produtificação

Recentemente uma crônica (em inglês) perguntava se a Lego™ tinha vendido a alma para o demo. Curiosamente o mesmo exemplo que eu tinha usado alguns meses antes num debate no RLab. Basicamente a ideia é que os kits da Lego vem se tornando mais elaborados e complexos (despertando certamente em mim aquele célebre WANT) mas que ao mesmo tempo parece que também se tornam menos criativos.

Vamos explorar aqui a hipótese de que se trata de um fenômeno de produtificação: Para transformar uma coisa (genérica) em um produto é preciso “fechar” essa coisa.

O exemplo do Lego é interessante, já que trata de um brinquedo. Quando criança, influenciado por Star Wars, eu fiz uma nave espacial com as peças do kit “Casa” do Lego. Em retrospectiva, agora acho que era uma nave com um “quê” de casa, bem quadrada, sem cara de máquina. Mas era uma nave. Leia mais…»

Design e tecnologia a partir de Heidegger

Semana passada tive a oportunidade de participar, ao lado de meu parceiro anticaster Ivan Mizanzuk, de um debate sobre design e tecnologia no Pavão 2012, semana acadêmica da ESDI. Devo agradecer ao Daniel, Ricardo e Almir pela receptividade e companhia, e esclarecer que não pude participar da mesa-redonda na UBA-UFRJ por puro azar, pois eu queria muito, muito mesmo, ter participado. Em todo caso, quero comentar sobre uma das questões levantadas na ESDI, uma pergunta que me pareceu representar a principal preocupação dos alunos que ali estavam: como a tecnologia (no sentido de domínio sobre a ferramenta, especialmente um software) influencia (ampliando ou limitando) o trabalho do designer? Leia mais…»

considerações sobre design emocional

[Esta não é uma resposta definitiva, mas espero que satisfatória a todos que me perguntam por que considero esse assunto tão chato.] 

Emoções costumam ser entendidas cientificamente como obstáculos ao nosso acesso à realidade, como algo que nos confunde, que distorce nossa percepção das coisas. Assim, Donald Norman merece certo crédito em seu “design emocional”: sob o viés da psicologia cognitiva, ele procura demonstrar que quando nossas emoções alcançam nossas capacidades cognitivas, estamos gerando um pensamento de design, concluindo que todo indivíduo capaz de “perceber com emoção” é potencialmente um designer. Bonito, mas não concordo. Leia mais…»

Pink Floyd, espaço-tempo e colaboração

Tenho escutado muito Pink Floyd esses dias.

“I’m not sure. I’m exceedingly ignorant—”

The young man laughed and bowed. “I am honored!” he said. “I’ve lived here three years, but haven’t yet acquired enough ignorance to be worth mentioning.” He was highly amused, but his manner was gentle, and I managed to recollect enough scraps of Handdara lore to realize that I had been boasting, very much as if I’d come up to him and said, “I’m exceedingly handsome…”

“I meant, I don’t know anything about the Foretellers—”

“Enviable!” said the young Indweller. (…)

- Ursula LeGuin, The Left Hand of Darkness

Por esses dias, li o post de Eduardo Camillo e pensei que nós não construímos conhecimento como deveríamos por aqui. Leia mais…»

improvisação

lâmpada com efeitosThomas Edison não escolheu a lâmpada. Ele criou a lâmpada. Apesar de que ele fez uma lista de todos os possíveis materiais para um filamento e testou pentelhamente um por um. Apesar de que ele sabia o que ele queria fazer muito antes de ter conseguido. Apesar de que a lâmpada era uma coisa que todo mundo meio que sabia que devia ser possível de algum jeito. Mas ainda assim escolhemos chamar essa ação de “invenção”. Claro, também poderíamos ter chamado de “abacaxi”. Mas vamos assumir temporariamente o (mal) pressuposto de que a palavra importa. Por que não se trata de uma escolha? E por que isso importa?

Como nos mostra Barry Schwartz (no video do último post), a fixação que nossa cultura tem com “escolhas” vem de um recalque mais profundo com a “liberdade”. Como nos mostra David Graeber (num livro que vocês não podem ler senão passarão a achar todas as minhas ideias requentadas), essa fixação do ser-livre só aparece numa sociedade em que muitos são não-livres, ou escravos ou escravos do salário ou algo do gênero. Leia mais…»

Síndrome criativa de Estocolmo

Gostaria de deixar claro de antemão que esse texto é a realização da tentativa de desmistificar a atividade criativa contemporânea.

Em minha vivência profissional e acadêmica, sou cercado de “criativos”¹, sejam eles do design ou da publicidade. Não poderia deixar de ser, afinal, sou designer de formação que trabalha em agência. Entre eles, muito me impressionam por conseguirem criar efetivamente sem muita dificuldade; bem ao contrário de mim, que preciso de muita pesquisa, de uma reformação de um repertório visual muito mais demorado antes de conseguir entrar na primeira etapa do processo criativo. O que me impressiona – e isso, aparentemente, acontece mais na publicidade – é que a maioria das pessoas busca criar coisas muito originais. Mas o que é original?

Antes de tentar responder essa pergunta, temos que dar alguns passos para trás. Ler mais deste artigo

Às vezes parecia que era só improvisar

Em geral eu aprendo rápido. A primeira coisa que aprendi em minha ínfima experiência docente é que não são apenas os alunos que não sabem ler, escrever e se expressar. É o mundo inteiro. Logo, o professor representa um ser inconveniente que insiste em dificultar a vida de todo mundo, um estorvo, um chato, um frustrado.

Por isso a educação facilmente se degenera em didatismo simplista ou em erudição eremita, justificando muitas vezes a fé reformista de professores paulofreirianos que se utilizam da sala de aula para converter alunos em militantes produtivos na tentativa de realizar utopias irrealizáveis (pela necessidade messiânica de nunca realizar-se). Leia mais…»

o design e a internerd

xkcd commemorates the end of Geocities

xkcd commemorates the end of Geocities (Photo credit: secretlondon123)

Na página 207 do livro “Design para um mundo complexo” Rafael Cardoso afirma que:

A internet jamais teria alcançado sua repercussão atual se não fosse pela elaboração das interfaces gráficas que dão sustentação à world wide web. (…) Em suma, do ponto de vista de sua difusão social, a rede é um fenômeno tanto de design quanto de informática.

Essa afirmação está errada, fatualmente, mas o problema maior é quão monstruosamente enganosa ela é. Ler mais deste artigo

design sem bula

“Ornamento é crime” — “Menos é mais” — “Forma segue Função” — a julgar pela {baixíssima} qualidade dos slogans você imaginaria que o funcionalismo teria já há muito desaparecido dessas terras sem deixar vestígios. E o curioso foi que não, aqui estamos em pleno século XXI e ainda algumas pessoas se auto-proclamam funcionalistas, sem contar as legiões que pensam funcionalisticamente até quando acham que estão “fazendo arte” e jamais se dão conta disso. Claro, parte do problema é o horrorosamente ruim estado do anti-funcionalismo, que chega a ser pior do que o problema original. Mas (pra manter minha fama de bonzinho) prefiro lembrar das colocações funcionalistas menos problemáticas. Leia mais…»

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