Em que medida somos colonizados pela linguagem?

Esta questão foi levantada no meu post Saussure, língua, xadrez e gerou debates antes mesmo que eu tentasse respondê-la – tentativa que farei agora. Vejamos: o que disse no tal post, e que de modo algum é uma ideia original, foi o seguinte: dado que a língua tem como elementos irredutíveis os fonemas (no caso da linguagem falada) ou letras (no caso da linguagem escrita), e dado que os fonemas e as letras existem em número limitado, as combinações possíveis entre tais elementos são finitas, de tal modo que seria possível – como faz Borges em A Biblioteca de Babel – imaginar uma biblioteca na qual estivessem compiladas todas as combinações possíveis das letras do alfabeto. Ora, em tal biblioteca estariam, assim, todos os textos possíveis de serem escritos: este post, a bíblia, o texto ganhador do prêmio Jabuti do ano que vem etc. Ler mais deste artigo

A morte do design – Parte I

Ainda no primeiro período, em História do Design, eu lembro do meu professor pôr a questão do que é design. Em suas divagações e questionamentos, ele chegou a perguntar-nos se Madonna não seria um artefato de design; ela é projetada para se comportar de determinadas maneiras, para cantar e se vestir com intuitos específicos e manobrar pelo mercado de forma planejada. Durante um tempo, aquilo foi uma piada interna, e das boas. Mas agora, passados quatro anos: e aí, Madonna é um artefato de design?

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Dilemas do Design VI – valor e avaliação

* texto originalmente publicado na Revista Clichê.

“O segredo da maestria é que não há mestre.” – Georges Gusdorf, Professores para quê? (São Paulo, Martins Fontes, p. 318).

Imagine que você é um professor de design editorial e nenhum de seus alunos sabe o que significa “kerning”. Exceto um, que inclusive trabalha nessa área já faz uns dez anos. A princípio, você teria duas opções: (1) começar do básico e fingir que aquele aluno não existe, nota 10 pra ele e pronto; (2) avaliar cada aluno de acordo com seu próprio “esforço”, isto é, do quanto cada aluno progride dentro de seu “nível” individual. Leia mais…»

Livro “Existe Design? Indagações filosóficas em três vozes”

Três vozes, quatro perguntas, doze ensaios que propõem horizontes de respostas. É através deste formato que os autores deste livro nos convidam a refletir filosoficamente sobre o design. Em meio aos ensaios, a um só tempo densos e saborosos, vemos surgir três perspectivas complementares do design. São diferentes formas de encarar sua existência, suas diversas utilidades e inutilidades, suas dimensões morais e estéticas, seus percursos históricos e teóricos, suas características e potências específicas. Um livro para designers intelectualmente inquietos e para amantes do pensamento interessados em design.
[texto da 4ª capa do livro]

Texto de divulgação: Existe design? Esta é a pergunta que intitula o novo livro da editora 2ab, publicação inaugural da série Filosofia do Design. Pode ser que a pergunta pareça tola – e talvez seja, até mesmo tolice pura. Por sorte, há quem não se detenha frente a perguntas assim. Afinal, são justamente estas que não admitem respostas prontas e chacoalham a poeira do senso comum. É este o objetivo do livro “Existe design?: indagações filosóficas em três vozes”. Trata-se de um livro escrito especialmente para o leitor que não foge das perguntas tolas.  Leia mais…»

Tragam suas machadinhas: vamos falar sobre cultura

Foto extraída do portal R7

Foto extraída do portal R7

Poderia ser o enredo de algum conto surreal de H. P. Lovecraft: em plena tarde de domingo, Regina Casé e Preta Gil aparecem juntas em um mesmo palco comandando Caetano Veloso em um programa musical no qual celebridades da Globo dançam e fazem festa. Poderia ser, mas na verdade trata-se de uma “impressão digital” – segundo o próprio programa e sua apresentadora, da cultura brasileira em um drops semanal de um pouco mais de uma hora. Não faz muito tempo que Regina Casé foi eleita como uma espécie de porta-voz da cultura do nosso país em todos os papéis que vem desempenhando nos programas da televisão. Talvez tenhamos outros porta-vozes menos populares, mas com certeza nenhum tão entusiástico e aparentemente engajado em demonstrar essa cultura toda.

Tal fato, claro, agrada a muitos, e desagrada a outros tantos. O questionamento acaba surgindo: fazemos realmente parte dessa cultura sendo demonstrada ou estamos nos portando como um observador externo de um fenômeno que não representa – ou ao menos desejaríamos que não representasse – a nós mesmos? Ler mais deste artigo

terminologias e sotaques

menininha lendo FoucaultFrente a um texto qualquer (vamos usar de exemplo-cobaia aqui o Flores do Mal, que Baudellaire escreveu na Paris do fim dos 1800s) posso atacá-lo de muitas formas. Posso me focar nos significados literais das palavras, ou posso me prender às conotações, ou ainda posso tentar ouvir somente os sons e os ritmos transformando a poesia numa espécie de percussão. Mas essas são só possibilidades, entre outras, e ainda mais, entre uma série de possibilidades que não posso listar de antemão. Marshall Berman (em Tudo o que é sólido desmancha no ar) adota o excêntrico procedimento de usar uma análise urbanística da Paris daquela época para informar e interpretar os poemas de Baudellaire. As estratégias de leitura de um texto são múltiplas, instáveis e vão progressivamente se acumulando cada vez mais.

Inclusive algumas estratégias prospectivas revelam no texto significados que o autor não sabe que colocou lá.

Não podemos julgar as estratégias por nada além do seu resultado. Mas isso tem consequências estranhas: Uma delas é que simplesmente não existem formas certas ou erradas de ler. Toda leitura é uma tentativa, e apenas uma tentativa. Ler mais deste artigo

O aftermath da tabela

”No reino do kitsch totalitário, as respostas são dadas de antemão
e excluem qualquer pergunta nova. Daí decorre que
o verdadeiro
adversário do kitsch totalitário é o homem que interroga. A pergunta é como
a faca que rasga a cortina do cenário para que se possa ver o que está atrás.”

Milan Kundera, em A insustentável leveza do ser

Se você faz parte do campo “criativo” do “mercado”, com certeza você acompanhou a polêmica da tabela de preços semana passada – ou foi retrasada?. Depois da mariola da peteca, gostaria de tentar fazer alguma contribuição na transcendentalização da tabela para tentar discutir sobre algo mais produtivo. Claro que outras críticas já foram empreendidas por pessoas muito, muito, muito, mas muito mais competentes do que eu. Mas vou tentar acrescentar alguma coisa.

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Sobre a teoria linguística de Saussure

Em meu último post aqui no blog, levantei algumas questões introdutórias ligadas à linguagem, utilizando como referência principal a teoria da linguagem de Saussure. Um ponto que ficou em aberto foi o do quanto e de que formas o sujeito seria, de certo modo, colonizado pela linguagem. Eu apresentei então somente um aspecto da questão — que não pode de modo algum ser considerado uma resposta –  e pretendo refletir melhor sobre o assunto em um próximo post, inclusive mostrando como a teoria do Saussure de fato só trata de uma pequena área da esfera da linguagem, embora muitas de suas ideias sejam aplicáveis também em outros lugares, como mostrarão os estruturalistas. Antes de fazer isso, porém, achei que seria pertinente escrever uma exposição minimamente aprofundada de alguns aspectos da teoria do Saussure — é isso que farei no presente post. Utilizarei como guia principal o Curso de linguistica geral (CLG), compilação das notas dos alunos dos cursos de Saussure ministrados a partir de 1906 e que é o principal registro das teorias do linguista. A edição consultada do CLG foi: SAUSSURE, F. Curso de linguística geral. São Paulo: Cultrix, 2006 (disponível neste link). Leia mais…»

Do livre afeto não arbitrável

Negar o livre-arbítrio é entendido, no senso comum, como negar liberdade. Ainda que fosse uma simples questão de resistência contra um suposto determinismo mecânico e fatalista do universo, nunca sabemos se essa resistência já faz parte de tal mecanismo fatal. Contudo, não é só disso que se trata. As pessoas entendem livre-arbítrio como exercício pleno de liberdade, o que implica (conscientemente ou não) partir da premissa de que, sem a intencionalidade do livre-arbítrio, seremos sempre escravos de nossas “pulsões animais” – enfim, aquela separação agostiniana mente-corpo recalcada na civilização moderna.

Logo, entender o livre-arbítrio como sinônimo de liberdade significa considerar-se naturalmente aprisionado: acredita-se que nossas pulsões irracionais são destrutivas (pois nosso corpo é vil) e que, no entanto, por algum motivo (Deus ou coisa do gênero), nós temos a dádiva do livre-arbítrio (a dádiva da mente), que não nos deixa à mercê de nossas vontades e desejos mais perversos. E mesmo dentro dessa concepção judaico-cristã, livre-arbítrio ainda parece ser mais uma questão de controle (das pulsões) do que de liberdade. Leia mais…»

Dilemas do Design V: corporativismo

* texto originalmente publicado na Revista Clichê.

“O design como conhecemos hoje só existe porque jovens de 20 a 30 anos se sujeitam a trabalhar como escravos para empresas que os usam como ferramentas.” – Charles Watson.

Muitos críticos sustentam que o indivíduo de hoje, diante de um suposto enfraquecimento dos tradicionais laços de identidade (família, trabalho, religião, panelinha etc.), tem abandonado o sentimento de identidade coletiva em proveito de condutas narcisistas e hedonistas. É uma leitura plausível, mas simplifica questões prementes, sobre as quais ainda pretendo discorrer em ensaios mais longos, fora dessa série dos dilemas do design. Leia mais…»

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