Não somos aqueles por quem estávamos esperando

Muito se tem discutido, pelo menos no contexto específico dos estudantes de design de Curitiba, sobre engajamento ativo, representatividade, manifestos e mobilizações entre designers. É como se a tão aguardada regulamentação do design enaltecesse um senso de responsabilidade social como estratégia de valorização de nossa profissão. Segue-se o famoso lema de Gandhi “seja você a mudança que deseja ver no mundo”, que é muito próximo ao antigo ditado hopi [1] de que “nós somos aqueles por quem estávamos esperando”.

Minha reação permanece a mesma: não tenho nada com isso [2]. Ainda assim algumas pessoas insistem em “discutir” (eufemismo para negociação doutrinária) sobre o papel de minhas filosofices de design, como se devesse existir alguma finalidade ética ou política no que eu faço (ou deveria fazer) que possa contribuir de modo concreto para a sociedade. Geralmente minha resposta é “desculpe, mas não sou quem você esperava”. Leia mais…»

A dúvida do mercado

* texto originalmente publicado na Revista Ciano (vol. 2, n. 1, 2012, p. 88-116) | ilustrações de Guilherme Henrique.

“O drama de quem duvida é maior que o de quem nega, porque viver sem um fim é muito mais difícil que viver para uma causa” (Emil Cioran, 2003, p. 76).

Entre os designers, é comum de se dizer que fulano ama ou odeia o mercado, que beltrano se vendeu ao mercado, que ciclano atua no e sobre o mercado, como se esse tal de “mercado” fosse alguém, uma entidade ou um contexto.

Mas assim como dizemos “bom dia” sem necessariamente desejarmos que o interlocutor tenha, de fato, um dia bom, trata-se de puro hábito, como dizer “eu te amo” ou “preconceito é crime” – ou seja, o mercado é uma abstração que não existe concretamente. Leia mais…»

Design social e outros ressentimentos

* texto originalmente publicado na Revista Ciano | ilustrações de Sooz Lillend.

Não raro, muitos me questionam: por que você nunca menciona Gui Bonsiepe, Tomas Maldonado, Bernd Löbach (entre outros) quando você fala de Filosofia do Design?  Pois bem, eu já li alguma coisa até e, pelo que lembro, não achei nada ruim.

A questão é que estes veteranos do Design estão muito preocupados com um tal de “papel social”, tipo Paulo Freire, considerando o design como um elemento constitutivo e instaurador na sociedade, cabendo ao homem (ao designer) transformá-la. Leia mais…»

Filosofia do Design, parte LIX – Design é Arte?

* texto originalmente publicado no Design Simples.

“Isto não importa” é um argumento tão fácil e vazio quanto àquele que reconhece uma linha clara separando Arte e Design e que, como diz Craig Elimeliah, nos encoraja a “equilibrar para inovar”. Monika Parrinder traz uma ideia mais elaborada: o designer-artista pode ser tanto um “mito do gênio” quanto uma tentativa de emancipação político-ideológica. Mas isso também não me convence.

De acordo com Kenneth FitzGerald, referindo-se à esquizofrenia artística de Paul Rand, o Design deseja ser arte e não-arte ao mesmo tempo, and fears it’s nothing. Abbott Miller, por sua vez, explica que o Design tenta domesticar a Arte como uma forma de legitimar-se nos âmbitos científico, cultural, econômico e social, seguindo a equação art + business = design. Leia mais…»

Filosofia do Design, parte LIII – Super-designers

* texto originalmente publicado no Design Simples.

Você conhece alguém que sonha em salvar o mundo com o Design? Eu conheço. Suas armas vão desde cartazes filantrópicos até inovações tecnológico-sustentáveis. Eles projetam um carro elétrico maravilhoso que, no entanto, continua cheirando à gasolina por ocasião do contexto circundante – as coisas materiais, verbais e institucionais permanecem indiferentes e ultrapassadas. É um objeto falso, deslocado dos demais.

A justificativa é também ultrapassada: precisamos conscientizar as pessoas e, a partir de cada indivíduo, transformar o mundo. Em outras palavras, consertar o mundo seguindo determinados princípios do bem. Este raciocínio geralmente se direciona à ideia de uma mudança total e completa, pois quanto mais você tenta consertar, mais desconsertado fica. Leia mais…»

O que fetichismo, totemismo e idolatria têm a ver com design?

Fetichismo, totemismo e idolatria podem ser vistos como formas de relação entre humanos e imagens ou coisas. Por exemplo, se um sujeito estabelece com sapatos femininos uma relação erótica, digo que é tal sujeito é um fetichista e, o sapato, um fetiche. Se outro adora uma escultura como a um Deus, digo que é idólatra e, a escultura, um ídolo. Se outro ainda encara o símbolo de um time de futebol como algo que pauta sua identidade, dizemos que estabelece com tal time um relação totêmica (em relação ao totemismo, é preciso reconhecer que ele participa menos que os outros do vocabulário cotidiano).

Ora, o design tem como função principal trabalhar as relações das pessoas com as coisas e as imagens: seja enfocando a funcionalidade, o significado ou a estética. Assim sendo, nenhum objeto de estudo parece mais importante para o design do que as formas de relação que se estabelecem entre humanos e objetos ou imagens – e é exatamente nesse âmbito que estão o fetichismo, o totemismo e a idolatria. Leia mais…»

Filosofia do Design, parte XLV – Subversivo Design

* texto originalmente publicado no Design Simples.

Muitos consideram que a Filosofia do Design, conforme retratada em meus ensaios, é “desnecessariamente subversiva”. Na perspectiva psicológico-existencialista, subversão significa distanciar-se de você mesmo, olhar para si como se você fosse um estranho e depois descobrir quem é que observa este estranho. Tal estranheza pode ser ilustrada com o seguinte trecho do posfácio de “A vida está em outro lugar”, romance de Milan Kundera:

“Jaromil me parece de imediato ridículo (…) posso dizer a mim mesmo que Jaromil não sou eu, eu não sou ele (…) e portanto que a minha confiança está salva. Mas eis que rapidamente (…) meu riso começa a ficar amarelo, e Jaromil a parecer-se perigosamente comigo (…) O bufão, que antes estava no palco, diante de mim, desce para a plateia, ao meu lado, em mim, de tal maneira que em breve já não posso manter Jaromil à distância e o meu riso é contra mim mesmo (…) A caricatura virou espelho.” (François Ricard in KUNDERA, 1991, p. 381).

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O que, como, quanto e por que (não) lêem os designers?

Atenção designófolos de Curitiba/PR: semana que vem haverá uma mesa-redonda sobre a falta de leitura dos designers.

Trata-se da conclusão da disciplina de Teoria do Design (UFPR) através de um bate-papo aberto ao público. O evento, que será gravado em áudio e posteriormente publicado no AntiCast, contará com a presença de Marcel Pauluk (Mestre em Comunicação e Semiótica PUC-SP), Gloria Kirinus (Doutora em Literatura Comparada USP), Rafael Ancara (representando o AntiCast) e deste que vos escreve, Marcos Beccari (representado o Filosofia do Design) – além dos alunos que participarão diretamente da discussão. Anota aí na agenda:

Quando: dia 21 de junho | terça-feira

Horário: das 18h30 às 20h30

Onde: Reitoria UFPR | Rua General Carneiro, 460, Edifício Dom Pedro I, 8º andar, Auditório 800 Leia mais…»

Filosofia do Design, parte XLIV – o Design Ortodoxo

* texto originalmente publicado no Design Simples.

Tanto no meio acadêmico quanto no meio profissional é bonito falar em abertura, liberdade de expressão, convivência de ideias, trabalho colaborativo, diálogo, etc. Como se não houvesse trincheiras ideológicas, panelinhas e preconceitos no Design. Eu, por exemplo, tenho preconceito contra quem acha que não tem preconceitos. E também contra aqueles que se acham “revolucionários” por serem homossexuais, vegetarianos, nerds e blasés. Tipo, it’s so last century… sorry.

Mas se não parecermos éticos (seja lá o que for ética), não pega bem. Temos que apoiar a sustentabilidade, fingir que somos contra a indústria cultural (mas sempre bem vestidos), falar inglês para poder falar de inovação e design thinking, esconder qualquer carência afetiva-financeira-intelectual e disfarçar a nossa falta de assunto. Contudo, você é especial porque tem a cabeça aberta, ou seja, a mesma alienação de quem tem a cabeça fechada. A diferença é que você diz “tanto isto quanto aquilo” e o bitolado diz “ou isto ou aquilo” – ambos sem nada questionarem, ambos caindo na armadilha da qual pensam ter escapado. Leia mais…»

Filosofia do Design, parte XLIII – o Design Conceitual

* texto originalmente publicado no Design Simples.

“…o fundo do poço da vergonha foi atingido quando a informática, o marketing, o design, a publicidade, todas as disciplinas da comunicação apoderaram-se da própria palavra conceito e disseram: é nosso negócio, somos nós os criativos, nós somos os conceituadores!” (DELEUZE; GUATTARI, 2004, p. 19).

Os termos conceito e conceituação são recorrentemente utilizados por nós, designers. Embora haja uma ampla bibliografia sobre isso, trata-se de uma confusa etapa projetual que ora é localizada como ponto de partida, ora como parte do processo e ora como justificativa posterior. De todo modo, há sempre a necessidade de se representar ou ilustrar um conceito, como se fosse uma espécie de produto à parte, um tipo de aplicação e objetificação da criatividade em algo que possa ser vendido e utilizado de maneira eficaz. Leia mais…»

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