posso verificar agora) que havia uma enorme semelhança de forma entre os móveis modernistas e os moveis da seita religiosa Shaker. Na época, achei que isso devia ser só um acaso, uma semelhança sem qualquer explicação ou consequência. Hoje me questiono se nã pode haver alguma ligação mais direta.

Não que Gropius tenha espionado o escritório da Mãe AnnLee, ou qualquer teoria conspiratória do gênero (se bem que isso dava um belo conto). Mas o ambiente acadêmico alemão, que acaba gerando a Bauhaus (por mais que eles se pretendessem anti-acadêmicos, convenhamos, era uma faculdade alemã!), é o mesmo ambiente no qual, séculos antes, Lutero proclama as teses que vão dar origem ao protestantismo.

Ah, não! Será que esse post vai falar de religião? Ler mais deste artigo

vadias

Banksy girl & policemanDesigners de moda deviam fazer uma passeata anti-Marcha-das-Vadias. Segundo a lógica da Marcha, algo que se veste não pode afetar o desejo. E, se for assim, criar roupas é uma ocupação medíocre.

Claro, nem mesmo os organizadores da Marcha têm o disparate de sustentar uma coisa assim. O reclame é “minha roupa danada não é razão pra me estuprar”. Parece sensível, mas se pararmos pra pensar, isso assume um estuprador que tenha escolhido estuprar por razões lógicas, calmamente consideradas, praticamente um esquizofrênico. Devem existir pessoas assim, mas devem ser 3 no mundo. Talvez 4.

A maior parte dos estupros, bem como a maior parte das situações de sexo saudável entre adultos consensuais, é uma mistura de impulsos e sentimentos confusos. Nessa mistura, o desejo tem uma presença colossal.

E no entanto, não se pode falar no desejo, pois somos uma sociedade assolada pelo pudor. Ler mais deste artigo

twitter^-1 ou a superficialidade contemporânea

caninha no estado cú de foca depois de 3 dias num banho de nitrogênio líquidoO certo é: sal, tequila, limão.

Exatamente nessa ordem.

A explicação funcionalista é a seguinte: O sal protege a gengiva, o limão tira o gosto. As duas coisas voltadas pra minimizar o estrago de uma tequila trevas. É mais ou menos o que você faria, em termos brasileiros, se estivesse tomando Velho Barreiro. Se você estivesse tomando uma Anísio Santiago, fazer a mesma coisa seria um grande desperdício, afinal uma pinga que custa mais de cem mangos a garrafa não é coisa da qual você tenha que se proteger. Mas aí é que mora a trapaça: Não tomamos por aqui tequilas ruins. Pode ter certeza que existe todo tipo de coisa bizarra por lá, no México, mas ninguém importa as tosqueiras. Afinal, se você vai pagar o (alto) custo de transporte, vale mais à pena importar a tequila que presta.

Em economês, isso tem um nome: Efeito Alchian-Allen. Precisamente, diz que quando se adiciona um custo fixo a dois produtos equivalentes B e C, aumenta-se o consumo do produto mais caro. A princípio isso é estranho, porque um aumento de preços nos levaria a buscar a versão mais barata, mas o que acontece é que você diminui a diferença proporcional entre os dois preços. Digamos que B custava $10 e C $20. O dobro! Mas quando você adiciona um custo fixo de $10, agora B custa $20 e C $30, já não é uma diferença tão absurda. Se o custo fixo fosse por exemplo $30, no final $40 x $50, já quase não faz diferença.

OK, mas o interessante é que isso pode acontecer ao contrário, quando você corta um custo fixo, tornando tudo igualmente mais barato, você pode aumentar o consumo do produto barato. É por isso que temos o Twitter! Ler mais deste artigo

produtificação

Recentemente uma crônica (em inglês) perguntava se a Lego™ tinha vendido a alma para o demo. Curiosamente o mesmo exemplo que eu tinha usado alguns meses antes num debate no RLab. Basicamente a ideia é que os kits da Lego vem se tornando mais elaborados e complexos (despertando certamente em mim aquele célebre WANT) mas que ao mesmo tempo parece que também se tornam menos criativos.

Vamos explorar aqui a hipótese de que se trata de um fenômeno de produtificação: Para transformar uma coisa (genérica) em um produto é preciso “fechar” essa coisa.

O exemplo do Lego é interessante, já que trata de um brinquedo. Quando criança, influenciado por Star Wars, eu fiz uma nave espacial com as peças do kit “Casa” do Lego. Em retrospectiva, agora acho que era uma nave com um “quê” de casa, bem quadrada, sem cara de máquina. Mas era uma nave. Leia mais…»

improvisação

lâmpada com efeitosThomas Edison não escolheu a lâmpada. Ele criou a lâmpada. Apesar de que ele fez uma lista de todos os possíveis materiais para um filamento e testou pentelhamente um por um. Apesar de que ele sabia o que ele queria fazer muito antes de ter conseguido. Apesar de que a lâmpada era uma coisa que todo mundo meio que sabia que devia ser possível de algum jeito. Mas ainda assim escolhemos chamar essa ação de “invenção”. Claro, também poderíamos ter chamado de “abacaxi”. Mas vamos assumir temporariamente o (mal) pressuposto de que a palavra importa. Por que não se trata de uma escolha? E por que isso importa?

Como nos mostra Barry Schwartz (no video do último post), a fixação que nossa cultura tem com “escolhas” vem de um recalque mais profundo com a “liberdade”. Como nos mostra David Graeber (num livro que vocês não podem ler senão passarão a achar todas as minhas ideias requentadas), essa fixação do ser-livre só aparece numa sociedade em que muitos são não-livres, ou escravos ou escravos do salário ou algo do gênero. Leia mais…»

opção fnord

A Ford logo subverted to read Fnord

Logo, subvertida (Photo credit: Wikipedia)

A vida é feita de opções. Frase tão trivial que quase não diz nada. Mas esconde algo: Um pressuposto perigoso de que a vida deve ser (ou simplesmente é) modelada pelo nosso condicionamento verbal.

É óbvio. Não?
Nosso cérebro macaco é extremamente flexível. Tão flexível que consegue até fazer coisas inúteis como processar palavras. Mergulhados na cultura como estamos, esquecemos como uma palavra carece de praticidade. Mas imagine-se perdido numa floresta sem o manual do escoteiro mirim, e me diga: Para que você usaria uma palavra? (Gritar por socorro não precisa de palavras, qualquer som claramente não animal serve).

Contraste isso com a vasta utilidade cultural das palavras: Utilidade para lidar com outros seres humanos, na prática passar outros para trás. Ler mais deste artigo

Placebos

Ah, você quer salvar o país com a força do seu voto. Pode admitir. Todos nós sofremos dessa bobeira um dia na vida. É meio ridículo, mas não precisa ficar com vergonha. É preciso um certo cinismo (eu diria, “no bom sentido”, mas qual é o bom sentido disso?) pra admitir que uma parte no meio de 170 milhões não vale nada. Menos que um peido. Mas tudo bem, eles vão cuidar de você. Eles vão resolver todos os problemas. Eles vão fazer passar essa gripe crônica que é a consciência. Quem são eles, você pergunta?

"vou mudar esse país com a força do meu voto" "Own, que fofo! Posso tirar uma foto?" Ler mais deste artigo

Resenha: Design Para um Mundo Complexo

CARDOSO, Rafael. Design para um mundo complexo. São Paulo: Cosac Naify, 2012. ISBN 978-85-405-0098-3

livro laranja, picolé laranja

combina com picolé de cajá!

O livro é laranja! Que tipo de designer pode não amar um livro laranja?

Trata-se sem dúvida de um livro para agradar designers. A cor, as ilustrações cool, o pequeno formato, o tom de conversa, a argumentação semi-científica, tudo feito para que designers amem o livro.

Podemos dizer que é um livro promissor, no seguinte sentido: Ele promete muito. O título é uma referência à um dos livros mais bombásticos da teoria do design, “Design para o Mundo Real” do Papaneck, que basicamente dizia que tudo o que os designers faziam era frescura e que as calamidades contemporâneas exigiam um design engajado — típica ideologia de dominar o mundo. E encontramos a mesma pretensão em Rafael Cardoso, quando ele diz que a complexidade torna obsoleto aquele mundo real, quando ele diz que os livros são o real conhecimento, quando dá um título nietzscheano para sua conclusão: “Novos valores para o design”. Certamente que o autor negaria isso, várias passagens ensaiam uma pretensa humildade, mas vale desconfiar dessa máscara: Afinal, o conteúdo do livro são respostas para todos os problemas do design. Ler mais deste artigo

Seguir

Get every new post delivered to your Inbox.

Junte-se a 129 outros seguidores