terminologias e sotaques

menininha lendo FoucaultFrente a um texto qualquer (vamos usar de exemplo-cobaia aqui o Flores do Mal, que Baudellaire escreveu na Paris do fim dos 1800s) posso atacá-lo de muitas formas. Posso me focar nos significados literais das palavras, ou posso me prender às conotações, ou ainda posso tentar ouvir somente os sons e os ritmos transformando a poesia numa espécie de percussão. Mas essas são só possibilidades, entre outras, e ainda mais, entre uma série de possibilidades que não posso listar de antemão. Marshall Berman (em Tudo o que é sólido desmancha no ar) adota o excêntrico procedimento de usar uma análise urbanística da Paris daquela época para informar e interpretar os poemas de Baudellaire. As estratégias de leitura de um texto são múltiplas, instáveis e vão progressivamente se acumulando cada vez mais.

Inclusive algumas estratégias prospectivas revelam no texto significados que o autor não sabe que colocou lá.

Não podemos julgar as estratégias por nada além do seu resultado. Mas isso tem consequências estranhas: Uma delas é que simplesmente não existem formas certas ou erradas de ler. Toda leitura é uma tentativa, e apenas uma tentativa. Ler mais deste artigo

produtificação

Recentemente uma crônica (em inglês) perguntava se a Lego™ tinha vendido a alma para o demo. Curiosamente o mesmo exemplo que eu tinha usado alguns meses antes num debate no RLab. Basicamente a ideia é que os kits da Lego vem se tornando mais elaborados e complexos (despertando certamente em mim aquele célebre WANT) mas que ao mesmo tempo parece que também se tornam menos criativos.

Vamos explorar aqui a hipótese de que se trata de um fenômeno de produtificação: Para transformar uma coisa (genérica) em um produto é preciso “fechar” essa coisa.

O exemplo do Lego é interessante, já que trata de um brinquedo. Quando criança, influenciado por Star Wars, eu fiz uma nave espacial com as peças do kit “Casa” do Lego. Em retrospectiva, agora acho que era uma nave com um “quê” de casa, bem quadrada, sem cara de máquina. Mas era uma nave. Leia mais…»

Neoliberalismo econômico e outros problemas na Espaçonave Terra – Parte 3

Bucky

Primeiro ato: alguém faça o teste, peça para um professor entrar na sala vestido de palhaço e depois entreviste os alunos para ver quantos acham que ele é um militante esquerdista.

Depois que sua primeira filha morreu, aos 2 anos de idade, Richard Buckminster Fuller, no ápice de sua depressão, declarou: “ou eu páro de viver, ou eu começo a viver pensando. E eu quero pensar”. Por trás dessa convicta frase estava a motivação que o levou a iniciar o projeto “Guinea Pig B”, cujo andamento descreve em seu livro Critical Path. A ideia por trás do projeto era simples: qual é o máximo que uma pessoa comum pode fazer em prol do desenvolvimento da raça humana como um todo? É muito fácil se identificar com tal premissa já que todos nós, incluindo o Eike Batista, os senadores, os descendentes de japoneses, árabes, africanos, os pescadores, os operadores de telemarketing, os assaltantes, todos todos, somos pessoas comuns.

Buckminster Fuller também. Ele era uma pessoa tão comum que fracassou diversas vezes tentando fazer funcionar suas invenções, foi rejeitado, sofreu críticas, tinha astigmatismo muito forte também e ainda por cima acabou morrendo da mesma forma que muitas pessoas morrem quando ficam muito velhas. Ele sabia que as pessoas morrem depois que ficam muito muito velhas, então decidiu publicar 30 livros. Ler mais deste artigo

Neoliberalismo econômico e outros problemas na Espaçonave Terra – Parte 2

Se ninguém visse o sol nascendo, ele nasceria do mesmo jeito? Aliás, se ninguém visse o sol nascendo, alguem conseguiria ver alguma outra coisa? (foto por L. Miyake, via flickr)

Primeiro ato: Alguém faça o teste: escolham algumas expressões aleatórias que ouvimos diariamente (“calorias”, “fumo passivo” ou “terrorismo”) e pesquisem se a primeira aparição delas no mundo foi proferida da boca de um cientista ou de um publicitário.

Segurem essa, subjetivistas: o sol nasce de novo todas as vezes depois que ele se põe. É engraçado constatar que isso pode ser afirmado com uma certeza absoluta, pois provavelmente não existe alguém no mundo que assista o sol se pondo pensando “pronto, agora já era, agora é só lágrimas, adeus”. O sol sempre nasce de novo por que isso é um fato cuja observação gerou uma certeza, digamos, cientificamente comprovada. A ciência começou a funcionar mais ou menos assim. Não sabemos ainda por quê o sol nasce sempre ou que forças fazem o sol nascer sempre, o que sabemos é que de fato, com 100% de chances, ele vai surgir de novo no horizonte amanhã por volta das 6 horas da manhã. Portanto, terminem logo de imprimir esse jornal, escondam depressa todo o ouro, corram para as colinas e continuem fazendo todas as coisas que devem ser feitas logo antes das 6 da manhã.
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Contribuições da função mítica no design de entretenimento

Cena de "Red Riding Hood" (2011)

Ultimamente tenho deixado de postar textos novos porque (ainda!) estou tentando finalizar minha dissertação de mestrado – parece que ela não acaba nunca, ou talvez seja eu que detesto finalizar as coisas.

Mas pra não deixar este blog pegar poeira, compartilho abaixo um trecho de um artigo meu que acaba de ser publicado na revista Visualidades v. 9, n. 1, jan/jun de 2011. Trata-se de uma versão revisada, ampliada e atualizado do trabalho “Por uma função mítica no Design de Entretenimento”, apresentado no IV Colóquio Internacional de Imaginário, Cultura e Educação (Niterói/RJ, 2011) e escrito em conjunto com o Prof. Dr. André Luiz Battaiola.

O artigo completo está disponível aqui e a revista completa pode ser baixada aqui. Leia mais…»

Pensar o design, que tarefa é essa?

Esta minha postagem deveria ser a primeira que deveria ter escrito aqui, porém as idéias não surgem quando o pensamento quer, mas quando elas se sentem a vontade para se manifestar.  Restando a nós  saber relacioná-las com o nosso pensamento… Quando o Beccari me convidou para escrever no blog, uma das coisas que fiquei receoso se aceitava ou não era porque até então o título filosofia do design me parecia bem estranho (na verdade, ainda continua). Uma vez que concerne a pensar o design fora de um enquadramento disciplinar, aproximando de uma forma pela qual uma pessoa podia se manifestar no mundo, já que a nossa sociedade cada vez mais privilegia o jogo da imagem, o design aparece como uma maneira de atribuir conteúdo à performance que está presente nos dias atuais: o esteticismo. Esse modo de procedimento tem seu privilégio porque imiscui no fato de que a aparência condiz a uma condição hierárquica elevada no que concerne ao modo de formular juízos acerca de um ação. Com isso, se tomarmos o pensamento não como uma atitude contemplativa, teórica, e sim que todo o pensar sobre algo já é um ação, que tem a sua diferença por instituir a dúvida acerca dos fatos já aceitos como evidentes. Então, pensar o design seria justamente colocar em xeque o valor da aparência puramente formal, por mais que no primeiro momento ocorra uma semelhança entre aparência e design.   Ler mais deste artigo

arte não é língua

A arte não é linguagem.

Essa afirmação é obviamente falsa em muitos sentidos.

O primeiro, claro, é que algumas artes são feitas de palavras: A literatura é feita de frases. A canção é feita de versos. O teatro de falas. Nesse sentido, dizer que elas não são linguagem é como dizer que uma canoa não é madeira, o que é muito diferente de dizer que ela não é só um pedaço de madeira.

Uma obra de arte pode usar a linguagem tanto quanto quiser, e até mesmo expandir e aperfeiçoar essa linguagem enquanto a usa. Mas o que nos toca numa obra é aquilo que não se coloca em palavras. O que é significativo e valioso nela pode ser justamente o que não é articulável.

Mas nosso título é falso em um outro sentido, um sentido mais complicado. Toda obra de arte precisa resolver uma dualidade entre sua execução e seu propósito. E o par «execução/propósito» é similar ao par «sinal/significado»que é o mecanismo fundamental da linguagem.

Assim, o vocabulário da teoria da linguagem (sinal, código, referência, redundância…) facilita falar sobre arte e, imagina-se, estudar linguagem ajuda a entender arte. E parece que de fato é assim. O risco é que por desenvolver demais a comparação acabemos forçando a arte a se tornar linguagem mesmo naquilo em que não é. Leia mais…»

Introdução à Filosofia do Design – por Per Galle

Tradução livre do artigo Philosophy of Design: an editorial introduction (Design Studies, 23, 2002, p. 211–218) de Per Galle, por Marcos Beccari.

Resumo: O emergente campo de estudo e atualmente sob o nome de “filosofia do design” está apresentado. Com base na minha experiência de edição do presente número especial sobre a Filosofia do Design, dirijo-me a duas questões que eu levanto em nome do leitor: do que se trata a Filosofia do Design, e qual pode ser a sua utilização.

Palavras-chave: filosofia de design, pesquisa em design, a prática de design, design e educação, engineering design. Leia mais…»

Uma Abordagem Epistemológica acerca da Filosofia do Design

HfG-Ulm Archive

* artigo originalmente publicado no III Scientiarum Historia – 3º Congresso de História das Ciências e das Técnicas e Epistemologia, HCTE-UFRJ, 2010.

Introdução: Panorama Histórico da Pesquisa em Design

Este trabalho1 propõe uma revisão restrita aos paradigmas epistemológicos existentes na Filosofia do Design. Para tanto, julgamos oportuno levantar brevemente algumas das premissas históricas da Pesquisa em Design que são necessárias para a compreensão daqueles pretendidos paradigmas. Em um contexto onde o discurso moderno imperava na Europa, a form follows function ou funcionalismo foi a doutrina predominante por várias décadas na arquitetura e no design (FONTOURA, 1997). Segundo Cross (2007), a Pesquisa em Design foi inaugurada somente com a primeira Conference on Design Methods, realizada em Londres em 1962. Na tentativa de consolidar a metodologia de Design como disciplina científica, o movimento Design Methods procurava substituir o processo intuitivo, ainda recorrente, pela aplicação de procedimentos puramente científicos e racionais: métodos de pesquisa operacional, técnicas de gestão de tomada de decisão, técnicas de criatividade, etc. Leia mais…»

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