Tragam suas machadinhas: vamos falar sobre cultura

Foto extraída do portal R7

Foto extraída do portal R7

Poderia ser o enredo de algum conto surreal de H. P. Lovecraft: em plena tarde de domingo, Regina Casé e Preta Gil aparecem juntas em um mesmo palco comandando Caetano Veloso em um programa musical no qual celebridades da Globo dançam e fazem festa. Poderia ser, mas na verdade trata-se de uma “impressão digital” – segundo o próprio programa e sua apresentadora, da cultura brasileira em um drops semanal de um pouco mais de uma hora. Não faz muito tempo que Regina Casé foi eleita como uma espécie de porta-voz da cultura do nosso país em todos os papéis que vem desempenhando nos programas da televisão. Talvez tenhamos outros porta-vozes menos populares, mas com certeza nenhum tão entusiástico e aparentemente engajado em demonstrar essa cultura toda.

Tal fato, claro, agrada a muitos, e desagrada a outros tantos. O questionamento acaba surgindo: fazemos realmente parte dessa cultura sendo demonstrada ou estamos nos portando como um observador externo de um fenômeno que não representa – ou ao menos desejaríamos que não representasse – a nós mesmos? Ler mais deste artigo

terminologias e sotaques

menininha lendo FoucaultFrente a um texto qualquer (vamos usar de exemplo-cobaia aqui o Flores do Mal, que Baudellaire escreveu na Paris do fim dos 1800s) posso atacá-lo de muitas formas. Posso me focar nos significados literais das palavras, ou posso me prender às conotações, ou ainda posso tentar ouvir somente os sons e os ritmos transformando a poesia numa espécie de percussão. Mas essas são só possibilidades, entre outras, e ainda mais, entre uma série de possibilidades que não posso listar de antemão. Marshall Berman (em Tudo o que é sólido desmancha no ar) adota o excêntrico procedimento de usar uma análise urbanística da Paris daquela época para informar e interpretar os poemas de Baudellaire. As estratégias de leitura de um texto são múltiplas, instáveis e vão progressivamente se acumulando cada vez mais.

Inclusive algumas estratégias prospectivas revelam no texto significados que o autor não sabe que colocou lá.

Não podemos julgar as estratégias por nada além do seu resultado. Mas isso tem consequências estranhas: Uma delas é que simplesmente não existem formas certas ou erradas de ler. Toda leitura é uma tentativa, e apenas uma tentativa. Ler mais deste artigo

produtificação

Recentemente uma crônica (em inglês) perguntava se a Lego™ tinha vendido a alma para o demo. Curiosamente o mesmo exemplo que eu tinha usado alguns meses antes num debate no RLab. Basicamente a ideia é que os kits da Lego vem se tornando mais elaborados e complexos (despertando certamente em mim aquele célebre WANT) mas que ao mesmo tempo parece que também se tornam menos criativos.

Vamos explorar aqui a hipótese de que se trata de um fenômeno de produtificação: Para transformar uma coisa (genérica) em um produto é preciso “fechar” essa coisa.

O exemplo do Lego é interessante, já que trata de um brinquedo. Quando criança, influenciado por Star Wars, eu fiz uma nave espacial com as peças do kit “Casa” do Lego. Em retrospectiva, agora acho que era uma nave com um “quê” de casa, bem quadrada, sem cara de máquina. Mas era uma nave. Leia mais…»

Neoliberalismo econômico e outros problemas na Espaçonave Terra – Parte 3

Bucky

Primeiro ato: alguém faça o teste, peça para um professor entrar na sala vestido de palhaço e depois entreviste os alunos para ver quantos acham que ele é um militante esquerdista.

Depois que sua primeira filha morreu, aos 2 anos de idade, Richard Buckminster Fuller, no ápice de sua depressão, declarou: “ou eu páro de viver, ou eu começo a viver pensando. E eu quero pensar”. Por trás dessa convicta frase estava a motivação que o levou a iniciar o projeto “Guinea Pig B”, cujo andamento descreve em seu livro Critical Path. A ideia por trás do projeto era simples: qual é o máximo que uma pessoa comum pode fazer em prol do desenvolvimento da raça humana como um todo? É muito fácil se identificar com tal premissa já que todos nós, incluindo o Eike Batista, os senadores, os descendentes de japoneses, árabes, africanos, os pescadores, os operadores de telemarketing, os assaltantes, todos todos, somos pessoas comuns.

Buckminster Fuller também. Ele era uma pessoa tão comum que fracassou diversas vezes tentando fazer funcionar suas invenções, foi rejeitado, sofreu críticas, tinha astigmatismo muito forte também e ainda por cima acabou morrendo da mesma forma que muitas pessoas morrem quando ficam muito velhas. Ele sabia que as pessoas morrem depois que ficam muito muito velhas, então decidiu publicar 30 livros. Ler mais deste artigo

Sobre a filosofia, a técnica e a cibernética.

A meditação de Heidegger sobre a filosofia explicitou que ela sempre se moveu por princípios, os quais procuraram fornecer o ponto inicial de toda a investigação para se alcançar uma totalidade. Totalidade que pode ser entendida como o Mundo, o homem, Deus. Contudo, o pensamento voltado para o seu ser, ou seja, para aquilo que o fundamentava, reconhecia que algo lhe faltava e  as coisas sensíveis começavam  a ser tomadas em seu além. Assim, a filosofia começou a pensar no além do sensível, para este campo mais tarde cunhou-se o nome de Metafísica. Esta, em grosso modo, procura refletir sobre a totalidade dos entes e, conseguinte, avaliar qual o princípio que rege todos eles. Isto significa que aquilo de onde o ente como tal é, ele vem a ser tratado enquanto ente cognoscível, manipulável ou transformável. De tal forma, o fundamento se desdobrou em diversas interpretações por possuir o caráter de causalidade do real, ora considerado como possibilitação transcendental da objetividade dos objetos (Kant), ora como mediação dialética do movimento do espírito absoluto (Hegel), do processo histórico de produção (Marx), ou ainda, como vontade de poder que põe valores (Nietzsche). Ler mais deste artigo

Neoliberalismo econômico e outros problemas na Espaçonave Terra – Parte 2

Se ninguém visse o sol nascendo, ele nasceria do mesmo jeito? Aliás, se ninguém visse o sol nascendo, alguem conseguiria ver alguma outra coisa? (foto por L. Miyake, via flickr)

Primeiro ato: Alguém faça o teste: escolham algumas expressões aleatórias que ouvimos diariamente (“calorias”, “fumo passivo” ou “terrorismo”) e pesquisem se a primeira aparição delas no mundo foi proferida da boca de um cientista ou de um publicitário.

Segurem essa, subjetivistas: o sol nasce de novo todas as vezes depois que ele se põe. É engraçado constatar que isso pode ser afirmado com uma certeza absoluta, pois provavelmente não existe alguém no mundo que assista o sol se pondo pensando “pronto, agora já era, agora é só lágrimas, adeus”. O sol sempre nasce de novo por que isso é um fato cuja observação gerou uma certeza, digamos, cientificamente comprovada. A ciência começou a funcionar mais ou menos assim. Não sabemos ainda por quê o sol nasce sempre ou que forças fazem o sol nascer sempre, o que sabemos é que de fato, com 100% de chances, ele vai surgir de novo no horizonte amanhã por volta das 6 horas da manhã. Portanto, terminem logo de imprimir esse jornal, escondam depressa todo o ouro, corram para as colinas e continuem fazendo todas as coisas que devem ser feitas logo antes das 6 da manhã.
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Mariko Mori e a Consciência Una

“A arte é necessária e indispensável enquanto existir o mundo da mente, que durará tanto quanto a raça humana continuar a existir. Arte é um tesouro para toda a humanidade.” – Mariko Mori [1]

Final de ano e mais ciclos terminam, trazendo reflexões e pontos de vistas distanciados que não poderiam nos ocorrer em nenhum outro momento, quanto estávamos imersos demais no frenesi cotidiano para torná-los o foco de nossos pensamentos. Devido a este momento de descanso, nossa mente relaxa e temos tempo para dedicar ao pensamento interiorizado, fazendo emergir reflexões sobre nós e sobre para onde estamos sendo levados por nossas escolhas. Finais - e recomeços – de ciclo, afinal, são alguns dos conceitos-chave dos trabalhos mais recentes de Mariko Mori. Ler mais deste artigo

Contribuições da função mítica no design de entretenimento

Cena de "Red Riding Hood" (2011)

Ultimamente tenho deixado de postar textos novos porque (ainda!) estou tentando finalizar minha dissertação de mestrado – parece que ela não acaba nunca, ou talvez seja eu que detesto finalizar as coisas.

Mas pra não deixar este blog pegar poeira, compartilho abaixo um trecho de um artigo meu que acaba de ser publicado na revista Visualidades v. 9, n. 1, jan/jun de 2011. Trata-se de uma versão revisada, ampliada e atualizado do trabalho “Por uma função mítica no Design de Entretenimento”, apresentado no IV Colóquio Internacional de Imaginário, Cultura e Educação (Niterói/RJ, 2011) e escrito em conjunto com o Prof. Dr. André Luiz Battaiola.

O artigo completo está disponível aqui e a revista completa pode ser baixada aqui. Leia mais…»

Pensar o design, que tarefa é essa?

Esta minha postagem deveria ser a primeira que deveria ter escrito aqui, porém as idéias não surgem quando o pensamento quer, mas quando elas se sentem a vontade para se manifestar.  Restando a nós  saber relacioná-las com o nosso pensamento… Quando o Beccari me convidou para escrever no blog, uma das coisas que fiquei receoso se aceitava ou não era porque até então o título filosofia do design me parecia bem estranho (na verdade, ainda continua). Uma vez que concerne a pensar o design fora de um enquadramento disciplinar, aproximando de uma forma pela qual uma pessoa podia se manifestar no mundo, já que a nossa sociedade cada vez mais privilegia o jogo da imagem, o design aparece como uma maneira de atribuir conteúdo à performance que está presente nos dias atuais: o esteticismo. Esse modo de procedimento tem seu privilégio porque imiscui no fato de que a aparência condiz a uma condição hierárquica elevada no que concerne ao modo de formular juízos acerca de um ação. Com isso, se tomarmos o pensamento não como uma atitude contemplativa, teórica, e sim que todo o pensar sobre algo já é um ação, que tem a sua diferença por instituir a dúvida acerca dos fatos já aceitos como evidentes. Então, pensar o design seria justamente colocar em xeque o valor da aparência puramente formal, por mais que no primeiro momento ocorra uma semelhança entre aparência e design.   Ler mais deste artigo

“Fim do fim da história”, por Juremir Machado da Silva

Após os textos “Debord e o Hiper-espetáculo” e “Uma breve sociologia do imposto”, gostaria de compartilhar com vocês mais um ótimo artigo do professor Juremir Machado da Silva¹. Publicado na revista Verso e Reverso (Brasília: Unisinos, n. 37, 2003, p. 9-14), o texto abaixo parte do pressuposto de que o 11 de setembro não aconteceu para demonstrar um recurso midiático do “exagero factual”. A partir disso, acho interessante pensarmos em todo enaltecimento em torno da recente morte de Steve Jobs – mais um “fantasma” de um final comovente, mais um conto de fadas tão nostálgico quanto previsível.

“O 11 de Setembro não aconteceu”

Resumo: O 11 de Setembro de 2001 continua sendo uma incógnita para todos os seus analistas. Este texto examina, dentro do espaço teórico de reflexão estabelecido pelas obras de Jean Baudrillard sobre o assunto, as conseqüências “imaginárias” desse “acontecimento” e pergunta-se: excesso de previsão ou deficiência de imagem? Leia mais…»

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