A morte do design – Parte I

Ainda no primeiro período, em História do Design, eu lembro do meu professor pôr a questão do que é design. Em suas divagações e questionamentos, ele chegou a perguntar-nos se Madonna não seria um artefato de design; ela é projetada para se comportar de determinadas maneiras, para cantar e se vestir com intuitos específicos e manobrar pelo mercado de forma planejada. Durante um tempo, aquilo foi uma piada interna, e das boas. Mas agora, passados quatro anos: e aí, Madonna é um artefato de design?

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repressão (vadias redux)

Anteontem o espetáculo Hasard do ERROgrupo foi interrompido pela polícia, que alegava que os atores iriam ficar pelados, uma autuação por pré-crime. Minority Report na vida real, caso alguém ainda não tivesse percebido que vivemos numa estranha ficção.

Ceci n’est pas une Líder (por: Ricardo Wolffenbüttel / Agência RBS)

Na estranha ficção que por alguma razão chamamos de realidade, o corpo é uma coisa perigosa. É um segredo a ser mantido sob estrito controle. Muito curioso, já que afinal a experiência corporal, essa de ter um corpo e ser um corpo, de certa forma é a primeira de nossas vidas. Também não se trata de uma pura demonização do corpo, afinal o corpo em si não é transgressivo, ou mais precisamente no fundo é impossível abdicar do corpo. Trata-se de uma forma de jogar com o corpo, de um complexo e arriscado jogo, do qual não deveríamos nos manter ingênuos.

E há várias formas diferentes de ser ingênuo quanto ao assunto. É simplismo, por exemplo, dizer que o impulso sexual exige ser controlado, como se fosse um tipo de bomba atômica que assim que liberado destruiria mundos. Mas também é simplismo acreditar que a simples validação do impulso sexual resolve todos os problemas, como na mensagem da Marcha das Vadias de que “a mulher deve estar no controle da sua própria vida sexual”.

Nossa relação com o corpo é complexa, no sentido de ser uma miríade de tensões num balanço delicado. É muito fácil pegar apenas uma parte dessa bagunça e transformar numa história simples. Mas quase sempre essas histórias simples são um jogo cujas regras não nos permitem ganhar. Ler mais deste artigo

vadias

Banksy girl & policemanDesigners de moda deviam fazer uma passeata anti-Marcha-das-Vadias. Segundo a lógica da Marcha, algo que se veste não pode afetar o desejo. E, se for assim, criar roupas é uma ocupação medíocre.

Claro, nem mesmo os organizadores da Marcha têm o disparate de sustentar uma coisa assim. O reclame é “minha roupa danada não é razão pra me estuprar”. Parece sensível, mas se pararmos pra pensar, isso assume um estuprador que tenha escolhido estuprar por razões lógicas, calmamente consideradas, praticamente um esquizofrênico. Devem existir pessoas assim, mas devem ser 3 no mundo. Talvez 4.

A maior parte dos estupros, bem como a maior parte das situações de sexo saudável entre adultos consensuais, é uma mistura de impulsos e sentimentos confusos. Nessa mistura, o desejo tem uma presença colossal.

E no entanto, não se pode falar no desejo, pois somos uma sociedade assolada pelo pudor. Ler mais deste artigo

twitter^-1 ou a superficialidade contemporânea

caninha no estado cú de foca depois de 3 dias num banho de nitrogênio líquidoO certo é: sal, tequila, limão.

Exatamente nessa ordem.

A explicação funcionalista é a seguinte: O sal protege a gengiva, o limão tira o gosto. As duas coisas voltadas pra minimizar o estrago de uma tequila trevas. É mais ou menos o que você faria, em termos brasileiros, se estivesse tomando Velho Barreiro. Se você estivesse tomando uma Anísio Santiago, fazer a mesma coisa seria um grande desperdício, afinal uma pinga que custa mais de cem mangos a garrafa não é coisa da qual você tenha que se proteger. Mas aí é que mora a trapaça: Não tomamos por aqui tequilas ruins. Pode ter certeza que existe todo tipo de coisa bizarra por lá, no México, mas ninguém importa as tosqueiras. Afinal, se você vai pagar o (alto) custo de transporte, vale mais à pena importar a tequila que presta.

Em economês, isso tem um nome: Efeito Alchian-Allen. Precisamente, diz que quando se adiciona um custo fixo a dois produtos equivalentes B e C, aumenta-se o consumo do produto mais caro. A princípio isso é estranho, porque um aumento de preços nos levaria a buscar a versão mais barata, mas o que acontece é que você diminui a diferença proporcional entre os dois preços. Digamos que B custava $10 e C $20. O dobro! Mas quando você adiciona um custo fixo de $10, agora B custa $20 e C $30, já não é uma diferença tão absurda. Se o custo fixo fosse por exemplo $30, no final $40 x $50, já quase não faz diferença.

OK, mas o interessante é que isso pode acontecer ao contrário, quando você corta um custo fixo, tornando tudo igualmente mais barato, você pode aumentar o consumo do produto barato. É por isso que temos o Twitter! Ler mais deste artigo

Projetando focinheira para vampiros

twilight-saga-scene-cutPassei os últimos meses (e ainda continuo) em verdadeira maratona intelectual, tentando dar forma a minha pesquisa de doutorado sobre diferentes modos de enxergar as possibilidades e motivações para controle dos próprios desejos. Aproveitando o sucesso estrondoso da Saga Crepúsculo, começo tal pesquisa com uma leitura da saga.

Imagino que todos os leitores saibam – requisito mínimo de erudição pop – que um dos pontos centrais da história é a luta de alguns vampiros para controlar seus impulsos. Edward, o vampiro galã protagonista, passa a maior parte de Crepúsculo tentando controlar sua sede pelo sangue de Bella, sua amada. A cada momento, ele tem de lutar entre seu desejo vampiresco de matá-la com um chupão sanguinolento e seu humano, demasiado humano, amor romântico que o impele a protegê-la e a fruir de sua doce presença. Leia mais…»

produtificação

Recentemente uma crônica (em inglês) perguntava se a Lego™ tinha vendido a alma para o demo. Curiosamente o mesmo exemplo que eu tinha usado alguns meses antes num debate no RLab. Basicamente a ideia é que os kits da Lego vem se tornando mais elaborados e complexos (despertando certamente em mim aquele célebre WANT) mas que ao mesmo tempo parece que também se tornam menos criativos.

Vamos explorar aqui a hipótese de que se trata de um fenômeno de produtificação: Para transformar uma coisa (genérica) em um produto é preciso “fechar” essa coisa.

O exemplo do Lego é interessante, já que trata de um brinquedo. Quando criança, influenciado por Star Wars, eu fiz uma nave espacial com as peças do kit “Casa” do Lego. Em retrospectiva, agora acho que era uma nave com um “quê” de casa, bem quadrada, sem cara de máquina. Mas era uma nave. Leia mais…»

Pink Floyd, espaço-tempo e colaboração

Tenho escutado muito Pink Floyd esses dias.

“I’m not sure. I’m exceedingly ignorant—”

The young man laughed and bowed. “I am honored!” he said. “I’ve lived here three years, but haven’t yet acquired enough ignorance to be worth mentioning.” He was highly amused, but his manner was gentle, and I managed to recollect enough scraps of Handdara lore to realize that I had been boasting, very much as if I’d come up to him and said, “I’m exceedingly handsome…”

“I meant, I don’t know anything about the Foretellers—”

“Enviable!” said the young Indweller. (…)

- Ursula LeGuin, The Left Hand of Darkness

Por esses dias, li o post de Eduardo Camillo e pensei que nós não construímos conhecimento como deveríamos por aqui. Leia mais…»

improvisação

lâmpada com efeitosThomas Edison não escolheu a lâmpada. Ele criou a lâmpada. Apesar de que ele fez uma lista de todos os possíveis materiais para um filamento e testou pentelhamente um por um. Apesar de que ele sabia o que ele queria fazer muito antes de ter conseguido. Apesar de que a lâmpada era uma coisa que todo mundo meio que sabia que devia ser possível de algum jeito. Mas ainda assim escolhemos chamar essa ação de “invenção”. Claro, também poderíamos ter chamado de “abacaxi”. Mas vamos assumir temporariamente o (mal) pressuposto de que a palavra importa. Por que não se trata de uma escolha? E por que isso importa?

Como nos mostra Barry Schwartz (no video do último post), a fixação que nossa cultura tem com “escolhas” vem de um recalque mais profundo com a “liberdade”. Como nos mostra David Graeber (num livro que vocês não podem ler senão passarão a achar todas as minhas ideias requentadas), essa fixação do ser-livre só aparece numa sociedade em que muitos são não-livres, ou escravos ou escravos do salário ou algo do gênero. Leia mais…»

opção fnord

A Ford logo subverted to read Fnord

Logo, subvertida (Photo credit: Wikipedia)

A vida é feita de opções. Frase tão trivial que quase não diz nada. Mas esconde algo: Um pressuposto perigoso de que a vida deve ser (ou simplesmente é) modelada pelo nosso condicionamento verbal.

É óbvio. Não?
Nosso cérebro macaco é extremamente flexível. Tão flexível que consegue até fazer coisas inúteis como processar palavras. Mergulhados na cultura como estamos, esquecemos como uma palavra carece de praticidade. Mas imagine-se perdido numa floresta sem o manual do escoteiro mirim, e me diga: Para que você usaria uma palavra? (Gritar por socorro não precisa de palavras, qualquer som claramente não animal serve).

Contraste isso com a vasta utilidade cultural das palavras: Utilidade para lidar com outros seres humanos, na prática passar outros para trás. Ler mais deste artigo

Consumo ateu e o fetichismo contemporâneo

O que ateísmo tem a ver com consumo? O recalque da proibição pela negação da mesma [1]. Quando falamos de fetichismo (nossa crença de que certas mercadorias são “objetos mágicos”), a tendência é considerar que a “manifestação teológica” do produto nada mais é do que uma expressão “comum” da realidade social. Em nível de discurso, é o mesmo que dizer que Deus está morto/não existe [2] – o que implica negativa, proibitiva e necessariamente continuar acreditando em alguma ideia de “Deus”.

Se entendermos “Deus” como uma autoridade onipotente e opressiva, sua queda ou ausência paradoxalmente significa, ao invés de liberdade, proibições cada vez mais severas. Quando não há dogma ou fetichismo religioso, o mais comum é dedicar-se a uma busca incondicional da felicidade sob o ilusório pressuposto dostoievskiano de que “tudo é permitido”. Para tanto, em vez de se recalcar desejos ou prazeres ilícitos, passa-se a recalcar o recalque em si, ou seja, a própria proibição que nos priva de tais desejos e prazeres. Leia mais…»

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