Inócua interatividade

É verdade que design só existe por meio de interações humanas. O que é bem diferente de afirmar que interações humanas só existem por meio do design. Trata-se então do lado vazio da interatividade: reduzir as interações humanas a um “dever” como design (ou como relacionamentos, trabalho, postura política, religião etc.).

Quando vemos um programa de comédia na TV, temos o dever de achar engraçado? Antigamente, não apenas deveríamos rir, mas a própria reação de riso era incluída na trilha sonora de uma cena cômica. Era como se a TV tivesse rido por nós.

Papel semelhante, só que ao contrário, é desempenhado pelas chamadas carpideiras (mulheres contratadas para chorar nos funerais) – algo ou alguém experimenta por nós os sentimentos e atitudes mais íntimos e mais espontâneos, como chorar e rir. Em ambos os casos, o pressuposto não é que o riso e o choro resultam de uma interação, mas o contrário: a interação resulta do riso/choro. Leia mais…»

só na moral

tatuagens, café, um aperto de mão não tem preçoCirculou pelo submundo nerd esses dias um papo intitulado “design moral” (em inglês). E sim, trata-se de moral no sentido de moralidade. Começa bombástico:

All good design is moral design, and only moral design can ever be good.

Ou seja, um projeto só pode ser bom se for moral. Adoro! E concordo muito. Mas será que reivindicar um design moral não tira o foco da ação de projetar (tipo caubói de mouse) para colocar toda a ação num nível muito impessoal, burocrático até? Ler mais deste artigo

sete questões

Pensar sobre design não deve se resumir a pensar relações profissionais de designers: Essas relações não existem sem um contexto. O projetar informa (é mais um dos processos que informam) esse mundo contemporâneo, e na medida em que existe uma escolha mais ou menos política de fazer o design ser paradigmático (tanto como forma de aumentar o preço do serviço quanto como uma justificativa da economia como criadora de felicidade, via “inovação”) as armadilhas de um tipo de pensamento que se limitasse à relações com clientes vão se tornar cada vez mais aparentes. Quero portanto deslocar a atenção para algumas questões interessantes hoje.

1: Matemática, ou a programabilidade

O rápido desenvolvimento do computador nas últimas décadas gerou todo tipo de efeitos não-óbvios. O primeiro deles é que com a miniaturização dos componentes é possível adicionar um computador a praticamente qualquer coisa física onde se possa imaginar um uso para algum tipo de computar. E computar é uma forma de inserir nessas coisas físicas uma qualidade matemática. O que isso gera?

Essa “parte matemática” tende a começar como uma simples adição, sem interferir com a natureza do objeto original. Esse processo é mais facilmente visível na internet. Estamos entendendo a internet como uma mistura de textos (livros, revistas) e programabilidade. A princípio, a internet se baseava em textos estáticos, mas com o passar do tempo a programabilidade do conteúdo se mostrou um potencial muito maior, de forma que cada acesso à uma página gera um novo “olhar” sobre aquele conteúdo, tornando a troca de informações muito mais dinâmica e poderosa.

Da mesma forma, é possível que desenvolvimentos semelhantes existam quando adicionamos programabilidade à outras coisas. Um exemplo interessante é o dinheiro, que vem sendo não só substituído por cartões eletrônicos, mas esses próprios cartões já incorporam chips. E embora as consequências de cada uma das inovações seja sempre benéfica, não há garantia de que o conjunto delas seja, já que cada uma delas altera o mundo em que vivemos, que é exatamente o contexto do design. Nos resta uma aceleração do processo que tende a aumentar a complexidade e diminuir o controle. E ainda existem mais 6 questões…»

As quatro trincheiras de uma guerra sem chão

* texto originalmente publicado no Formas do Consumo.

MMA é a sigla para artes marciais mistas, modalidade esportiva que tem se tornado cada vez mais popular através do torneio UFC. Zumbis são criaturas fictícias que representam seres humanos mortos ou infectados, sedentos por cérebros saudáveis. Hipsters é a designação de uma subcultura que fetichiza a autenticidade por meio da negação da cultura mainstream. Por fim, “occupy” se refere aos recentes movimentos sociais de mobilizações e protestos urbanos que não demonstram um posicionamento político bem definido.

São muitas as relações possíveis entre esses quatro fenômenos contemporâneos, mas o “espírito de guerra” que os circunscreve é o que me parece mais sintomático. Embora tal aspecto humano e sua decorrente paisagem apocalíptica já estejam “eternizados” em diversos relatos mítico-religiosos – Babel, Troia, Atlântida etc. –, a aparente ausência atual de guerras “reais” pode estar sendo superada através de sua re-experiência sob a forma de consumo. Leia mais…»

Notícia quente: em busca de “identidade própria”, população Curitibana mistura açúcar e adocante na mesma xícara de café

Tá tudo bem agora

Ato 1: O bom, o mau, o feio. O que eu sou, o que eu quero ser, o que eu acabo sendo.

Quando Douglas Adams criou, dentro da própria cabeça, o livro “O Guia do Mochileiro das Galáxias”(1), em 1978, ele imaginou que estariam impressas, na contracapa do próprio guia, as palavras “Don’t Panic”. A genialidade por trás dessa idéia é simplesmente o fato de que, não importa a situação e a menos que você seja o Incrível Hulk, entrar em pânico nunca é algo bom. Se conseguir uma carona pra sair de algum planetinha ao redor de Alfa Canis Majoris já deve ser muito difícil, tentar realizar tal tarefa estando em pânico causa um stress que deve diminuir a expectativa de vida de qualquer pessoa em, no mínimo, uns 30 anos. Por isso que, quando você pega o Guia do Mochileiro das Galáxias na mão, ele fala delicadamente: “velho, relaxa”. Ler mais deste artigo

Fantoches nem sempre alienados

* publicado originalmente no Formas do Consumo.

Tenho a impressão de que a maioria das discussões teóricas sobre consumo repete uma mesma parábola: era uma vez um cara chamado Marx que encarava a produção industrial como sendo o motor da história e o único campo legítimo de luta social – luta porque o mundo seria dividido em dois: quem manda e quem obedece.

Diante disso, consumo é o vilão da produção industrial e, portanto, aquilo que freia a história — consumir reduz-se a uma instância passiva de manipulação que nos faz querer coisas sem haver uma real necessidade de tê-las. Leia mais…»

A dúvida do mercado

* texto originalmente publicado na Revista Ciano (vol. 2, n. 1, 2012, p. 88-116) | ilustrações de Guilherme Henrique.

“O drama de quem duvida é maior que o de quem nega, porque viver sem um fim é muito mais difícil que viver para uma causa” (Emil Cioran, 2003, p. 76).

Entre os designers, é comum de se dizer que fulano ama ou odeia o mercado, que beltrano se vendeu ao mercado, que ciclano atua no e sobre o mercado, como se esse tal de “mercado” fosse alguém, uma entidade ou um contexto.

Mas assim como dizemos “bom dia” sem necessariamente desejarmos que o interlocutor tenha, de fato, um dia bom, trata-se de puro hábito, como dizer “eu te amo” ou “preconceito é crime” – ou seja, o mercado é uma abstração que não existe concretamente. Leia mais…»

pertencer e excluir

traseira do iMac 1998 da cor Bondi BlueO jogo do design, ao esconder e revelar intrincados níveis da realidade (ou, se você levar Flusser à sério, a própria realidade), aciona poderosos sentimentos. Podem não ser sentimentos poderosos do tipo “juro vingança e nunca mais dormirei na mesma cama antes de matar o maldito que alterou a marca original do Itaú”, mas certamente são sentimentos poderosos o suficiente para redirecionar os fluxos dos desejos da sociedade do espetáculo (e, através deles, os níveis de compra, e através deles, os indicadores econômicos — que de acordo com quem você pergunta são a única realidade que importa).

Vindo de uma perspectiva um pouco diferente, parece não fazer nenhum sentido que uma cor azul possa fazer qualquer diferença significativa de uma cor preta, como por exemplo quando a iMac original na sua cor bondy-blue deslocou a Apple da via da falência para o caminho de se tornar a maior empresa do mundo. É só uma cor!? Ou seja, por mais que eu perceba esse poder do design, também percebo que existe alguma coisa nele que não é tão fácil de explicar, que não é óbvio ou que não funciona de uma forma linear como a economia ou a física poderiam sugerir.

Uma das camadas dessa complexidade é a relação de pertencimento. Ler mais deste artigo

Consumo e Design: seduções simbólicas

* texto publicado originalmente no Formas do Consumo e ampliado para o Filosofia do Design.

Desde criança, existia algo (que eu não sabia o quê) que me fascinava em cartazes, livros, histórias em quadrinhos, filmes, etc. Algo sutil e efêmero mas que, de certo modo, parece ter vida própria. Então decidi estudar Design Gráfico para aprender a fazer aquilo que sempre me chamou atenção.

Olhando agora, no entanto, percebo que eu fico mais entusiasmado em entender como aquele algo funciona do que propriamente em fazer aquilo funcionar. Leia mais…»

Você é original? Então também é possessivo

Fonte: http://www.focusonlinecommunities.comMurray (2011) fala que o conceito de originalidade tem suas raízes na idéia de posse. Isso porque com a instauração do livre comércio, lá no final do Renascimento os fabricantes, comerciantes, distribuidores, autores viram a necessidade de diferenciar seus produtos, aumentar a competitividade e no fim das contas vender mais. Inventaram então a originalidade, ou seja camuflaram o processo criativo para que não se soubesse a real origem da idéia, e instauraram uma série de proteções amparadas pela lei, criminalizando então a copia. Leia mais…»

Seguir

Get every new post delivered to your Inbox.

Junte-se a 128 outros seguidores